domingo, 22 de janeiro de 2017

Recife de Milo

Conto
Recebido em 22 de janeiro de 2017
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.

Todas as vezes que descrevo uma cidade,
digo algo a respeito de Veneza”.
Ítalo Calvino – As Cidades Invisíveis.



Os venezianos tomaram conhecimento da comparação que os recifenses costumam fazer entre as duas cidades e ficaram escandalizados. Os rumores dessa comparação de mau gosto ganhou o mundo através das agências de turismo, e o turismo em Veneza começou a despencar. Pediram para o governo italiano intervir diplomaticamente, mas não houve jeito. Foi enviado um diplomata para solucionar o caso, mas as agências de turismo de Recife não abriram mão de lucrar a partir da famigerada comparação. O povo de Veneza foi às ruas pedir para o povo de Recife parar com tal comparação. Fizeram passeata e os gondoleiros chegaram a entrar em greve, devido à queda no turismo local. Quem conhecia Recife não queria ir para Veneza, e a imagem de Veneza ficou tão impregnada com a de Recife que ninguém queria nem mais ouvir a palavra Veneza. Os protestos, greves, campanhas nas redes sociais, o recurso à diplomacia, nada disso conseguiu resolver o impasse. Um clima de guerra parecia ter se instalado entre os dois povos. Os venezianos se perguntavam que sentido fazia comparar cidades tão diferentes, e que em nada se pareciam uma com a outra.
A comparação fazia brochar os casais enamorados que faziam de Veneza um dos destinos mais românticos do mundo, enquanto Recife era conhecida por suas palafitas, seus esgotos a céu aberto, suas favelas, seus mosquitos e suas ruas fétidas. De onde surgiu a comparação entre Recife e Veneza e quem foi o autor dessa sandice? Historiadores, filólogos, antropólogos, psicanalistas e sociólogos foram deslocados de Veneza para compreender o fenômeno, mas não encontraram respostas. O povo de Recife também não gostava da comparação. Era tudo jogo de marketing político, prática das elites locais para desviar a atenção dos graves problemas da sociedade. Comparar Recife e Veneza era uma forma de manter os moradores das palafitas anestesiados. As inundações provocadas pela falta de saneamento básico também tinha como resposta dos governos a semelhança da condição alagadiça entre Recife e Veneza. Recife se tornou mais conhecida que Veneza, pois os turistas do mundo inteiro se sensibilizaram com a decadência da cidade e foram atraídos por um tipo de morbidade que só se encontra em Recife, uma sensação de claustrofobia e afogamento que nenhuma cidade submersa poderia proporcionar mais que Recife. Se é a pulsão de morte que leva o turista à Veneza, nesse sentido Recife é muito superior à verdadeira Veneza. Em Da Utilidade e Inconvenientes de Viver entre Espectros, Agamben afirma que “Quem mora em Veneza tem familiaridade com este espectro”. Aí está a explicação que poderia solucionar o impasse entre as duas cidades. Assumir a espectralidade como uma forma de unir as duas cidades, os dois povos.
Mas o carnaval passou a acirrar as disputas, e recifenses e venezianos começaram a travar uma luta para serem reconhecidos como moradores da cidade que tinha o melhor carnaval do mundo. Ninguém se entedia mais. Foi necessário que os fantasmas das duas cidades marcassem um encontro. Os espectros de Recife e Veneza começaram a dialogar sobre a situação. Veneza chegou ao encontro com suas pernas de pau, Recife chegou com suas muletas. Veneza esbanjava jovialidade, Recife, decrepitude.
Nossos habitantes não se reconhecem Recife?”
Sim, somos muito diferentes para sermos comparadas, Veneza”
Há risco de confronto entre os dois povos?”
Convivemos bem com a lama, mas nunca seremos uma cidade submersa”.
Mas Veneza não é submersa, ninguém se sente submerso em Veneza, veja a resistência de nossas construções ou a imponência de nossa arquitetura”.
Nossas águas são mais mágicas e nosso povo também. Quem visita Recife se transforma em caranguejo”.
Os espectros das duas cidades se retiram sem se despedir.



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