sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sobre a proposta de uma hermenêutica aplicada aos estudos históricos (1)

Ensaio
Recebido em 12 de setembro de 2017.
Por Michel Zaidan Filho, professor titular do Centro de Filosofia e Ciências Humanas/UFPE.

Wilhelm Dilthey (1833-1911).

"No Brasil, a recepção da obra de Walter Benjamin refez a conhecida tríade hermenêutica: ao invés de compreender, interpretar e aplicar, aqui seria: ler, aplicar e compreender" (Pressley).

1.
Wilhelm Dilthey uniu para sempre o destino dos estudos históricos à necessidade de uma capacitação hermenêutica, conferindo à História a sua maioridade científica. Antes dele, a História era identificada com a crônica – uma espécie de mimeses elementar – ou com uma variante da filosofia naturalista (positivismo, evolucionismo, monismo, etc.) do conhecimento humano. O discurso histórico não tinha autonomia científica, um estatuto teórico próprio. É como se os historiadores invejassem a posição dos físicos, zoólogos, químicos, matemáticos etc. Foi preciso esperar pela chegada do Historicismo – enquanto filosofia da História – para que as então chamadas “ciências do espírito” ganhassem uma metodologia própria. Isto foi feito a partir de uma distinção canônica feita pelo filósofo alemão entre as “ciências hermenêuticas” ou “interpretativas” e as “ciências nomotéticas”. As primeiras dedicadas a interpretar o significado da experiência humana de todas as épocas, ler os símbolos culturais da humanidade consubstanciados no imenso patrimônio imaterial dos homens. As segundas, preocupadas acima de tudo em fixar leis gerais aplicáveis a um sem número de casos semelhantes, a partir da observação empírica e do método indutivo.
Segundo Dilthey, o método hermenêutico baseava-se na compreensão ou entendimento do passado, não em sua explicação. Esta última caberia às ciências naturais, pois implica num distanciamento do pesquisador em relação aos fatos estudados. Seu conhecimento é extrínseco às coisas pesquisadas. Seu objetivo é prático: conhecer para manipular a natureza. Já a compreensão do passado passa necessariamente por uma relação de empatia, de transposição e recriação do passado. Daí que a experiência estética se oferece como um excelente modelo de conhecimento humano. A proposta “historicista” de Wilhelm Dilthey previa uma indissociável ligação entre o sujeito do conhecimento histórico e seu objeto de estudo. Uma matéria comum os informa: a historicidade. Daí, o relativismo cultural do conhecimento histórico, sempre dependente do contexto histórico do historiador.
O historicismo de Dilthey criou uma escola no âmbito rico e variado das ciências humanas (o Direito, a Filosofia, a História, a Sociologia), acentuando a necessidade da interpretação do signo cultural e sua relação com a tradição. Um dos grandes herdeiros da metodologia culturalista foi Hans-Georg Gadamer, apresentado como o pai da hermenêutica filosófica, em que alguns jusfilósofos tentaram se inspirar para desenvolver uma hermenêutica jurídica. Antes de Gadamer, o teólogo alemão Friedrich Schleiermacher já tinha esboçado os traços de uma hermenêutica aplicada aos estudos bíblicos. E grandes historiadores se apoiaram nessa corrente filosófica: Fustel de Coulanges, Droysen, Max Weber. Mas foi com Gadamer que a hermenêutica ganhou um aprofundamento e uma sistematização filosófica que jamais tivera.
A proposta hermenêutica de Hans-Georg Gadamer deve muito ao historicismo. Sem ela, perderia a sua especificidade. Gadamer valoriza muito a tradição, o cultivo da tradição. Seu método interpretativo parte dos “pré-conceitos”, do saber natural, legado pela tradição, que precisa ser levado em consideração na análise filosófica, e não repudiado como falso saber, ignorância ou ilusão. O trabalho hermenêutico que pressupõe a famosa tríade: conhecer, compreender e aplicar – fases inseparáveis do processo da compreensão – não pode desprezar ou desconhecer os “pré-conceitos”, deve reconhecê-los e valorizá-los. O método compreensivo implica naquilo que Gadamer chama de “círculo hermenêutico”: ou seja, só serei capaz de compreender o todo, porque faço parte desse todo. Assim, eu sou parte da compreensão que desejo efetuar sobre o passado. Estou inserido nessa totalidade cultural e histórica. Não há relação de estranhamento ou exterioridade entre mim e o mundo histórico. Mas de inclusão e implicação. No exercício hermenêutico, não se separam as fases do conhecer, compreender e aplicar. Tudo isso constitui um todo indissolúvel. Para Gadamer, a compreensão se aproxima do conceito grego de tekhné, ou seja, é um conhecimento prático, tem uma finalidade prática para a boa vida (encrasia). Então, o conhecimento é ética, não se dissocia do ideal normativo da “boa vida”.
Apesar da grande influência de Gadamer, foram feitas críticas ao conservadorismo do apego à tradição. Então, a hermenêutica seria um saber explicitador de um conhecimento já existente. Não à produção de um novo conhecimento. Seria como olhar o presente à vista do passado, filtrado pelos valores do passado. Como fazem os juízes ao julgarem uma questão. A lei é fruto do passado e os fatos do presente são analisados à luz da lei. Isto tem a ver também com o conceito de “fusão dos horizontes”, quando se olha a cultura do outro a partir da nossa cultura.
A nossa proposta hermenêutica para os estudos históricos, embora reconheça a imensa contribuição do historicismo e da hermenêutica gadameriana, vai além: pretende reconstruir o passado a partir de certa tradição, e não empatizar ou absolutizar a tradição de um modo genérico. O enorme risco da proposta gadameriana é tomar certa tradição (aquela legada pelos historiadores oficiais) como a única, e endeusá-la, copiá-la, glosá-la como a única, a melhor, a mais verdadeira. A nossa proposta é desconstruir essa tradição, em nome de outras tradições não tão valorizadas pela historiografia oficial. A tradição dos humilhados, espezinhados, vencidos e esquecidos, mas prenhe de esperanças, sonhos e ideais de libertação humana e social, de gênero, de raça, de orientação sexual, de classe etc. Refazer a tradição historiográfica legada pelos cronistas da classe dominante. Hermenêutica reconstrutiva, que tem em Aristóteles, mas, sobretudo em Walter Benjamin suas principais fontes de inspiração. Arrebatar das mãos dos dominadores uma tradição de continuidade e impor uma tradição de ruptura, de quebra, de descontinuidade.

Fim da parte 1.

Hans-Georg Gadamer (1900-2002).

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