sexta-feira, 21 de julho de 2017

Venezuela: choque de realidade contra a “pós-verdade” (2)

Ensaio
Recebido em 6 de julho de 2017.
Por Anisio Pires, cientista social pela UFRGS.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

O que podemos fazer então os que defendemos a Revolução Bolivariana sabendo que tudo isso é uma grande mentira? Encher-nos de paciência e insistir com doses adequadas usando choques de verdade.
Se é verdade como eles dizem que a Revolução Bolivariana tornou-se um verdadeiro fracasso (algo possível dentro das possibilidades), então o que eles tem que fazer é prová-lo. Se os dados socioeconômicos da Venezuela de hoje são indiscutivelmente piores dos que tinha o país em 1999, teriam razão e seríamos obrigados a aceitar com honestidade que, apesar de suas boas intenções, a Revolução Bolivariana teria fracassado na sua promessa de fazer justiça social.
O informe da CEPAL Uma década de desenvolvimento social na América Latina, 1990-1999 afirma que para o ano 1999 quando Chávez chegou ao poder “(…) na Venezuela, a porcentagem de lares pobres passou de 22% em 1981 a 34% em 1990, e atualmente alcança o 44%” (3).
Temos que contrastar esses números com a realidade e as versões que se fazem sobre a Venezuela de hoje para tirar conclusões. Mas antes vamos revelar um fato curioso. Nos últimos tempos recebemos notícias de jovens que morreram queimados numa prisão da Guatemala; tivemos notícias do processo de Paz e das inundações na Colômbia; soubemos do golpe e da corrupção no Brasil; dos Panamá Papers no Panamá e do assassinato de jornalistas e da desaparição de 43 estudantes no México. No entanto, não conseguimos encontrar nenhuma notícia que falasse da existência de algum tipo de crise humanitária em qualquer desses países. Ainda mais, tudo parece indicar, apesar dos terríveis problemas que enfrentam esses países, que a situação não chegaria a esse extremo.
Por que mencionamos esses cinco países e não outros? A resposta é simples. No último informe da CEPAL de 2016 sobre o Panorama Social na América Latina (4) verificamos que esses cinco países são os que possuem a maior desigualdade da nossa região. Quer dizer, são os campeões em desigualdade social na América Latina.
Queremos destacar aqui que, embora o Brasil se encontre ainda nesse grupo da desigualdade, jamais poderemos esquecer os avanços na redução das desigualdades obtidos nos governos Lula e Dilma. Imaginem qual seria a situação do Brasil hoje se esses avanços não tivessem acontecido?
Feito esse esclarecimento, o que queremos assinalar é que apesar dos dados negativos desses países, ninguém tem sido capaz de afirmar que neles se vive uma crise de tipo humanitária. Admitem que esses países têm problemas muito graves, mas que não chegam ao ponto de caracterizá-los dessa maneira.
O que diz esse mesmo informe de 2016 sobre a Venezuela? Será que ao comparar seus resultados com o informe de 1999, se confirmará o rotundo fracasso da Revolução Bolivariana apresentado pela direita nacional e internacional? Surpresa!
Citando textualmente o mesmo artigo que resenhou o informe onde a Guatemala, Colômbia, Brasil, Panamá e México aparecem como os campeões da desigualdade, encontramos o seguinte: “Do mesmo modo que em 2012, os países com o maior nível de igualdade na região continuam sendo Uruguai, Venezuela e Argentina”.
Mas como? Isso não é possível. Por que não está o Chile nessa lista se o mundo tem falado tanto do milagre chileno que foi produzido pelo golpe militar de Pinochet? O que faz a Venezuela colocada aí? O que aconteceu com a “crise humanitária” que os meios nacionais e internacionais vinham denunciando há mais de um ano? Consultando alguns especialistas obtivemos algumas das possíveis respostas: (a) os chavistas pagaram para adulterar o informe da CEPAL; (b) o “regime” fez que a crise sumisse de repente invocando os espíritos do mato; (c) a crise humanitária nunca existiu. E você, o que pensa?
Outros especialistas de menor capacidade lançaram ao debate uma pergunta adicional bastante trivial, mas com certa lógica. Se não existe crise humanitária nos países mais desiguais de nosso continente, alguém poderia explicar, por favor, como é possível que misteriosamente exista uma crise humanitária na Venezuela?
Para esclarecer esse mistério e evitar que seja usado como rumor pelo publicitário das campanhas sujas J. J. Rendón, recomendamos que o Governo Nacional organize uma conferência internacional sobre “A crise humanitária na Venezuela”. Os convidados seriam a secretária-executiva da CEPAL, os líderes da oposição venezuelana, Luis Almagro e os representantes perante a OEA daqueles países que tem pretendido violentar a soberania venezuelana com a mencionada crise. O mundo inteiro terá enorme curiosidade para ver a cara de todos esses personagens ao conhecerem os dados da CEPAL sobre a Venezuela.
Se o Secretário dos EUA, Stuart Jones, ficou paralisado por 19 segundos quando lhe perguntaram sobre a democracia na Arábia Saudita, será muito interessante cronometrar quantos segundos permanecerão emudecidos todos os representantes do intervencionismo nacional e internacional ao ser revelado pública e por todos meios de comunicação que eles tem estado por mais de um ano semeando um falso positivo contra o povo da Venezuela. Quer dizer, que todos eles vem se comportando como paramilitares. “O pior do pior” como dissera uma ONG americana sobre a Arábia Saudita.
Embora mintam um milhão de vezes, na Pátria de Bolívar e de Chávez vai se impor a verdade, vai se impor a justiça e agora, com muito mais motivo, vai se impor a Constituinte da Paz.

Manifestação em defesa do governo Maduro

Publicado originalmente em: <https://foroinsular.wordpress.com/2017/06/03/venezuela-shock-de-realidad-contra-la-postverdadpor-anisio-pires/>
Tradução: Anisio Pires

Notas
(3) <http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/2382/S2004000_es.pdf?sequence=1>
(4) <http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/41598/1/S1700178_es.pdf>

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.