quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Nada acontece por acaso

Ensaio
Recebido em 17 de fevereiro de 2017.
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.


Pois é, essa assertiva encerra em si mesma uma verdade. Contudo, via de regra, as esquerdas parecem esquecê-la e quase sempre explicam as coisas às avessas, enquanto posam de vítimas. Recorrentemente, em qualquer parte do mundo, quando se apresenta um retrocesso no quadro político, sinalizando para um reagrupamento das forças conservadoras e fascistas, passa-se a denunciar este andamento como “uma volta” da extrema-direita.
Ora, sabe-se muito bem que a direita nunca saiu do poder administrativo do seu próprio “Estado Democrático de Direito”, pois ele pertence às classes dominantes, à burguesia, enfim. E o que não se assume, abertamente, é que o gerenciamento dos negócios em geral, por parte de prepostos em alianças com setores retrógrados e contrários a mudanças, tem um alto preço a ser pago. Com juros e correção monetária. Isto é, frequentemente tende para governos de centro-direita, onde os grupos que se dizem de esquerda se vendem em troca de algumas migalhas, que são repassadas para os setores mais vulneráveis, como programas sociais. Perdem a autonomia e se deixam levar por uma “aparente governabilidade” - num pacto “insano” entre forças que deveriam ser antagônicas, e não aliadas.
De outro lado, percebe-se que as experiências populistas de vários matizes, incluindo governos híbridos, não resolvem essa questão. Muito pelo contrário, visto que na maioria das vezes, tende a agravá-la ainda mais. No decorrer do tempo vão-se acumulando impasses e situações que não podem ser superadas, a não ser pelo enfrentamento direto com as burguesias. O que vale para todas as ocasiões, conforme registra a História. E a participação nos processos eleitorais não é uma saída, tendo em vista que se dá através de uma farsa, de “um jogo” que favorece que tem mais dinheiro.
Em face disso, tem-se que dizer com “todas as letras” que não existe vazio político e que em quaisquer circunstâncias ele será ocupado, de uma forma ou de outra, principalmente pela direita, que cumpre com zelo o seu papel de defender os seus interesses quando a esquerda se omite do seu e aposta na “conciliação” entre as classes. Nenhuma novidade quanto a isso. Mas, por que as esquerdas abandonam a luta anticapitalista no dia a dia para estimular a maioria da população a combater pessoas e governos? Os tais governos e as pessoas que os representam perante a sociedade são transitórios e sempre substituídos, periodicamente, seja por meio de eleições ou de mecanismos constitucionais em condições críticas e urgentes.
O que permanece e continua a existir, administrando e gerindo a sociedade é o sistema socioeconômico, visto que toda a estrutura institucional existente foi construída para servi-lo em todos os níveis. E ele (o sistema) se mantém utilizando-se dos recursos da mentira, do engodo e da encenação, com o intuito de enganar as pessoas para não se aperceberem que (ele) é o principal responsável por todas as chagas e mazelas sociais. No entanto, as esquerdas reformistas defendem a ideia ilusória de que o capitalismo pode vir a ser melhorado e, por consequência, colocado a serviço da sociedade para combater a miséria e pobreza. Só por puro altruísmo?
Muitas das distorções, que até hoje comprometem as lutas contra o sistema capitalista, tem suas origens nas desvirtuadas concepções stalinistas. A partir disso, grupos de esquerda passaram a ignorar as lutas de classes em cada país, substituindo-a pelo combate contra os imperialismos, como se o único inimigo fosse externo. Uma redução para um conflito entre países exploradores e países que se deixam explorar, por falta de sustentação de sua própria soberania. Piada sem graça, que prejudica o raciocínio revolucionário e nivela por baixo a compreensão sobre as causas básicas da exploração de um ser humano por outro. O que leva, inevitavelmente, à concentração da renda nas mãos de poucas pessoas. Pouquíssimas.
Enfim, no sentido de se construir um contraponto plausível e consistente, apela-se para que se estimule o senso crítico e se aprofunde análises sobre o Estado centralizado, partido único e regimes autoritários, associados a um tipo de “socialismo”. Tendo por objetivo maior resgatar os ideais revolucionários e subsidiar novas ações no presente, com vistas a retomar e fortalecer as lutas que ainda se fazem necessárias pela imprescindível transformação política e social. Embora já se perceba que não se tem mais um tempo razoável diante da tragédia que se anuncia globalmente, exacerbada e alimentada por um acelerado processo de destruição generalizada, perpetrado pelo sistema socioeconômico vigente. Mesmo assim, algo tem que ser feito. Não obstante, com toda a certeza, tem-se que ter a plena consciência de que nada acontece por acaso!

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