sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Os filisteus e a universidade pública em chamas

Ensaio
Recebido em 31 de dezembro de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.


Estudantes manifestam-se contra PEC 55 e contrarreformas na Educação

É verdadeiramente desconcertante ver e ouvir a reação dos desavisados que se defrontam hoje com as imagens de salas quebradas, livros desarrumados, equipamentos fora de lugar, sujeira, pichação e a desordem reinante nas salas de aula do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). Triste fama tem esse instituto de ciências humanas: de local preferido dos suicidas a pardieiro universitário. A quem cabe a responsabilidade de tamanha desolação? Aos estudantes, que lutaram bravamente (e sozinhos) contra a aprovação da PEC da morte (da morte do ensino, da morte da saúde, da morte do investimento público etc.)? Aos professores, que abandonaram a instituição quando se decretou a greve dos docentes e a ocupação dos institutos? À direita universitária, hoje representada publicamente por um indivíduo chamado de Jungmann e que incrimina o reitor pela sua leniência? Aos infiltrados da polícia no movimento das ocupações para desmoralizar o movimento? À própria polícia que vem se acostumando em invadir o Campus, desrespeitando a autonomia universitária, ao primeiro ruído de conflito? Aos empresários do ensino pago, que torcem pelo fim da universidade pública? Ou ao próprio governo federal, que não nega, através de seu ministro avicultor, a sua má vontade para com o financiamento da Universidade Pública?
Em vez de simplesmente “emprenharem” pelos olhos e os ouvidos, como dizia a minha velha professora de Português, tudo aquilo que escutam ou pensam que viram através do cenário da destruição, deviam ter um pouco de senso crítico e não fazer coro com os que declaradamente ou não, querem usar o movimento estudantil como arma contra a Universidade Pública, inflamando os ânimos dos “idiotas da objetividade” que só sabem repetir o óbvio e os chavões do senso comum: estudante é para estudar, estudante não é baderneiro, vândalo, bandido ou coisa do gênero. Belos professores esses. Omitem-se diante da crise e tomam posição contra as vítimas da incúria governamental. Devem ser da marca dos filisteus de Nietzsche que só enxergam os pontos do “Curriculum Lattes” (aquele que não morde), e nada mais. Não se interessam pelo que se passa no entorno da instituição universitária, e acham que os protestos são casos de polícia. Isso até perderem seus empregos, seus salários, suas aposentadorias e as próprias salas de aula, com o fim da universidade pública.
Com docentes como esses, que veem nos estudantes seus inimigos, a Universidade Pública não precisa de inimigos. Já os tem bem instalados em suas entranhas. Corporativismo, alienação, conformismo, medo e espírito de vingança contra os estudantes. Universidade minada, por dentro e fora. Só os estudantes são os que ainda podem salvar o patrimônio público, de lutar por ele, se sacrificar por ele. Seus professores estão confortavelmente sentados nas poltronas da iniquidade e da cegueira, na condição de juízes de instrução ou de carrascos.
Viva los Estudiantes!”, como dizia uma velha canção. Eles são o sal da universidade pública, que a protege da podridão moral e política que campeia no Campus universitário.

COGOE/UFRPE ocupado por estudantes

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