terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Escolinha do Professor Raimundo

Conto
Recebido em 15 de novembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que é docente e leciona Filosofia na UFAL.


"Professor, o que é ser livre?".
"É não ter partido".
"O senhor não tem partido?".
"Não".
"Então o senhor é livre?".
"Sim".
"Seu partido é a Liberdade?".
"Liberdade não é um partido, é algo maior".
"Que legal professor. Eu também não quero ter partido, quero ser livre...".
"E o que é ser livre, professor?".
"É não ter partido, já falei".
"Mas só isso, professor? Ser livre é só isso?".
"Só".
"Basta não ter partido e sou livre?".
"Sim".
"E é simples, assim, não ter partido, ser livre?".
"Sim".
"Eu não tenho partido. Eu já sou livre, professor?".
"Sim".
"Eu posso fazer o que quiser se não tiver partido?".
"Sim".
"Posso faltar aula?".
"Não".
"Posso deixar de fazer tarefas de casa?".
"Não".
"Que coisa mais chata é ser livre, professor".
"É assim. Ser livre é estudar, trabalhar e não ter partido".
"Então não há muita diferença entre ser livre e não ser livre".
"Há toda diferença do mundo! Não brinque com isso, não fale em partido perto de mim".
"Mas quem só fala em partido é o senhor, professor".
"Não, eu não falo em partido. Só quero o seu bem, não fale mais nisso e ponto final".
"Por que toda vez que se fala em ser livre o senhor só fala em partido?".
"Eu odeio partido".
"Ser livre é odiar partido?".
"Sim".
"Ser livre é sentir ódio pelos partidos?".
"Por partidos, sim".
"Hum, entendo. O senhor odeia...de verdade?".
"Sim, os partidos, sim".
"Por que o senhor odeia os partidos?".
"Porque eles não prestam".
"E o senhor presta professor?".
"Óbvio".
"Mas o senhor odeia. Como alguém que odeia pode ser bom?".
"O partido representa o mal".
"Mas o senhor nunca teve partido. Como pode saber?".
"Eu odeio partido, não preciso deles, devem ser todos fechados".
"Mesmo sem conhecer?".
"Não precisa, eles são ruins".
"E como o senhor sabe?".
"Não precisa conhecer, basta odiá-los".
"Ser livre é odiar?".
"Sim, odiar os partidos".
"O senhor tem certeza que odeia os partidos?".
"Sim, odeio todos os partidos, sou neutro".
"Ser livre é ser neutro professor?".
"Sim".
"E se eu entrar num partido?".
"Também vou te odiar".
"Mas sou seu aluno. O senhor odiaria um aluno?".
"Sim, se tiver partido, sim".
"Posso lhe contar um segredo?".
"Sim”.
"O senhor não vai ficar ofendido?".
"Claro que não".
"E se tiver a ver com partido?".
"Chame a polícia! Urgente! Eu te odeio, fora da sala, está expulso da escola. Chega de pergunta, chega de partido. Por isso faz tanta pergunta. Eu já desconfiava: você é um espião do partido, você vai direto para Guantánamo".

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