segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Cinco pitacos sobre 'Vai Malandra'

Ensaio
Por Leandro Oliveira, músico e cientista social.

Acesse o clipe aqui: Vai Malandra



1. Nenhuma garota dos clipes de funk com milhões de views se veste como Anitta. Os clipes de funk são ambientados em praias paradisíacas com lanchas, mansões com piscina, motos e carros de luxo, garotas de biquínis sóbrios e shorts jeans. Anitta rebola em um short vermelho cavado e enrolado na lateral sobre outro short de oncinha, blusinha rosa, correntinha de ouro na cintura, muitos colares e bota de bandeira do Brasil acima do joelho. Piscina na caçamba do caminhão, biquíni de fita e laje no Vidigal. Mas os clipes de funk são visualmente pobres, repetem exaustivamente os mesmos planos e enquadramentos, tomadas aleatórias, narrativas frouxamente construídas. Vai Malandra é puro cálculo e eficiência. A estratégia estética em Vai Malandra tem a ver com um imaginário sobre periferia, um exagero proposital de características visuais que remetem a uma 'identidade cultural'. O local para o olhar global como em Kali Uchis, M.I.A., Awkwafina ou mesmo Rihanna e Beyoncé. O videoclipe combina meticulosamente o imaginário cinematográfico do Cinema de Favela e a estética pop de uma periferia global. O resultado é uma filmagem rica de fetiches de pobreza em contraste com filmagens pobres de fetiches de riqueza. Não existe fora no jogo do poder.

2. As imagens são muito rápidas, mas anos de Tarantino, MTV e Guy Ritchie nos ensinaram a compreender tomadas relâmpago. A primeira batida grave do funk coincide com a bola branca acertando a bola vermelha no bilhar. Metáforas eróticas em planos fechados: taco, mesa, Anitta. Na mesa verde, bolas vermelhas e amarelas, exatamente as cores do short e da bota de Anitta. As cores guiam nossos olhos pela mise-en-scène. Sunga, bandana, casaco, boné vermelhos linkando locações distintas. Nesses primeiros trinta e tantos segundos, o rosto de Anitta não aparece. Ela desce rebolando em frente à mesa, a câmera se desloca e na direção exata de seu quadril aparece um objeto fálico em primeiro plano, como se ela sentasse nele. Encontramos Yuri de vermelho deslizando a mão empunhada pelo taco de bilhar. A câmera encurrala Anitta contra a mesa. Essas cenas intercalam com a favela sociológica. Tomada panorâmica lateral e aérea. Um galo salta e um cachorro puxa uma canga do varal. Cacoetes do retrato da periferia. Em Invenção da favela, Lícia Valadares explica como a favela era vista desde o início do século como espécie de sítio na cidade. E no cinema a cena antológica da perseguição à galinha além de muitos cachorros de rua em Cidade de Deus explicam a naturalidade com que compreendemos a figuração desses animais. O rosto de Anitta só aparece quando ela canta. Cena da laje com as casas ao fundo. A favela sociológica encontra a favela sensual. Anitta está seminua, é a recompensa da expectativa. O nível de meticulosidade nas referências internas à narrativa é francamente impressionante. Por exemplo, no plano da laje, Anitta é enquadrada no centro da tela, no lado esquerdo um conjunto de casas acinzentadas e, no direito, um predinho verde mais ou menos da mesma forma e altura. Close nas bundas com biquínis de fitas. Uma mão batuca com dois anéis, um acinzentado e outro verde.

3. Dj Yuri usa batidas agudas espaçadas e as batidas super graves apenas no primeiro tempo do compasso quaternário. Zaac faz melodias com ar de espontaneidade, assobiáveis, construídas a partir do baixo. O uso de instrumentos de sopro nessas linhas graves (trombone em Embrazando e sax barítono em Vai Malandra) combinam uma sonoridade típica de fanfarras com uma estética sonora de desenhos animados. A estrutura de marcha algo cômica com uma suspensão no tempo quatro, o bumbo no tempo um e onomatopeias (uh, uh) nos tempos dois e três do compasso dão à linha melódica de Zaac o ar dos personagens amalucados de filmes e desenhos. A malandragem da letra é enformada na semiose, é uma melodia divertida, pra dançar brincando com o bumbum. A batida marcada de Maejor que aparece em cenas noturnas e chuvosas contrasta com as cenas iluminadas de Zaac. Mesmo no final, quando Maejor se junta ao grupo, não há interação com Anitta. A passagem do funk para o trap é um crescendo de efeitos eletrônicos que vai decompondo a síncopa na passagem de volta, breve intervalo e um efeito glissando ascendente em stacatto na região aguda do piano, com repique de caixa (1:43), volta o barítono.

4. Na cena final, o fluxo, a mesma eficiência técnica é aplicada a um retrato da diversidade. A funkeira negra e gorda Jojo Todynho em ângulo frontal, o modelo andrógino Goan Fragoso de oncinha e rosa numa clara referência ao figurino de Anitta, os cabelos crespos das garotas são capturados em imagens aéreas e tomadas em contra-plongée, que é a filmagem de baixo para cima à qual é atribuído um sentido de poder. Esse vocabulário não pode ser pensado fora da conexão com estratégias de marketing. O figurino de Anitta é da C&A e as peças estarão à venda nas lojas. A C&A tem encampado, pelo menos desde o início de 2016, a diversidade em seus comerciais e patrocinou o projeto CheckMate de Anitta. O recente show de Pablo Vittar na Augusta é um exemplo desse investimento. Mas também não pode ser pensado sem considerar que o áudio-visual é uma linguagem com vocabulário próprio e um videoclipe é um recorte intencional e propositivo sobre a realidade que 'retrata'. O desejo (que é também repulsa) pela favela-real, the real thing, a favela-verdade, é o desejo por uma mais-verdade antropológica, onde as coisas realmente acontecem.

5. Como se constrói o jogo entre política, desejo e mercado? Como lidar com a monetização de pautas políticas? O que diz sobre nós essa fascinação pela alteridade? O que se passa nos atravessamentos entre real fílmico e real fenomenológico? Ao que parece, aqui é o momento em que dou o veredicto se o funk emancipa ou fetichiza, se a bunda empodera ou vulgariza, se as tranças são apropriação ou o retorno às raízes, se o clipe é a expressão legítima da favela ou se é aperitivo para o turismo sexual. Mas eu vou ficar devendo.



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