terça-feira, 10 de janeiro de 2017

História universitária da infâmia

Conto
Recebido em 25 de dezembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que é professor de Filosofia na UFAL.

Propaganda da 'Universidade da Infâmia e Negócios Espúrios'

A Universidade da Infâmia e Negócios Espúrios surpreendeu com sua nova oferta de cursos que revolucionou o mercado educacional. O curso mais concorrido foi o de Lavagem de Dinheiro e Caixa Dois, seguidos dos cursos de Máfia e Organização Criminosa, Seitas e Sociedades Secretas, Manipulação Genética e Adulteração de Combustíveis e Alimentos Transgênicos, Fraude em Licitações e Pesquisas de Opinião, Hacker e Cyber Ataque.
Foi surpreendente a adesão dos alunos que abandonaram os cursos tradicionais e optaram por uma nova forma mais empreendedora de encarar a universidade. Segundo o Ministro da Educação tudo isso é produto de suas reformas educacionais, pautada num olhar revolucionário do ensino das séries iniciais até o ensino superior, conforme pôde ser observado no grande sucesso das novas modalidades dos cursos. De acordo com especialistas em educação superior, trata-se de um novo tipo de ser humano, uma nova sociedade estruturada nos princípios do capitalismo e da competição do mercado absoluto, a hegemonia do capital gerou essa forma transgressora e inovadora se de encarar os estudos. O primeiro colocado no curso mais concorrido, o de Lavagem de Dinheiro e Caixa Dois, comentou suas motivações pessoais: “É a realização de um sonho, pois desde criança ouvia falar em lavagem de dinheiro. Agora que ela foi legalizada, espero fazer uma carreira promissora como às dos políticos e empresários do país”. Um importante Congresso Internacional para o Futuro da Educação será sediado no Brasil e o organizador do evento afirmou que fomos escolhidos pelos grandes avanços, inovações e liderança em assuntos pedagógicos e educacionais, exemplo a ser seguido por todo o planeta. Sobre a substituição da literatura pela robótica nas escolas, os imortais se sentiram lisonjeados. Os robôs são os verdadeiros imortais e uma academia para os robôs está sendo planejada nos moldes da tradicional Academia Brasileira de Letras. O Ensino à Distância e os novos paradigmas engendrados pela sociabilidade virtual precisam ser homenageados, assim como o ensino tradicional. Os Honoris Causa do futuro também serão concedidos às máquinas, robôs e personagens da realidade virtual, informou o respeitado Reitor da Universidade dos Games. Ora, se os computadores corrigem a ortografia dos milhões de internautas, nada mais justo que o prêmio Nobel de literatura ser concedido aos aplicativos, comentou o engenheiro computacional indicado pelo Brasil para ganhar o Premio Nobel de Literatura de 2018. Ele ainda acrescentou, “Se Dylan ganhou, porque um aplicativo tão útil não pode ganhar?”. Os novos tempos vieram com tudo. A política internacional caminha ao lado das transformações no campo do saber e a guinada conservadora do mundo atual tem tudo a ver com o reino da técnica e da mediocridade que ronda os centros de pesquisas de todo o mundo. “Esse papo de pedagogia crítica e libertadora é ultrapassado. Paulo Freire imaginava que os seres humanos seriam os protagonistas contra o analfabetismo, mas quem acabou com o analfabetismo foram as máquinas, os programas computacionais. E não os professores. Os professores não podem competir com as máquinas, podem?”, questionou o importante pedagogo da Universidade Internacional do Ensino Intergaláctico. No futuro, não teremos mais alunos. Aluno será coisa do passado. Um chip implantado no cérebro resolverá todos os problemas educacionais. Não precisaremos de escolas, de professores, nem de alunos. “A verba da educação pode começar a ser destinada aos centros de robóticas e empresas computacionais. As Ciências Humanas precisam urgentemente ser jogadas no lixo: chega de Filosofia, Sociologia, História e Literatura. O mundo mudou, e o Brasil será a vanguarda dessa revolução pedagógica mundial”, ressaltou um respeitado economista conselheiro do FMI e do governo brasileiro.

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