segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A cultura da violência no Brasil

Ensaio
Recebido em 16 de fevereiro de 2017
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Corrupção, impunidade e cinismo governamental.

Temer e Alexandre de Moraes

Foi o alemão e criador da psicanálise, Sigmund Freud, quem cunhou a famosa expressão O mal-estar na civilização para designar uma patologia social grave que antecedeu e preparou o advento do nazifascismo e a Segunda Guerra Mundial. Como médico, Freud diagnosticou a presença de uma neurose coletiva na Alemanha produzida pelos mecanismos civilizatórios. O trabalho, a família, a Igreja – numa sociedade luterana como a alemã – não oferecia na época contrapartida alguma à repressão da energia libidinal dos cidadãos e cidadãs alemãs. O resultado, como se sabe, foi a guerra. Os alemães, pelo menos, sempre foram introspectivos e dotados de grandes qualidades intelectuais. Produziram gênios para o bem e gênios para a destruição da humanidade. A Alemanha reconstruída pelos aliados (e o dólar americano) depois da guerra é outro país: menos filosófico e cultural e mais econômico e pragmático.
O nosso país não foi influenciado pelo puritanismo luterano dos alemães. Pelo contrário. O imaginário da colonização portuguesa apresentava a terra brasilis como um paraíso, onde não havia pecado. Ou seja, tudo era permitido. Pelo menos até a chegada da Inquisição. A lenda é que já nascemos como uma sociedade de bandidos, malfeitores, criaturas sem fé e sem lei. Lugar da aventura, não do trabalho, segundo Sérgio Buarque de Holanda. Uma sociedade do desfrute, não da acumulação ou do sacrifício. O negócio que aqui se fez foi à base da escravidão africana, não da ética puritana do trabalho. Aqui, sempre se pensou mais no fruto ou no lucro, do que no sacrifício e na renúncia para se conseguir os frutos. Há muitas imagens consagradas pela antropologia cultural sobre o povo brasileiro: Macunaíma, Jeca Tatu, Gerson, etc. O único herói positivo que se tentou vender ao país foi a imagem de Ayrton Senna, depois de sua morte, num momento crucial de consolidação do Plano Real. A imagem ocidentalizada de uma pujante “sociedade civil” regeneradora dos nossos costumes não sobreviveu à chamada “Nova República”, com os seus malandros oficiais.
O ciclo da política de centro-esquerda e suas políticas redistributivas – com a inversão de prioridades do gasto público – deu-nos alguma esperança. Mas a herança maldita de um velho sistema político carcomido pelo fisiologismo, o troca-troca e a corrupção dissipou prematuramente a nossa ilusão. Voltou a cena o que Freud chamava de o “retorno do reprimido”. Aquilo que julgávamos morto ou amortecido voltou com força e tende a se espalhar como uma perigosa metátese sobre um corpo enfermo e sem cuidados.
Como é possível que no meio de uma violência generalizada um “presidente” da República citado 40 vezes nas investigações da Operação Lava Jato tem o despudor de nomear um ministro do Supremo Tribunal Federal que será o revisor do relatório apresentado sobre a mesmo operação no STF? Como é possível que um delegado de Polícia, responsável pela matança generalizada de pessoas em São Paulo, seja investido do cargo de Ministro da Justiça e nomeado Ministro do STF, onde irá investigar exatamente as denúncias contra o seu superior hierárquico e nomeador?
Como foi que o ministro Fachin adivinhou que seria sorteado relator da Operação Lava Jato, candidatando-se ao cargo e mudando de turma para concorrer a ele? Já a nomeação, ora sob judice, de Moreira Franco – a chamada “eminência parda” do governo – para o recém-criado Ministério das Parcerias obedece a uma operação cruzada cuja inteligibilidade está no apoio que o genro de Moreira Franco dará a Temer, reeleito Presidente da Câmara dos Deputados (Rodrigo Maia), e em troca o sogro ganha foro privilegiado para se defender das acusações da Operação Lava Jato. É dando que se recebe, segundo a oração de São Francisco…E para finalizar, a nota tragicômica: quem tem o direito a prisão especial na República dos ladrões?

Temer e Moreira Franco

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