segunda-feira, 17 de julho de 2017

Venezuela: choque de realidade contra a “pós-verdade” (1)

Ensaio
Recebido em 6 de julho de 2017.
Por Anisio Pires, Cientista Social pela UFRGS.

Manifestação popular na Venezuela

O bombardeio midiático construído sobre as dificuldades reais, embora induzidas, que se vivem na Venezuela (violência, escassez de produtos e inflação) tornou o nosso país o laboratório mundial da “pós-verdade”.
Tudo o que aqui acontece é distorcido pelo espelho da grande mídia de tal maneira que nós, que andamos pelas ruas da Venezuela, temos as vezes dificuldades para informar corretamente. O cerco midiático, sobretudo o das redes, atropela tanto que pareceria que já não há uma realidade, mas sim versões sobre ela. Como diz o sociólogo brasileiro Laymert Garcia: “Só as versões se tornam realidade, ao ponto de as pessoas não saberem mais o que é real e o que não é” (1).
O exemplo mais absurdo sobre esta versão “verdadeira” é a acusação de que o governo bolivariano é uma “ditadura” e o Presidente Nicolás Maduro seu “ditador”. Que tenham sido realizadas 21 eleições nos 18 anos que tem a Revolução Bolivariana, ganhando 19 delas e reconhecendo imediatamente as duas vitórias que teve a oposição, não significa nada nem tampouco importa.
Descrever aqui a realidade das ditaduras que governaram nosso continente nos anos 60 e 70 seria já suficiente para rebater a insustentável versão da “ditadura” venezuelana. No entanto, isto já deixou de ser uma questão de verdades históricas para se tornar a versão que convém e que interessa. Ouvir o uruguaio secretário da OEA, Luís Almagro, nos acusar de ditadura depois dos mortos e desaparecidos que padeceu seu povo entre 1973 e 1985 confirma claramente que o objetivo não é defender a democracia nem proteger o povo venezuelano, mas sim destruir a Revolução Bolivariana.
Almagro e seus sequazes se valem da “mentira verdadeira”, a nova arma do arsenal da estratégia do golpe suave. Programam a um setor da população para aceitar sua versão da realidade e tornam o apoio a essa falsa versão a prova da verdade. É como se fosse outra realidade construída virtualmente e apoiada na programação mental implantada nas pessoas à força de repetição.
Como é virtual e se retroalimenta virtualmente, a argumentação racional tem dificuldades para desmontá-la. É um desafio para os revolucionários decifrar como superar esse fascismo das versões que está sendo imposto internacionalmente pela mídia capitalista. Por agora, nos cabe seguir apostando na capacidade de choque que tem a verdade contra a mentira.
Um exemplo disso foi a coletiva de imprensa protagonizada na Arábia Saudita por Stuart Jones, secretário adjunto para assuntos do Oriente Próximo da Secretaria de Estado dos EUA. Este alto funcionário decidiu questionar a histórica ou o histórico democrático da República Islâmica do Irã enquanto defendia o governo da Arábia Saudita, que tem sido catalogado em termos de democracia e direitos humanos como “o pior do pior” pela ONG Freedom House, financiada em 80% pelo próprio governo estadunidense. Basta lembrar que as mulheres desse país estão impedidas de exercer o direito cidadão ao trabalho. Representam somente 5% da força de trabalho no seu país, o mais baixo do mundo. É por isso que essa condição “livre” e “democrática”, que vivem as mulheres sauditas têm sido catalogada como segregação sexual e apartheid de gênero.
Por nenhum lugar se escuta a “imprensa livre” falar de ditadura na Arábia Saudita, mas sempre aparece algum jornalista com ética profissional. Foi assim que na referida roda de imprensa um jornalista da AFP, Dave Clark, teve a ocorrência de perguntar ao alto secretário Stuart Jones: “Como qualifica o compromisso da Arábia Saudita com a democracia? Esta Administração estima que a democracia é um para-choque ou uma barreira contra o extremismo?”.
O que veio a seguir, para surpresa de todos, tornou-se, segundo os analistas, na pausa mais longa e incômoda na história das coletivas de imprensa. Foi tal a surpresa ou o aturdimento pela pergunta que o secretário ficou paralisado por exatos 19 segundos. Quando revisamos o vídeo, que se viralizou pelo YouTube (2), pensamos num primeiro momento que a paralisia de Jones fosse falha do vídeo que ficou parado, mas chegando no segundo 20 o secretário ressuscita, toma ar e consegue, por fim, falar. Mas sem responder à pergunta. Limita-se a comentar “o progresso significativo” alcançado com a Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação para os Estados Árabes do Golfo na luta contra o extremismo e a “ameaça terrorista”. Ameaça que evidentemente ele atribui ao governo iraniano.
Depois da entrevista, o jornalista de AFP publicou um tweet onde expressou: “Foi muito embaraçoso estar ali, sobretudo levando em conta que não tive a intenção de envergonhar o próprio Jones”.
Deixando atrás o choque de vergonha democrática vivido pelo secretário imperialista, voltemos ao importante, ao que nos interessa, a Venezuela. Dado o apoio histórico dos EUA a governos ditatoriais (Pinochet e Videla, entre outros), a matriz de “ditadura” contra Venezuela, além de falsa, é insuficiente para construir um roteiro que permita justificar uma intervenção armada em nome da “liberdade”.
Tem que se acrescentar algo mais, tem que se adoçar o componente social e humano que lhe dê legitimidade. Por isso, tal e como acontece no imaginário dos super-heróis, é preciso que Louis Lane se encontre em perigo e peça aos gritos socorro para que o Super-Homem e seus marines venham socorrê-la. Surge assim a tão propagandeada “crise humanitária”, necessária para que a intervenção militar não pareça algo violento e sim algo justo e defensável. São as famosas “intervenções de caráter humanitário” que o mundo já conhece, mas desta vez invocadas para resgatar ao “oprimido povo da Venezuela” das garras do “infame regime chavista”.
Feito o roteiro, vem logo as imagens reais das pessoas fazendo fila como resultado da guerra econômica, habilmente manipuladas pelo repórter de plantão e reforçadas com fotos falsas de supermercados vazios de outros países, tal e como foi demonstrado e denunciado. Isto depois vai sendo difundido massivamente pelos meios e pelas redes junto a declarações de pessoas fanatizadas e fora de si que falam com desespero como se estivessem no meio de um conflito armado real.
Parecem atores dramáticos, mas a triste realidade dessa psicopatia induzida é que de verdade se sentem desesperados. Embora seja algo virtual que lhes foi introjetado pela força de repetição e propaganda, essas pessoas sofrem de “verdade” por incrível que pareça. Logo, juntando ditadura, crise humanitária e desespero, surge a consequência lógica. Alguém tem que “intervir” para deter essa “terrível” situação.

Fim da parte 1 de 2.

Notas
(1) <http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2015/11/para-sociologo-sociedade-esta-enfeiticada-pela-midia-so-as-versoes-sao-realidade-1431.html>
(2) <https://actualidad.rt.com/actualidad/239955-alto-cargo-eeuu-pregunta-democracia-arabia-saudita>

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.