sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Faces “não tão ocultas” do capitalismo

Ensaio
Recebido em 29 de setembro de 2017.
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.



Uma das coisas que alimenta o nacionalismo é a ilusão de que tudo que é público pertence ao povo. Ora, todas as riquezas de um país tem mais de um dono, que são os patrões e os seus prepostos, enfim, os capitalistas, e estes segmentos formam a classe dominante. Entretanto, o próprio povo não tem nada a não ser exclusão, pobreza e miséria.
É muito comum, então, dizer-se que ao se vender empresas estatais, que na sua maioria são de capital misto, está-se vendendo um “patrimônio de um povo”. Sem dúvida e com toda a certeza o público é o Estado que representa uma determinada classe, a qual exerce o poder político sobre as demais, em todos os níveis e instâncias. E, portanto, pode-se concluir que a burguesia é sim a principal depositária de todos os bens de uma nação, enquanto perdurar o sistema capitalista, o capitalismo.
No atual mundo globalizado, em que estamos todos nós inseridos, ainda é muito comum se ouvir dizer que “a venda do patrimônio público e privado certamente vai empobrecer o país e é uma consequência da falta de responsabilidade de um governo”. Ledo engano, uma vez que, do ponto vista das corporações empresariais tudo é negociável, e se trata de uma específica questão de custo e benefício, de oportunidade. Contudo, os nacionalistas de ontem e de hoje sempre dizem o contrário, ignorando a realidade que nos cerca e o que está por trás de tudo isso, que é o sistema socioeconômico em vigor junto com todas as suas recorrentes mazelas sociais, induzindo-nos a pensar desse modo.
Estudos e projeções, baseadas em levantamentos estatísticos, sinalizam que em países da América Latina e do Caribe, a taxa de desemprego medida deve saltar de 8,1% para 8,4%. Percentuais estes que superam a dos países desenvolvidos, que devem ter uma taxa média de 6,2%. Dizem ainda que “sem um crescimento consistente da economia mundial, as populações, com trabalhos precarizados, devem aumentar ainda mais nos próximos anosindicando um curso repetitivo, em espiral ascendente. A previsão é que o número de pessoas desempregadas em todo o mundo chegue a aproximadamente 201 milhões, em precárias situações de vida e moradia, e sem perspectivas de superar a pobreza crônica.
Mesmo assim, o sistema procura menosprezar essa tendência global com alguns discursos falaciosos para continuar enganando a todos, desde que já não tem mais respostas. Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a quantidade de desempregados continuará aumentando nos próximos anos porque o ritmo de acréscimo da força de trabalho supera o da criação de empregos em todas as frentes. E, por isso mesmo, alerta que o atual “crescimento econômico” se dá muito aquém do esperado, fato que inibe a criação de empregos suficientes, e de qualidade, para atender a demanda ininterrupta por trabalho.
O desemprego nas regiões do Caribe e da América Latina, assim como na África Subsaariana, será muito mais grave desde que ainda enfrentam os efeitos recentes da recessão econômica em vários de seus países. E esse dado demonstra que isso pode levar ao incremento da penúria e dos movimentos migratórios em direção a outras nações, gerando uma série de consequências, as quais agravam ainda mais a atual crise humanitária que se reproduz em proporções avassaladoras. Fugindo das guerras e das epidemias, numa escala nunca vista antes, migram para outras terras sem rumo definido, em busca de um canto para se recompor e reconstruir as suas vidas. Um sintoma bem claro e evidente da incapacidade do próprio sistema de solucionar essas cruciais questões, abrindo mão da ganância e dos seus elevados ganhos para investir a favor da erradicação da miséria e da pobreza, por opção consciente para uma mudança efetiva.
Porém, sabe-se muito bem que isso jamais se concretizará, visto que o capital sempre se movimenta em função do lucro que ele possa obter em suas intervenções econômicas. De outro lado, um quadro muito triste revela as situações de miséria em todas as partes do mundo, com lixões a céu aberto onde pessoas disputam com os urubus restos de comida jogados fora. Um retrato calamitoso e inconsequente da falta de interesse para resolver os problemas da fome sistêmica. Seres humanos que não tem recursos para o seu próprio sustento, mesmo quando realizam “bicos” em algumas atividades, com ganhos que não são sequer suficientes para minimizar a falta de nutrição diária reduzida, tão necessária para a sobrevivência de suas estropiadas existências.
Mesmo assim, alguns dirão que o sistema capitalista avança na criação de novas tecnologias e de inovações que chegam aos mercados todos os dias, demostrando a sua “incomensurável pujança”. Curso este que interessa somente aos grupos econômicos, os quais investem cada vez mais na automação em vários setores, até mesmo no campo – para o plantio e colheita das safras. E nada disso se dá em benefício da maioria das populações quando, em direção oposta, provoca e acentua a perda de postos de trabalho, tendo-se menos gente para executar as tarefas inerentes ao sistema produtivo em todas as suas áreas.
Nesse sentido, e diante desse quadro, imprescindível se faz denunciar e combater o capitalismo, desmascarando-o e impopularizando-o em todos os lugares possíveis. Ou seja, é mais do que preciso e importante mostrar que ele é o responsável por todas as chagas abertas que afligem até hoje a humanidade como um todo. Não se tem que esconder isso de ninguém, visto que é através da plena conscientização política que se poderá mudar a compreensão de todas as coisas. E desta forma se construir por meio de um processo, radical e profundo, uma nova e verdadeira sociedade a ser regida com justiça, paz e fraternidade.
As faces não tão ocultas do sistema capitalista estão bem visíveis em inúmeras circunstâncias, nas quais se expressam enfim a insanidade de um regime exaurido, que tenta se reinventar para continuar a existir como pode. E que assim sobrevive até o presente desde que os nacionalistas e reformistas não fazem um enfrentamento direto contra ele, como se fosse possível apostar na conciliação de classes e com isso amenizar a sua essência altamente predatória. Mas, num sentido inverso a tudo isso, a esquerda anticapitalista e revolucionaria deverá cumprir com seu papel histórico de desmistificar o capitalismo e insistir com toda a firmeza na luta diuturna pela transformação política e social.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.