segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Rei está nu

Ensaio
Recebido em 19 de junho de 2016.
Por Fátima Cabral, professora da Unesp (Campus de Marília/SP).

A professora Maria Orlanda Pinassi

Em Marília, o processo de descredenciamento de diversos professores se deu em nome da preservação da produtividade: esses professores seriam improdutivos para figurarem como efetivos junto ao Programa. Em Araraquara, acabo de saber, Maria Orlanda foi comunicada que também será descredenciada a partir de março de 2018, quando terminam suas orientações em andamento. Como ninguém em sã consciência pode questionar a produtividade da Maria Orlanda, o argumento é de que ela não participa de reuniões departamentais e de processos seletivos. Alguém pode dizer: trata-se de outro Programa e de outra coordenação. Será, mesmo? Difícil acreditar que uma coisa não tem a ver com outra; acredito, ao contrário, que o processo em Marília encorajou o Programa de Araraquara a banir uma intelectual firme e coerente, que não faz concessões às vulgaridades teóricas em voga, nem à pequena política, daí incomodar tanto.
Incômodo semelhante pode ter ocorrido em Marília. Desde o comunicado coletivo aos colegas banidos, entre os quais me incluo, alguns questionamentos surgem e hoje, sabendo que tal processo está em curso também em Araraquara, não consigo deter a indagação: o que está em curso nos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais? Quem de fato ganha e quem de fato perde com esses descredenciamentos? Até onde cada um de nós está conivente e indiferente a esse processo que atinge em cheio a dignidade e a história de profissionais com décadas de contribuição acadêmica, e que em particular prejudica – moral e objetivamente – aqueles que estão na ativa? Tal enxugamento não acarreta prejuízo também aos alunos e, não menos, à própria universidade, que se torna mais homogênea? Nesse bojo, o descredenciamento da Maria Orlanda ilumina um pouco mais o processo todo porque derruba o argumento central oferecido: a produtividade. Se a questão não é a produtividade, resta saber o que é. De qualquer modo, é imperioso questionar o zeloso acolhimento dos abstratos critérios oficiais de produtividade em nosso meio, bem como seu possível uso político, contrários à própria atividade acadêmica. Debatemo-nos contra o desmanche nacional que fere as conquistas trabalhistas mas parece que somos incapazes de pensar alternativas que não sejam também punitivas aos trabalhadores nas Universidades e ao próprio avanço das Ciências Sociais, já tão duramente açoitadas pelos acólitos do capital.

Capa de um dos vários livros publicados por Maria Orlanda

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