segunda-feira, 6 de março de 2017

A "metafísica" dos bichos

Conto
Recebido em 21 de fevereiro de 2017.
Por Gutemberg Miranda, que é docente na UFAL.


Um adestrador resolveu ensinar matemática ao seu cão e ele aprendeu rapidamente. Com ajuda de objetos pedagógicos, o cão aprendeu a somar, e tamanha foi sua capacidade cognitiva que o adestrador teve de arrumar uma quantidade infinita de bastões e símbolos com a finalidade de saciar o raciocínio lógico do cão. Então, apareceu um problema: como conseguir espaço para o cão desenvolver sua aritmética?
A geometria do espaço era o único obstáculo para o cão resolver seus problemas matemáticos. A ciência pôde prescindir dos computadores mais modernos tamanha era a capacidade do cão. Logo o adestrador percebeu que outros animais também poderiam resolver tais questões desde que tivessem patas e dentes. Os bichos faziam cálculo como nenhuma outra máquina de calcular, porém demandavam espaço geográfico para que suas contabilidades infinitas pudessem se estender no espaço. Foram doadas terras, mares e astros que serviram de plataforma para a infinita maestria dos animais e suas resoluções dos grandes enigmas das ciências exatas. Não foi difícil ensinar outras disciplinas aos bichos, como física, química e gramática. A humanidade podia descansar em paz pois com a ajuda da fauna tínhamos tempo para nos dedicar a outras coisas e poderíamos deixar nas mãos dos bichos os problemas das ciências e até mesmo os das linguagens. Os animais começaram a fazer poesia, artes plásticas, cinema e todo tipo de atividade espiritual. Foi uma verdadeira revolução dos bichos. Mas desta vez eles tinham toda a liberdade de criação e pensamento.
Os bichos se tornaram rapidamente mais inteligentes que os humanos e o mundo animal inteiro passou a copiar as habilidades espirituais das espécies que mais se destacavam. O mundo animal inteiro se tornou de uma hora para outra mais racional e criativo que os humanos. Foi uma grande festa comemorada tanto por homens como animais. A infinitude do universo não era suficiente para a explosão de cultura advinda do reino “animal”. Os bichos só queriam saber de ciência pura, da arte pela arte e não compreendiam o interesse dos humanos pela técnica e engenharia. Enquanto o infinito do espaço era invadido pelas mais belas produções culturais dos bichos, a humanidade niilista só queria saber de robótica e saberes experimentais. Os “animais” ficavam tristes com a insistência dos humanos, que também conquistavam o espaço com seus foguetes e tecnologia espacial. Mas a disparidade de interesses logo se tornou um entrave na divisão do espaço intergaláctico. Homens e bichos começaram a debater os rumos do infinito, ou seja, acerca do preenchimento do vazio, do nada, incluindo o pensamento, as faculdades de especulação e sua relação com o tempo e o espaço. As contribuições de Kant e Hegel serviram de base para os “animais”, enquanto os homens priorizavam o lucro, a guerra e toda a sorte de conhecimento instrumental.
Os animais logo caíram em depressão. Não conseguiam conviver com a humanidade devastada pela lógica do capital. As grandes contribuições filosóficas desenvolvidas pelos bichos não interessavam aos humanos e a falta de diálogo entre os reinos animais e humanos gerou uma crise de dimensões infinitas. Mas o saber dos “animais” não deixou margem para a ganância humana. Os bichos criaram uma forma de envolver outros reinos nessa discussão. Átomos, partículas, minerais, plantas, números, essências, categorias foram convidadas para o debate. Até mesmo seres mitológicos e entidades teológicas puderam opinar sobre os rumos do infinito. Dessa forma, os homens não puderam competir com os bichos, e suas armas de destruição em massa não conseguiram deter o avanço da sabedoria cósmica dos “animais”.

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