quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Sobre a proposta de uma hermenêutica aplicada aos estudos históricos (2)

Ensaio
Recebido em 12 de setembro de 2017.
Por Michel Zaidan Filho, professor titular de História da UFPE.

Walter Benjamin, filósofo e crítico literário.

2.
Estamos falando sobre um projeto de ensino e estudo de História intitulado “Mimese e História”, desenvolvidas no Departamento de História (UFPE) que gerou vários produtos: livros, vídeos, grupo de teatro e projetos de pesquisa. Foi também originalmente um das linhas de pesquisa do atual programa de Pós-graduação em História, depois extinta.
A palavra “mimeses” é de origem grega e significa a representação da realidade, ou ainda, imitação da natureza ou das ações humanas. Neste sentido, toda a cultura humana – seja técnica, científica ou artística – se baseia na capacidade mimética da humanidade. A “mimese” pode assim se exprimir através do trabalho, da linguagem ou da interação, para usar os termos da filosofia de Jena do jovem Hegel. Foi o filósofo grego Aristóteles o primeiro que tratou sistematicamente da “mimese” em sua obra A poética, considerada o primeiro tratado de estética que se tem notícia. Nesta obra, o pensador grego distinguia dois tipos de representação: uma variante imitativa, de natureza reflexa, descritiva, meramente reprodutora do real, e outra de tipo alegórico, recreativa ou transformadora da realidade. O primeiro tipo corresponderia à narrativa histórica, por tratar do passado tal como ele foi. Já o segundo corresponderia à literatura e as artes, por abordar o mundo, não a partir de que ele seria ou teria sido, mas do que ela poderia ter sido e não foi.
Essa aproximação da História a um tipo de “mimese” reflexa ou descritiva do passado foi, durante muito tempo, o modelo canônico da narrativa histórica, até alcançar a sua plenitude na historiografia do Renascimento e na apologia do chamado “método crítico”, consagrado pelo humanista italiano Lorenzo Valla e o monge francês Jean Mabillon.
Contudo, a nossa época foi muito crítica ao modelo aristotélico da narrativa histórica, tachada por muitos de uma espécie de “realismo ingênuo”. Com a crise do pensamento iluminista, abriu-se um sério questionamento à suposta neutralidade da velha crônica histórica, que passou a ser vista – graças à forte influência de Nietzsche e seus discípulos – como uma espécie de mera racionalização da vontade de poder ou um tipo de transformação da necessidade histórica em virtude metodológica. A antiga narrativa aparecia agora como uma modalidade de ditadura dos fatos, como uma pura e simples justificativa do existente, expurgando assim da escritura histórica outras dimensões essenciais como a dimensão estético-expressiva e a dimensão normativa (Habermas). Como mera descrição do que supostamente teria ocorrido no passado, a narrativa histórica se limitava a ser uma simples apologia disfarçada dos poderes e instituições dominantes, do tipo “foi assim, porque tinha de ser assim, e não podia ser de outro jeito”. Esses historiadores são o que Nietzsche chamou de adoradores do fato consumado ou idólatras do factual.
Foi preciso aguardar o advento de um novo “médium” do conhecimento – a linguagem – para que a narrativa ganhasse o direito de ser uma representação alegórica, intertextual, recreativa ou lúdica do mundo histórico. Isso, sobretudo, com o aparecimento daquela obra que seria tratada como “A poética moderna”: A origem do drama barroco alemão, do filósofo Walter Benjamin. Nesta nova compreensão da escrita histórica, o primeiro aspecto a ressaltar é o da plurivocidade da linguagem humana, de toda linguagem, incluindo a linguagem da História. A exuberância de sentidos em cada frase, cada palavra, cada forma de expressão verbal. Segundo, tal característica estaria intimamente associada ao inacabamento ou inconclusão essencial de toda experiência humana. Terceiro, a necessidade inelutável da interpretação, da exegese crítica do artefato literário, ou de qualquer forma de expressão revestido de natureza sígnica.
Interpretação que seria, invariavelmente, uma interferência, uma reescritura do texto lido ou escrito. Nesta acepção, toda leitura é um ato de interferência, um gesto de atribuição de sentidos, uma recriação de novos sentidos por um leitor crítico (estamos aqui no domínio da estética da recepção, de Hans Robert Jauss). Releitura feita a partir de sua experiência de vida, de seu saber prévio, de suas vivências e de sua visão de mundo. Esta hermenêutica reconstrutiva se faz à luz das imagens de desejo do leitor, seja de uma perspectiva micro ou macro-histórica. Acrescentemos aqui algumas das características da nova narrativa histórica: a polifonia dos atores, o dialogismo dos personagens, o recurso ao flashback, o fluxo de consciência etc.
Digamos: tais como os conceitos de longa duração e estrutura formaram o vocabulário comum da História e as Ciências Sociais, há mais de cinquenta anos, hoje os conceitos de Hermenêutica e Utopia constituem a linguagem comum da História e da Literatura, apontando para uma História “ucrônica” (Braudel) – a História dos possíveis, do que poderia ter sido e – ainda – não foi.

3.
O primeiro passo para a criação de uma hermenêutica aplicada aos estudos históricos e literários é, certamente, considerar o texto histórico ou literário um texto aberto, polissêmico, passível de múltiplas leituras e interpretações. Essa abertura de sentido do texto não deve, contudo, ser considerada subjetiva, arbitrária da parte do leitor em relação à obra. Mas deve residir na estrutura mesma do documento histórico ou literário. Deve, portanto, ser aceita como uma dimensão ontológica (essencial) da obra.
Tal abertura nos revela que cada obra, cada texto, cada documento, é, na verdade, constituído de inúmeras camadas de sentido, que vão sendo sedimentadas pelo seu processo de transmissão (a historiografia) ou pela tradição cultural. O que torna possível distintas apropriações do mesmo texto histórico ou literário por uma geração ou gerações diferentes. Neste ponto, podemos aproximar o texto de uma obra inacabada ou de uma escultura em estado de torso, onde cada leitor faz/extraí a sua conclusão.
O inacabamento essencial da obra histórica ou literária impõe naturalmente um regime de leitura/interpretação da obra que faz jus à multiplicidade de sentidos que ela possui. É aqui onde começa a relação hermenêutica propriamente dita. Se o texto histórico ou literário é um caleidoscópio de múltiplos sentidos, a leitura só pode ser encarada como um infinito processo de significação, sob pena de se fazer uma apologia ao sentido aposto pelo processo de transmissão do relato histórico, que por melhor e mais verdadeiro que seja, é apenas um dentre os vários outros sentidos possíveis.
Para isto, a relação hermenêutica inicia o seu trabalho desconfiando do sentido aparente (manifesto) do documento, buscando considerá-lo na sua estranheza e irredutibilidade ao tempo presente do historiador, procurando decompô-lo em seus elementos imediatos, situando-o em sua historicidade específica. Este momento é o que chamamos de “desconstrução simbólica” do texto. A ele corresponde ao que o filósofo Walter Benjamin intitula como “o teor coisal” da obra.
Um segundo momento da interpretação é o caminho de volta, ou seja, a reconstrução do texto histórico. Revolvidas as camadas de sentido subjacentes ao texto, separadas as camadas de sentido que se sobrepõe no texto, ultrapassado o sentido aparente e imediato, lemos/relemos o documento histórico ou literário, a partir das ruínas do texto, ou dos índices de possibilidades históricas recuperadas pela primeira fase da análise (a fase desconstrutiva). A segunda fase deve liberar as significações escamoteadas ou ignoradas pela historiografia ao longo do tempo. Essa releitura será tanto mais rica em consequências quanto for capaz de realçar a multiplicidade e a inesgotabilidade das significações textuais. E, também, na medida em que reconheça ser essa uma dimensão ontológica da obra. Esta etapa é denominada por Benjamin como “a fase reconstrutiva” do texto.
A relação hermenêutica não é uma simples releitura da obra/texto histórico. Ler, reler à luz das significações liberadas (ruínas) pelo processo de desconstrução/reconstrução do texto é acrescentar, mudar, reescrever o texto. Reescritura tanto mais importante quanto maior for o esforço de transgressão com a tradição historiográfica ou literária estabelecida. A esta reescritura, damos o nome de Interferência. Assim como a abertura de sentido é uma dimensão consubstancial à obra, a interferência é consubstancial à leitura da obra. Uma é a complementação da outra.

Fim da parte 2.

Bibliografia
Zaidan, Michel. Leituras em Walter Benjamin. Recife, NEEPD, 2016.
Zaidan, Michel. Ensaios de Teoria. Recife, NEEPD, 2014.

Aristóteles, um dos gigantes da Filosofia.

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