domingo, 12 de novembro de 2017

Olavo de Carvalho chega à UFPE e traz bolsonaristas e carecas de direita

Ensaio
7 de novembro de 2017
Por Coletivo Transição, agrupamento de ativistas.



Pelo menos desde 2013 com as jornadas de junho, percebemos de modo mais visível a presença de grupos organizados de direita e extrema direita em ação nas ruas. A cor vermelha foi identificada com corrupção, falsidade ideológica, captura privada do público e manipulação das vontades, e vários militantes de esquerda em geral, petistas ou não, foram expulsos de manifestações sociais massivas. Os direitistas, militaristas, neoconservadores e neofascistas perderam a vergonha e passaram a defender abertamente suas pautas fortemente conservadoras nos costumes e, para uma grande parte deles, ultraliberais na política socioeconômica. O MBL – Movimento Brasil Livre – e o movimento Vem pra rua! surgem neste contexto. Grupos de ataque de direita, como o Carecas do Brasil ou de supremacistas (racistas) brancos, reorganizam-se.
Os 13 anos de lulopetismo, de mediação e conciliação pelo alto entre grandes empreiteiros, latifundiários e toda uma camada de dirigentes do mundo sindical, além das forças políticas fisiológicas e coronéis da cidade e do campo, infelizmente desarmaram os movimentos sociais e a organização popular autônoma. Com a ausência de mobilização progressiva dos movimentos sociais populares, os grupos de direita encontraram o caminho livre para avançar, muitas vezes de modo violento. O lulopetismo tinha perdido sua base social histórica de apoio. O golpe contra ele tornou-se então possível, especial e principalmente com o esgotamento do ciclo “neodesenvolvimentista” da década anterior.
Após o golpe parlamentar, jurídico e midiático contra a presidente Dilma Rousseff, a ofensiva ganhou força. Exibições artísticas canceladas [1]. Critérios duvidosos para inclusões cinematográficas de produções conservadoras em festivais de cinema [2]. Manifestações solicitando “intervenção militar constitucional” [3]. Eventos e debates com intelectuais [4] ou sobre revoluções sociais atacados nas redes sociais, invadidos e inviabilizados pela gritaria e à força [5]. Teriam as esquerdas perdido a batalha ideológica e cultural? Chegaram algum dia a tê-la vencido?
A direita ideológica afirma que o Brasil está contaminado pela “infecção do esquerdismo”, com artistas, intelectuais e militantes universalmente espalhados por “aparelhos privados de hegemonia” (escolas, universidades, museus, igrejas, institutos, sindicatos, etc.). De acordo com tal visão, é necessária portanto uma “guerra total” contra tal infecção, que é violenta e intolerante, antes que “a civilização tal como a conhecemos” (família, tradição, propriedade, valores morais, religião, etc.) seja destruída. O mecanismo ideológico funciona mais ou menos assim: cria-se um adversário imaginário com capacidades, forças e características inexistentes – um espantalho – atacando-o preventiva e persistentemente e vendo-o em cada manifestação política e/ou cultural alternativa, ou sempre que o mínimo de redistribuição estatal ou pública é proposta. Um dos aspectos atuais da contrarrevolução preventiva de que nos falou Florestan Fernandes.
Para os neoconservadores, mesmo o PT é “comunista”. Da mesma forma que nos EUA o Obamacare também o foi. Para eles, esquerda = corrupção, assassinatos, arbítrio, intolerância, violência institucionalizada, totalitarismo, barbárie. Marx, Engels, Bakunin, Lenin, Trotski, Fidel, Che, Stalin, Mao, Marighella, Caio Prado Junior, Florestan Fernandes, Lula, José Dirceu, etc. passam a ser todos iguais. As divergências e incompatibilidades entre vários deles é apagada. Os militantes e intelectuais de esquerda ou os marxistas críticos do “socialismo realmente existente”, de ontem e de hoje, muitos deles isolados, silenciados, exilados ou assassinados na ex-URSS, China ou outros locais, não existiram nem existem.
Como um transtorno obsessivo-compulsivo, e que se alimenta da disseminação do medo, a ameça “comunista”, “feminista”, “gayzista”, “ateísta”, etc. passa a ser vista em todo lugar. O discurso é em geral virulento, sem rigor teórico ou político minimamente consistente. Gritos, ameaças, ataques e palavrões. Algumas expressões são muito usadas: “covardes”, “canalhas”, “pusilânimes”, “animais”, “desgraçados”, “idiotas”, “bandidos”, “criminosos”, e por aí vai (para um exemplo, ver vídeo da nota 8).
Atacando-se um liberal moderado ou um social-democrata como se fosse de esquerda ou comunista, fica vedada de partida qualquer alternativa à esquerda do liberalismo ou da social-democracia. A própria possibilidade de existência e adesão que uma tese como essa é capaz de gerar, indica o período propício para o avanço das ideologias intolerantes de direita que vivemos, e a necessidade de resistência e unidade dos que desejam redistribuição profunda, reformas sociais estruturais e a transformação substantiva da atual ordem social. O contexto de crise social, econômica, política e cultural produz uma combinação em que o ódio de classe se expressa em seu grau mais violento: grande parte das classes médias tradicionais sentem-se ameaçadas de perder posição social, tem seus espaços e fronteiras de classe profanados por indivíduos de camadas mais baixas e veem-se em dúvida e inseguros em relação ao futuro. Bolsonaro, Olavo de Carvalho e consortes canalizam esse ódio e o transformam em alternativa política autoritária contra os supostos responsáveis: as esquerdas, as feministas, os sindicalistas, os ativistas de movimentos sociais, as lésbicas, os gays, etc. Mas, aqui, o ataque não é nem será apenas contra militantes, intelectuais e ativistas, mas, sim, contra os direitos sociais, políticos e econômicos dos trabalhadores e da maioria da população. A grande burguesia já cogita apoiar Bolsonaro em um embate eleitoral contra um eventual candidato menos submisso aos ditames completos do mercado. Dá-se, então, o casamento entre as classes médias amedrontadas e raivosas e os interesses do grande capital internacional e nacional. Sem um bloco alternativo de classe dos trabalhadores, mulheres, negros, LGBTT, camponeses, sem-teto, sem-terra e demais despossuídos, o caminho da vitória da reação ficará pavimentado.

Até onde pode ir a liberdade de expressão?
É nesse contexto que acontece a exibição do filme O jardim das aflições (Josias Teófilo, 2017), sobre Olavo de Carvalho, um dos gurus dos neoconservadores brasileiros, no auditório do CFCH da UFPE no dia 27 de outubro de 2017. Não há nada de problemático em si com isso. Conservadores, liberais, social-democratas, socialistas, comunistas ou anarquistas tem o direito de realizar suas atividades e debater suas ideias. Os movimentos estudantis da UFPE como forma de concorrer com a exibição da película do conservador, organizou no espaço externo do CFCH uma atividade alternativa: poesias, discursos, exibições de vídeos contra o fascismo, a intolerância e a ditadura militar. A exibição do filme sobre Olavo de Carvalho foi bem divulgada e o auditório do CFCH estava lotado. A mobilização reativa das esquerdas estudantis ao filme ajudou a promovê-lo? É possível.
Por que os movimentos estudantis organizaram uma atividade no mesmo dia e hora e a 30 metros da atividade da direita? Não seria isso uma atitude provocativa em si? Não, se o intitulado filósofo do filme de Teófilo expressa opiniões e visões que são incapazes de tratar com igualdade e legitimidade as pessoas que não compartilham de suas posições. O problema reside quando determinadas ideias exigem a destruição do outro ou servem para organizar a intolerância violenta contra os diferentes, disseminam o preconceito e o ódio de classe, raça e gênero. É mais ou menos isso o que ele faz. Vejamos exemplos: (1) “Bons tempos aqueles em que os interessados davam o cu sem fazer disso um movimento social. Pelo menos não gastavam nisso verbas do Estado”; (2) “Cada milímetro que a direita cede à esquerda corresponde a mais meio metro de pica que entra no seu cu”; (3) “Depois de se foder muito, o sujeito empina o nariz e diz que é orgulho gay”; (4) “Guerra contra a masculinidade. Está acontecendo hoje, mas eu vi o começo da coisa muitas décadas atrás. Aos onze anos, minha família estava numa pindaíba que fazia gosto, e minha mãe me mandou passar uns tempos com umas parentes mais abonadas que, como vim a descobrir, tinham profunda ojeriza a tudo o que fosse viril, macho, forte e corajoso. Não aguentei muito tempo. Horrorizado com o processo de boiolização forçada, fugi do conforto para voltar a compartilhar a merda com a minha gentil mãezinha. Meu estômago sofreu, mas minhas bolas salvaram-se” (Ver nota 2). Pode-se ser tolerante com intolerantes? Deve-se buscar o diálogo com aqueles que desejam destruir o outro?

A entrada principal do CFCH e o “fazer-se” dos sujeitos coletivos
Nenhum problema teria acontecido se cada um dos integrantes das atividades ficasse concentrado nos seus respectivos espaços físicos. Acontece que os Carecas do Brasil e bolsonaristas, ao invés de ficarem no interior do auditório assistindo ao filme sobre o pseudofilósofo, ou na frente da porta de entrada deste, decidiram se localizar ao lado da atividade dos movimentos estudantis, no espaço externo do CFCH. Nenhum militante de esquerda buscou acabar, provocar ou inviabilizar a exibição do filme, ainda que alguns deles estivessem dentro do recinto. Procuraram concorrer contra a exibição do filme com uma atividade alternativa, pelos motivos colocados no tópico anterior. Os recentes episódios de invasão e inviabilização de debates e atividades públicas presenciais são orquestrados pelas forças organizadas de direita. Depois da presença dos Carecas e bolsonaristas no espaço físico da atividade das esquerdas, no lado externo do CFCH, e de várias provocações, troca de xingamentos e chutes em cadeiras plásticas, os estudantes e militantes de esquerda entraram no prédio do CFCH e se aglomeraram exigindo que os Carecas e bolsonaristas se afastassem e se dirigissem para a sua própria atividade. A partir daí, a sequência das ações ocorreu assim: (a) abertura de via alternativa de saída do prédio do CFCH pela direção do Centro para os espectadores do filme sobre Olavo, para evitar o contato físico entre participantes de ambas as atividades; (b) permanência de grupos de bolsonaristas e Carecas do Brasil – muitos que não são estudantes da UFPE – no interior do CFCH, buscando sair pela entrada onde se encontravam os militantes estudantis e os estudantes de esquerda; (c) tentativa de furar o bloqueio das esquerdas à força por um dos integrantes do bloco dos Carecas e bolsonaristas; (d) embate físico entre membros dos dois agrupamentos.
A disputa pela saída ou bloqueio da entrada principal do CFCH pode ser vista como uma questão menor, mas diz respeito à produção de autoconsciência dos coletivos em embate, ou a autoprodução dos respectivos estudantes como sujeito coletivo, ou como categoria ou movimento social, relacional e oposicionalmente aos Carecas e bolsonaristas, e vice-versa: a disputa pela “conquista” da porta principal do CFCH revela a disputa pela concepção de si mesmo como força coletiva. Daí sua importância.



A direita e a “pós-verdade”
Antes e mesmo durante o embate físico, vários celulares podiam ser vistos filmando o episódio. Todos, ou quase todos os vídeos que foram postados nas redes sociais, vieram do bloco da direita. Mais um indício da maior organização dos ativistas conservadores. O enxame de vídeos, postagens e notícias sobre o embate físico no CFCH viralizou nas redes sociais. A direita está também mais organizada na disputa pelas definições ou narrativas dos fatos. Uma hora depois, o JC já havia publicado uma notícia em seu site [6]. Uma matéria tendenciosa e que reproduzia a versão da direita: os estudantes de esquerda da UFPE são intolerantes, violentos e não permitem a própria existência de atividades conservadoras na universidade. Uma descrição maniqueísta e primária, mas capaz de manipular a opinião dos que não estiveram presentes. Depois do JC, veio a reprodução quase que literal do conteúdo nos sites dos grandes jornais do sudeste do país: Estadão [7] e Folha de São Paulo. Num contexto de “pós-verdade”, a direita venceu no terreno midiático e na produção de versões tidas como verdadeiras. O vídeo postado mostra um dos estudantes do bloco da esquerda empurrando outro do bloco da direita e iniciando o embate. Fotos e montagens de cartazes com um careca sangrando e as legendas ligadas à suposta intolerância das esquerdas são disseminados pelo MBL. Nada sobre (a) a tentativa, por um dos integrantes do grupo de direita, de atravessar à força o corredor bloqueado pelos estudantes de esquerda objetivando sair pela entrada onde estes se aglomeravam; (b) a presença ostensiva e provocativa dos Carecas e bolsonaristas (não estudantes que vieram para a UFPE preparados para a briga e com armas brancas) colados à atividade externa das esquerdas; (c) anulou-se também o contexto e a análise do discurso de disseminação de ódio e intolerância de Olavo de Carvalho nas redes sociais, emulado por um professor de Filosofia do CFCH – responsável pela reserva do Auditório para a exibição da película –, que ajuda a indicar os motivos da existência de uma atividade dos estudantes de esquerda simultânea e alternativa ao filme produzido sobre aquele.

E agora?
O mesmo professor de Filosofia da UFPE reservou o auditório do CFCH para outro evento no dia 6 de novembro: a “descomemoração” da revolução russa, que completa 100 anos em 2017. Tenta continuar disseminando as ideologias de intolerância e do ódio contra as esquerdas e o programa misógino, anti-povo e racista de Olavo de Carvalho. Em suma, busca continuar organizando os neoconservadores, com neofascistas incluídos.
A direção do CFCH informou que a atividade não se realizaria por questões de segurança. Acabou acontecendo sem problemas. O mesmo professor, no dia da exibição de O jardim das aflições, estava na linha de frente das provocações, em vez de trabalhar para evitar os confrontos físicos. Para nós, este deveria ter ser o motivo da proibição: além de disseminar abertamente o discurso de ódio em redes sociais, e de não combater a presença de grupos armados de direita no interior da universidade, o violento professor utiliza-se do álibi do instituto da liberdade de expressão para atacar, desmoralizar, deslegitimar, difamar tudo o que para ele é assemelhado às esquerdas [8]. Acha feio tudo o que não é espelho. É incapaz de debater livre e abertamente com grupos que possuem visões opostas às suas.
Enfim, não se combate a intolerância, o ódio de classe, a misoginia e o racismo de direita com diálogo e argumentação. Até por que esta direita não está disposta a debater ideias. Não está disposta a mudar de opinião a partir da força dos argumentos. Contra a violência da direita, a única alternativa é a organização decidida e a força concentrada dos movimentos sociais e populares. Sem isso, a intolerância e a violência de direita continuarão crescendo. Os Carecas do Brasil vieram prontos para a violência física. Organizam-se como uma “milícia urbana” com armas brancas (pelo menos): soqueiras, tacos de beisebol, etc. Se os movimentos sociais não se organizarem e se prepararem para eventuais embates físicos, serão desmoralizados.
As esquerdas devem fortalecer seus organismos unitários de ação, como as frentes, promover a disputa pela hegemonia social e se preparar para as batalhas físicas e das versões e narrativas que virão. Não devem se concentrar em reagir simultaneamente aos eventos da direita, mas em construir os seus próprios. Se não fizerem isso, serão derrotadas física, social, cultural e discursivamente. Não se é permitido ser tolerante com aqueles que se utilizam da liberdade de expressão e de reunião como justificativa para organizar a violência da reação e disseminar o ódio e a intolerância contra o povo, as mulheres, os negros, as LGBTs, etc.



Notas
[1] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/museu-de-porto-alegre-encerra-exposicao-sobre-diversidade-apos-ataques-em-redes-socias.ghtml
[2] https://www.cartacapital.com.br/cultura/por-que-nao-tirei-meu-filme-do-cine-pe-mas-apoio-quem-o-fez
[3] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1832671-manifestantes-a-favor-da-intervencao-militar-invadem-plenario-da-camara.shtml
[4] https://revistacult.uol.com.br/home/sesc-pompeia-judith-butler/
[5] https://extra.globo.com/noticias/educacao/professora-da-uerj-hostilizada-durante-evento-sobre-revolucao-russa-22003793.html
[6] http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2017/10/27/exibicao-de-filme-sobre-olavo-de-carvalho-termina-em-confusao-na-ufpe-313534.php
[7] http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,exibicao-de-filme-sobre-olavo-de-carvalho-termina-em-pancadaria-na-ufpe,70002064071
[8] https://www.youtube.com/watch?v=Rq3fstte6J4

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