segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A miséria da filosofia pernambucana

Ensaio
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.

Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE

A crise política que vivemos atualmente exige reflexão e criticidade. Esperamos isso principalmente do senso comum, que a doxa e a linguagem cotidiana não reproduzam meros preconceitos, mas signifiquem algo além de opiniões e diálogos irrefletidos. Não apenas na tradição filosófica pernambucana, mas em nossa própria história política, existe um compromisso com causas democráticas e libertárias construído por diversas gerações e que não podemos perder de vista. É assombroso que o Departamento de Filosofia da UFPE tenha se calado diante de fatos e posturas protagonizados no interior do CFCH e que não correspondem com o papel de vanguarda e de liderança que o pensar filosófico e as ciências humanas sempre representaram para Pernambuco e se espraiaram pelo Brasil com ressonância pelo mundo.
Sinto-me incomodado com as simplificações e grosserias que estão sendo atribuídas a Karl Marx e que se “respaldam” do capital simbólico de um Departamento no qual estudamos com profundidade e rigor o pensamento de Marx. Não apenas ao espaço acadêmico devemos o cuidado para não vulgarizar nenhum tipo de teoria, mas fundamentalmente ao próprio pensar, ao que nos torna humanos e seres comunicativos por excelência. O nível de irresponsabilidade é tão grande que não precisa ser reproduzido para não constranger aqueles que se exercitam nos conceitos e pensamentos filosóficos. A dialética é o que está sendo aviltada a partir de comentários esdrúxulos acerca não apenas do marxismo, mas também acerca da democracia, da pluralidade religiosa e tantas outras manifestações de intolerância e discriminação.
O curso de Filosofia da UFPE não é uma propriedade privada, não pode servir de palco para o desrespeito e pregação ao ódio. Entre tantas coisas que assistimos desmoronar no Brasil e no mundo, podemos, sem dúvida, colocar a tradição filosófica de Pernambuco entre aqueles valores que não resistiram ao mar de incompreensão e autoritarismo que assolaram nosso país. Atacar o pensamento de Marx conforme assistimos nos últimos tempos é um atestado de ignorância e um empobrecimento da esfera pública, algo que não combina com o republicanismo, nem com a tradição libertária e revolucionária de nosso povo.
Quando ingressei na UFPE, tive o privilegio de assistir ao Professor Benedito Nunes realizar a aula inaugural do Departamento de Filosofia, e recordo-me de seus comentários elogiosos ao grande pensador alemão e de ter citado o Manifesto do Partido Comunista para ilustrar as contradições da contemporaneidade. Não apenas a disciplina chamada “marxismo” ministrada por excelentes professores, mas o próprio cultivo do saber, do diálogo e da razão sempre permearam e estiveram presentes nos debates e nas diversas pesquisas que sempre respaldaram o pensamento marxiano e a tradição dialética. Só nos resta lembrar o poeta Drummond, seu livro Boitempo, seu poema O som da sineta: “O som antigo evola-se, | deixa baixar o medo”.

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