sexta-feira, 5 de maio de 2017

Eu discordo!

Ensaio
Recebido em 05 de maio de 2017.
Por Coletivo Graúna.


No dia 28/04, frente à chamada de Greve Geral pelas centrais sindicais, a Explanada dos Ministérios em Brasília amanheceu fechada. Homens da Força Nacional isolaram a área e revistaram minuciosamente todos aqueles que tentaram passar. Fotos que circularam na véspera pelas redes sociais mostravam a presença ali de um vasto arsenal bélico, preparado para reprimir qualquer manifestação no local.
No Rio de Janeiro, o ato público contra as reformas trabalhistas e da previdência foi inviabilizado pela ação arbitrária e desmedida da Polícia Militar, que com muitas balas de borracha, bombas e gás lacrimogênio, impôs um toque de recolher ao local (bem aos moldes daquele vivenciado cotidianamente pelos moradores dos morros “pacificados”). Em Goiânia, uma cacetada covarde e gratuita de um oficial da PM deixou o estudante Matheus Ferreira entre a vida e a morte. Em São Paulo não foi diferente. No “Tucanistão” – onde absurdos como o confisco de bens de moradores de rua em nome da “ordem pública”, ou a agressão covarde de uma turba xenófoba a imigrantes, com a ajuda da polícia, são cada vez mais frequentes – os atos do dia 28/04 deixaram três presos políticos. Não por acaso, os militantes do MTST, Juraci dos Santos, Luciano Firmino e Ricardo Rodrigues dos Santos (tal qual Rafael Braga) são negros, e seguem presos sem nenhuma prova que os incrimine por algo ilícito.
Para fechar o dia, após o direito à livre manifestação ser cerceado por todo o Brasil, o governo federal se pronunciou. Em nota, deixou claro que os projetos de reformas, embora rejeitados pela grande maioria da população, seguiriam o seu trâmite “democrático” no Congresso Nacional. Ou seja, deputados e senadores (em sua maioria corruptos) continuarão votando, à noite, e protegidos por forte esquema policial, a retirada de direitos da população, em troca de cargos, verbas e outras vantagens pessoais. A mídia insiste que a nossa democracia está funcionando normalmente.

Eu discordo.

Já na UFPE a semana começou com os principais prédios administrativos fechados, e com rigoroso controle para entrada. O motivo era a reunião do Conselho Universitário, marcada para a manhã do dia 03/05. Apoiados em um parecer jurídico (isso mesmo, um parecer, não uma decisão julgada por alguma corte), os conselheiros alteraram o estatuto da universidade, desconfigurando o documento anterior, produto de um amplo e legítimo processo estatuinte.
A principal alteração, com relação ao que havia sido elaborado democraticamente por representantes eleitos diretamente por toda a comunidade universitária, está na não alteração significativa da atual divisão interna de poder. Nunca é demais lembrar que a atual configuração remete aos “anos de chumbo” da ditadura militar, e tinha como objetivo facilitar o controle das “atividades subversivas” de professores e alunos. Como alternativa a esse modelo autoritário, a estatuinte democrática apontou a paridade entre os três segmentos (professores, técnicos e estudantes). Porém, os conselheiros (em sua maioria não-eleitos, indicados políticos da reitoria e direções de centro) mantiveram a predominância de professores nos conselhos superiores, conservando a concentração do poder decisório na mão da administração central e seu séquito.
E assim, sem grande alarde, vamos experimentando um novo tempo também na UFPE. Rapidamente nos habituamos com torres de controle, processos administrativos, cadernetas eletrônicas, ponto eletrônico...Há quem veja no cumprimento dos rituais legais um sinal de “normalidade democrática”.

Eu discordo.

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