sábado, 29 de julho de 2017

A lógica de Helena

Conto
Recebido em 28 de fevereiro de 2017.
Por Paulo Magon, poeta e servidor público.


Bela… Branca, sutilmente bronzeada, cabelos longos de puro ouro amarelo-brilhante. Olhos azuis cor turquesa de mar grego, nariz de raro esculpido, boca pequena de lábios vermelho-carmim que dispensam batom. Dentes simétricos de publicidade de pastas dentais. Pescoço modigliânico, seios firmes de bicos pontudos apontados para o horizonte. Umbigo imperceptível da Eva do Éden. Nádegas em suaves parabólicas. Púbis angelical. Braços e pernas e coxas harmonizados com o corpo. Mãos e pés e dedos de delicadeza poética da Lispector... E muito mais.
Conheci-a num quiosque de venda de águas de coco na orla marítima da cidade de Olinda. Quando entrei no bar e ao meu primeiro olhar, parei extasiado e fiquei parado qual estátua. Permaneci estático observando aquela criatura divina. Só dei por mim quando a zombaria dos demais clientes tornou-se insuportável. Helena olhava-me interrogativa.
Apesar dos meus dezessete anos e da pouca experiência de vida, sabia que não deveria fugir. Enfrentei o embaraço abrindo os braços em cruz berrando a todos: “Sofro de um tipo de epilepsia excêntrica que me deixa paralisado e em pé”. Todos gargalharam… Helena sorriu-me giocondamente. Postei-me, mais medroso que valente, frente a ela e pedi meio sem jeito e quase implorante para sentar-me ao seu lado. Com voz de soprano a ninfeta simplesmente disse-me: “Não”.
Meus sentimentos, sensações, cabeça e coração, toda população que habita minh'alma agitaram-se. Tal multidão reuniu-se, debateu, planeou, concluiu e decidiu num átimo… Eu, porta-voz de toda essa gente, respondi engasgado: “Deesculpe-me, sennhoorita! Pensei que a conhecia”.
Dirigi-me pesaroso à cadeira solitária ao fundo do bar recriminando a mim mesmo. Pedi ao garçom um suco de laranja com beterraba e abri meu livro de lógica ginasiana. Fiquei quieto olhando-a de quando em vez de soslaio, de esguelha… Ela ainda demorou uns cinco minutos e saiu alertando todos os outros olhos do local.
Dias depois, na mesma praia em frente ao mesmo quiosque-bar, avistei-a. Agora, próxima ao mar na areia branca, ela estava de biquíni vermelho que realçava suas lindas formas. Deitada de costas com braços e pernas relaxados, em suave posição de estrela, parecia que meditava. Olhava um ponto fixo indefinido no vasto céu. Aproximei-me vagarosamente e sentei-me ao seu lado. Ela não se moveu. Tentei olhar para o mesmo lugar do olhar dela. Deitei-me na mesma posição e fiquei calado olhando o infinito… Foi quando, ainda sem me olhar, ela falou: “Por que você simplesmente não fez a mesma coisa naquele dia no bar, como se fossemos antigos conhecidos?”.

Ficamos bons amigos a partir de então…

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