quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Pedagogia da robótica

Conto
Recebido em 2 de setembro de 2017.
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.



Quem cria um robô não deixa de ser também um robô. A produção em série de máquinas exige não apenas operários qualificados para operar mecanicamente tais invenções, mas mentes que se habituaram a “pensar” como se fossem robôs. Foi pensando nisso que um grupo de trabalho resolveu criar um centro de pesquisas para aqueles indivíduos que se identificam tanto com as máquinas que chegam a se autorreconhecer como robôs. Existem indivíduos que sonham com uma humanidade robotizada, com a simplificação da vida informatizada, com o pragmatismo. A instrumentalização de tudo cria uma nova subjetividade que encara a vida não apenas como um negócio, mas como um mero instrumento manipulável e descartável ao mesmo tempo, bastante semelhante ao cotidiano dos robôs. Invejar os robôs se tornou uma doença coletiva, uma moda típica de nossa época que sente nojo do humano e não se conforma com a “inferioridade” dos homens em relação aos robôs.
Transformar as ciências humanas em ciências mecanizadas foi a grande conquista dos idealizadores do projeto pedagógico em defesa da robotização da humanidade. Os grandes esforços dos cientistas em seus laboratórios de tecnologia mais avançados do mundo de nada valeria se não conseguissem convencer a comunidade acadêmica dos centros das humanidades a aderir a essa nova mentalidade identificada com a vida robotizada. A ciência política foi a primeira dentre as ciências humanas a encampar o modo de vida robótico, e passaram a planejar sistemas políticos e constituições com a finalidade de ampliar os esforços dos tecnólogos em revolucionar a existência humana. Os centros de pedagogia passaram a orientar as escolas a introduzirem nos currículos a robótica nos primeiros anos de ensino, principalmente nas creches. Os psicólogos ficaram muito entusiasmados, mas reivindicaram o pioneirismo behaviorista enquanto método revolucionário que há muito já sinalizava para tão profundas mudanças no comportamento humano, tão fácil de domesticar. A filosofia passou a excluir tudo que não fosse robótica de seus currículos, ampliando significativamente o ensino da lógica formal, da filosofia analítica, do pragmatismo e da filosofia da mente.
A lavagem cerebral se estendeu para o mundo das letras, do teatro e das ciências sociais como um todo. Os humanos poderiam se transformar em robôs a serviço da robótica com muita facilidade, nem precisava-se de tecnologia avançada pois bastava transformar as ciências humanas em cursos técnicos, e tudo estava facilmente resolvido. Os tecnólogos descobriram que o avanço tecnológico jamais transformaria os humanos em robôs se os próprios seres humanos não se reconhecessem enquanto robôs. A humanidade robotizada, as cidades higienizadas e até uma religião fundamentalista foram criadas para incutir nos homens a ideologia da robotização. Não foi necessário muito esforço para consolidar a hegemonia dos robôs sobre todo o planeta Terra. A música eletrônica, o sexo virtual, as armas nucleares já antecipavam esse destino. A robotização da humanidade não custou muito caro. Técnicas de convencimento através da propaganda e da indústria cultural construíram a base sobre a qual os robôs passaram a dominar os homens: “Um amigo fiel, um operário fiel, um parceiro fiel. Nada é mais fiel que um robô. Por isso a humanidade deve se espelhar nos autômatos. Uma sociedade dos fiéis. Chega de tanta incredulidade. Apenas os robôs podem salvar a humanidade. A era da dúvida já passou. É hora de admitirmos a superioridade da robótica, da informática, do adestramento e da crença inabalável num Deus feito à imagem e semelhança de um robô”.

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