terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Se organizar direitinho, todo mundo luta!

Ensaio
Recebido em 13 de fevereiro de 2017
Por Isabel Keppler, integrante da Frente Povo Sem Medo e da LSR/RN.

(ou um pouco sobre as longas discussões nas redes sociais sobre opressões).


Particularmente estou tentando me esquivar desse monte de discussão sobre “lugar de fala”, “apropriação cultural” e termos afins que geram longas discussões no Facebook. Acredito que corremos o risco de superestimar coisas que talvez não tenham tanta centralidade e ao mesmo tempo subestimar outras questões centrais.
Vejam, opressão é algo histórico e extremamente presente na organização da sociedade: mulheres, negros e negras, LGBTs e outros segmentos oprimidos estão em trabalhos mais precarizados, recebem menos pela mesma função de homens brancos, ou sequer conseguem trabalhar. Estão sendo assassinados. É real. É cotidiano. É concreto. Nos últimos dias, mas também já há um tempo, quem minimamente se importa com isso tem ocupado boa parte das redes sociais com longos debates sobre esses temas que, a meu ver, não é que sejam desimportantes, mas creio que suas respostas estão muito mais na luta concreta do que no debate incessante nas redes sociais.
Acredito que o central é discutir como superar toda e qualquer forma de opressão – que, para mim, é claramente através de uma luta anticapitalista. E o capitalismo não se supera apenas com as mulheres, ou só com as mulheres negras, ou só com as mulheres trans, etc. É com todas juntas – e todos. Isso não significa que só com revolução avançaremos na pauta de opressões. Significa que dentro do capitalismo avançaremos até um limite, com melhorias mais imediatas, mas extremamente instáveis (difíceis de se conseguir e fáceis de se perder no primeiro enfraquecer da luta). Mas seguiremos na luta, porque nossas vidas importam! Em resumo, é preciso vincular essas lutas imediatas com uma luta mais estratégica, de superação efetiva desse sistema que se alimenta e se movimenta através da exploração e opressão humanas. E isso já é uma tarefa gigante que exige de nós um grau de elaboração teórica, programática e intervenção prática que hoje estamos bem aquém!
Enfim, demarcando isso, a questão sobre esses longos debates nas redes sociais é que é preocupante: (1) a proporção que esse debate ocupa, dentro das lutas de classes e até mesmo dentro das lutas contra as opressões; (2) a forma como esse debate é feito.
(1) Sobre o primeiro – a proporção que esse debate ocupa –, não digo que não sejam elementos importantes. Eles podem e devem estar inseridos nos movimentos, partidos, coletivos. Não faz sentido, por exemplo, um partido de esquerda ou um movimento social convocar um debate sobre a luta das mulheres e ter homens na mesa introduzindo a discussão. Óbvio! Agora, se um companheiro homem é convidado para falar em uma entrevista de TV (e okay, ridículo que a imprensa sempre chame a liderança masculina e branca, mas enfim) sobre qualquer coisa que o valha, e fale sobre a luta das mulheres, vou achar é ótimo! Claro, se tiver segurança e mínima propriedade para falar. A questão é que muitas vezes o debate é feito no abstrato, partindo de lugar algum e indo pra lugar nenhum. E muita das tretas pode ser resolvida se a gente tiver demarcado claramente que estamos do mesmo lado da luta, somos camaradas, e temos muito o que aprender uns com os outros. E deixando o debate menos estéril e abstrato, discutindo em cima de problemas concretos e reais que surgem no cotidiano vivo da luta.
E “apropriação cultural”, eu tenho aprendido muitas coisas, mesmo, sobre o tema. É realmente revoltante o quanto o capitalismo se apropria – da força de trabalho, da cultura, e até mesmo da resistência à apropriação. Sem me alongar muito no tema, porque como disse, ainda estou aprendendo, acho que é algo que deve somar na luta contra as opressões, não dividir. E esse foi o tema da vez que gerou longos textões (inclusive este), que leva à segunda questão que queria botar aqui.
(2) Sobre a forma como o debate é feito: a primeira coisa a se demarcar aqui é o respeito. E há, sim, diferença entre a pessoa que sofre opressão e a pessoa que não sofre, embora ambas precisem buscar o debate respeitoso, sempre. Uma pessoa que sofre ao menos uma dessas opressões passa uma vida toda de opressões, e carrega junto consigo uma opressão secular. É individual e não o é. Isso traz dores. Isso traz mágoas e por isso nem sempre serão “pedagógicas”. Beleza, temos que entender isso e saber como encarar essas situações – não há resposta pronta, não há receita, apenas mais uma coisa para se considerar quando estamos falando sobre isso. A segunda coisa é que as pessoas não militantes do movimento de combate ao racismo passam anos de vida sem ter contato com esse tema de forma apropriada. E tudo bem também, mas é preciso ter humildade e reconhecer isso. Tem quem leu, vivenciou e elaborou mais sobre o assunto e só vai ganhar mais força seu posicionamento se passar por essas pessoas. Se eu fosse escrever uma coisa sobre “apropriação cultural”, emitir minha posição sobre o tema do turbante ou qualquer coisa do tipo, a primeira coisa que faria era mostrar a camaradas meus que são minhas referências do movimento. Acho isso no mínimo sensato e já ajuda a evitar alguns problemas, constrangimentos e até incômodos. Isso na verdade nem tem a ver com opressões, tem a ver com qualquer tema. Se está emitindo uma opinião sobre algo novo que ainda não tem propriedade, que tal mostrar antes pra alguém que tenha e que você tenha como referência, pra discutir junto? Reflexão coletiva sempre ajuda a evitar desastres!
Outra coisa, sobre a proporção que o debate toma e sobre a forma como o debate é feito: posso considerar que esse tema não é central para o combate às opressões ou para a luta contra o capitalismo, mas de forma alguma posso declarar que não é importante – ou caro – para uma pessoa que combate o racismo (ou machismo, ou LGBTfobia...) diariamente. E por isso tem que ter, sim, cuidado com a forma como se discute. Por isso acho muito equivocados – e desnecessário – as piadas, chacotas, comentários atravessados, ironias e deboches vindos de militantes, camaradas que respeito – e que, não posso deixar de lado a observação, muitas vezes são feitos por homens brancos e héteros.
São das mais diversas formas que as juventudes, e que segmentos oprimidos estão abrindo os olhos e erguendo os punhos para enfrentar esses ataques que se agravam. É um desafio convencer que as contradições presentes (porque existem) entre identidade e classe devem ser superadas no cotidiano das lutas, para uma superação deste sistema que oprime e explora – as duas coisas ao mesmo tempo e agora! Menos sectarismo, mais humildade e paciência histórica, pézinho na teoria e pézinho na prática, olho no livro (e na internet, que seja) e olho no mundo afora, e o mais importante de tudo, ombro a ombro, porque se organizar direitinho, todo mundo luta e o mundo muda!

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