sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Escola de partidos, sem partido ou de partido único?

Ensaio
Recebido em 22 de agosto de 2017.
Por Michel Zaidan Filho, professor titular do Centro de Filosofia e Ciências Humanas/UFPE.



Acabamos de realizar na semana que passou (14-18/agosto de 2017) um grande seminário sobre O Centenário da Revolução Russa (vide o balanço dessa extraordinária experiência histórica nos portais Astrojildo Pereira e Maurício Grabois). Foi um evento que contou com a participação de inúmeros estudiosos e pesquisadores das ideias políticas oriundos de várias universidades da região (UFRN, UFPB, UFAL, UFGC, UFPE e UFRPE). Discutiu-se de uma perspectiva crítica os desdobramentos e desvios daquela grande revolução, com as ideias inspiradoras do movimento. No entanto, o que mais chamou a atenção foi a atitude de um grupo de jovens libertários (anarco-punks) que, de maneira muito enfática e agressiva, acusava a mesa de “doutrinação ideológica” pelo simples fato de discutir a ocorrência da revolução e as ideias que ajudaram a fazê-la. Na mesa havia defensores dos anarquistas e críticos da repressão ao movimento anarquista na Rússia.
Apesar disso, foi trocado o embate franco e honesto de concepções e ideias pela acusação de partidarismo. É bom lembrar que, conforme a lição de um pensador italiano, a escola é o lugar por excelência da disputa sadia de projetos de hegemonia. Nunca a imposição de um único projeto. Nesse sentido, não existe uma escola neutra. O aparelho escolar, como outros aliás, são atravessados de ponta a ponta pelo conflito de concepções e ideias. E o triunfo de uma delas é sempre provisório, não definitivo. A cada projeto de hegemonia política ou cultural corresponde um contraprojeto. E assim a luta recomeça. A acusação dos jovens anarquistas serve como uma luva aos defensores da chamada “escola sem partido”, pois ignora ou subestima o processo de disputas ideológicas e culturais que existe no interior das instituições públicas ou privadas. Mais ainda no campo ciências humanas, também chamadas de “hermenêuticas” ou “interpretativas”, porque lidam com valores, com a tradição e o horizonte cultural da humanidade. Querer uma escola asséptica, arredia à disputa sadia das ideias – aí sim – é uma ideologia totalitária disfarçada de “escola sem partido”. Talvez devêssemos dizer “escola de partido único”, que vai empurrar “goela abaixo” dos estudantes a sua ideologia “sem ideologia”.
É preciso muito calma nesses tempos sombrios e obscurantistas com esse debate. Num momento em que se discute a intolerância e a falta de respeito pelo diferente, a imposição, sem debate ou discussão, de qualquer projeto ou ideia é um grande risco para a liberdade de pensamento e de expressão. Todas as ideias são convidadas a se apresentar ao debate, de preferência com bons e sólidos argumentos. Que a comunidade dialógica dos cidadãos e cidadãs as ouça e tire suas conclusões. A isso se chama o processo racional de formação da vontade política da sociedade. A esse processo está associado a noção de “espaço público”, lugar de preferência onde se formam os consensos em torno de agendas públicas. Naturalmente, essa noção não se confunde com o trabalho dos meios de comunicação de massa, numa economia de mercado desregulada como a nossa. Estas agências ideológicas – também chamadas de “indústria cultural” – estão a serviço do mercado e de interesses não necessariamente republicanos, embora disfarce a sua pregação com a aparência de produtoras de material informativo e neutro.
A neutralidade dessas agências é parecida com a da “escola sem partido”: ou seja, é uma pseudo-neutralidade, é uma neutralidade a serviço de um imperativo de poder bem definido, mas que aparece como uma opção entre várias. É mais necessário do que nunca questionar essa aparente neutralidade. E defender com unhas e dentes as liberdades civis no país, entre elas a livre manifestação do pensamento, sob pena de sucumbirmos diante de uma noite longa, onde aparentemente todos os gatos são pardos e miam do mesmo jeito.


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