sexta-feira, 23 de junho de 2017

Reflexões sobre a Revolução Russa no ano de seu centenário (1)

Ensaio
Recebido em 20 de junho de 2017.
Por Michel Zaidan Filho, professor titular do Centro de Filosofia e Ciências Humanas/UFPE.

Revoltosos atacam polícia imperial do Czar na Revolução de Fevereiro de 1917

O primeiro ponto a se considerar sobre a Revolução Russa, numa retrospectiva de 100 anos, é: ela foi a última revolução europeia contra o capitalismo do século XIX ou ela pode ser caracterizada como a primeira revolução na periferia do mundo capitalista?
É de se lembrar que a Revolução Francesa iniciou um ciclo revolucionário na Europa, e no resto do mundo, que se fecha com a derrota da Comuna de Paris (1871). Até a Comuna, é possível vislumbrar um conjunto de influências revolucionárias, tais como: o anarquismo, o blanquismo, o socialismo pré-marxista etc. Ou seja, onde é patente a presença de ideias europeias e de militantes sociais europeus naquele movimento, sendo a influência das ideias de Marx muito pequena ou quase nula – vejam-se, a propósito, as críticas de Marx aos “communards” franceses, nos manuscritos guardados no Museu de História Social de Amsterdã, e as de Lenin no ensaio As duas táticas da social-democracia russa. Já a Revolução Russa traz a participação decisiva dos bolcheviques e a orientação marxista na condução do movimento revolucionário, sem desprezar o papel de anarquistas, dos camponeses, soldados e marinheiros. Sobre isso, há um longo debate entre revolucionários russos (não marxistas) e o próprio Marx acerca dos caminhos disponíveis para a Revolução na Rússia, incluindo as possibilidades de uma passagem da antiga economia agrária e camponesa russa diretamente para o socialismo, muito ao contrário da ortodoxia engelsiana da necessidade de uma “revolução democrático-burguesa” – observem-se as cartas de Marx a Vera Zasulitch em comparação aos fragmentos publicados por Eric Hobsbawn em Formações econômicas pré-capitalistas. Se for possível tomar a formulação leniniana sobre o imperialismo, e adotar a tese de que a Revolução se daria no “elo mais fraco” da cadeia imperialista, então temos de admitir que a Revolução Russa foi a última grande revolução socialista europeia já no século XX. É assim que se pode interpretar a análise de Gramsci sobre “a guerra de movimento” em referência à Revolução. E seu prognóstico de que as futuras revoluções no Ocidente seriam “guerras de posição” – vide as Notas sobre Maquiavel, a Política e o Estado Moderno.
Independentemente da controvérsia sobre a ortodoxia revolucionária dos bolcheviques e a natureza de sua revolução, é indiscutível que Lenin se louvará nas obras de Marx para defender a Revolução Russa. Como se sabe, nenhuma revolução se faz de acordo com um manual. Ocorre sempre dentro de circunstâncias bem determinadas. E a despeito do estatuto teórico duvidoso de muitas das posições leninianas, podemos aceitar o caráter socialista da Revolução, num contexto de guerra e de cerco das potências imperialistas à Revolução de Outubro.
Nesse sentido, a Revolução Russa pode ser considerada a primeira revolução socialista vitoriosa da história contemporânea. E que teve um formidável efeito multiplicador das ideias revolucionárias no mundo inteiro, na Europa e fora dela.

Outro ponto importante tem a ver com a discussão sobre nacionalismo, ou luta anti-imperialista, democracia liberal e socialismo. Os que apontam na direção do “comunismo de guerra” dos primeiros anos, se dispõem a admitir que originalmente trata-se de uma revolução anti-imperialista, onde uma espécie de acumulação primitiva faz muitas concessões à propriedade agrária dos camponeses. Sendo, portanto, impossível caracterizar esse momento da luta revolucionária como uma construção socialista. É a etapa da chamada “Nova Política Econômica”, em que de fato abre-se um espaço para propriedade camponesa a fim de que os camponeses apoiem a revolução, num momento crucial de sua existência. A defesa da Revolução é mais importante do que a socialização das terras, num contexto de uma pequena classe operária industrial e do oceano agrário que era a Rússia nesse momento. Buscar uma base doutrinária em Marx, Engels, Kautski ou Chayanov para justificar essas medidas é inútil e desnecessário. As medidas de Lenin se devem ao calor da hora e a urgência de garantir o apoio campesino à Revolução.
Poder-se-ia objetar que tais concessões levariam a um reforço à mentalidade de proprietário do pequeno camponês. E que num momento seguinte, seria necessária a expropriação da pequena propriedade. Mas a questão foi adiada e coube a Stalin resolvê-la, pela força, desorganizando até hoje a agricultura russa.

Fim da parte 1 de 3.

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