domingo, 29 de janeiro de 2017

E agora, pra onde vai o EZLN?

Ensaio
Recebido em 20 de janeiro de 2017
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.


Após a realização do V Congresso do Conselho Nacional Indígena (VCCNI), em Chiapas (México), tem-se um quadro bastante alterado e com alguns retrocessos quanto aos princípios antes estabelecidos. Ora, sabe-se muito bem que o Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN) incorporou, no decorrer de sua existência, questões teóricas para um novo debate, direcionado por um processo criativo e diferenciado que não incluía atuação em eleições ou no âmbito parlamentar.
Foi assim desde o início do seu aparecimento, em 1994. E a figura do conhecido subcomandante Marcos, explicitando que o “principal comandante” era o próprio povo, ficou marcada, profundamente, em as nossas mentes. Isto é, expressava uma prática em construção, como uma alternativa revolucionária inovadora a ser “assimilada” por outros movimentos independentes.
No início do referido congresso, o EZLN tinha apresentado uma série de razões pelas quais não faria nenhum sentido apresentar qualquer zapatista, mulher ou homem, para concorrer nas próximas eleições em 2018. Era o que pré-estabelecia uma das frações dirigentes do movimento zapatista, negando veementemente que viessem apoiar tal proposta. E de uma forma clara, enfática e contundente, o comunicado divulgado, refutando essa questionável possibilidade, dizia:

Mesmo que 'as massas' nos demandem. Mesmo que a 'conjuntura histórica' necessite de nossa 'participação'; ainda que 'a Pátria', 'a Nação', 'o Povo', 'o Proletariado' (okay, isso já está muito demodé) o exijam, ou qualquer que seja o conceito concreto ou abstrato (por trás dos quais se esconde, ou não, a ambição pessoal, familiar, de grupo ou de classe) que se elabore como pretexto. Mesmo que a conjuntura, a confluência dos astros, as profecias, os índices da bolsa, o manual de materialismo histórico, o Popol Vuh, as pesquisas, o esoterismo, 'a análise concreta da realidade concreta', o etcétera conveniente...Não!”.

Portanto, resumindo, o EZLN dizia que não iria participar das eleições nem iria indicar ou apoiar uma candidata indígena para concorrer ao cargo de presidente do México daqui a dois anos. Mas, em sentido contrário, após o término do referido conclave tem-se outra informação: de que o CNI, junto com o EZLN, irá sim apresentar uma candidata mulher, indígena, zapatista, para concorrer à presidência da república nas próximas eleições. Uma guinada de 180 graus!
O que mudou, desde então? Numa primeira análise, percebe-se nesse caso que o grupo contrário a essa perspectiva eleitoral foi suplantado pela “vontade” coletiva de participar do pleito diante da grave crise que assola o México, desagregando e prejudicando um sem número de pessoas que já não tem como enfrentar a pesada recessão e conviver com a falta de perspectivas futuras numa situação de total incerteza. Num momento crítico e crucial que tem levado aos saques no comércio em várias regiões do país, diante de um governo incompetente e omisso, incapaz de enfrentar o narcotráfico, as disputas internas e a corrupção administrativa. O que aparentemente pode sinalizar para uma efetiva e real existência de condições objetivas que estimule a revolta popular e, consequentemente, a ocorrência de um processo pré-revolucionário consistente e de grande amplitude. Mas, onde está a consciência política necessária por parte das massas de que é preciso substituir esse sistema socioeconômico vigente, exaurido, falido, moribundo, por outra sociedade que seja (de fato) justa, fraterna e igualitária?
Na segunda fase do congresso do CNI, a maioria dos presentes optou por participar das eleições e também indicar uma candidata indígena, enaltecendo a importância desta decisão com base em “concepções” equivocadas, ou seja, fora da realidade que se apresenta no momento. E, neste sentido, foi elaborado e apresentado um novo comunicado público, após a votação, enfatizando:

A candidata oficial será uma mulher indígena saída das fileiras do CNI e será anunciada em maio próximo. Sem dúvida, essa candidatura terá a face das ruas do México, da maioria das pessoas que circula por elas. Será a candidata (zapatista) dos pobres, explorados e oprimidos contra as elites mexicanas e o narcotráfico, que transformaram o país em uma terra sem lei. O seu anúncio representa uma ameaça real às elites mexicanas. É uma candidatura que pode vencer e acabar não só com a exploração capitalista, mas com mais de quinhentos anos de opressão iniciada com a invasão europeia. Essa decisão (pela candidatura) já mudou o panorama político do México, caracterizada por uma crise fenomenal”.

Que coisa, hein? Verifica-se nessa mudança uma carência geral quanto à falta de condições subjetivas para se alcançar e se consolidar um projeto consistente de transformação política e social seja através de uma revolução ou até mesmo por vias parlamentares, se isto fosse algo exequível. Experimento este que se deu no Chile de Salvador Allende nos anos de 1970 demonstrando a impossibilidade de um possível caminho pacífico para o socialismo, sem um enfrentamento direto com as burguesias. O sistema capitalista, como um todo, mesmo vivenciando uma profunda crise mundial de caráter sistêmico e estrutural, ainda conta com seus aliados em termos do capital globalizado, o que por si só não permitirá uma experiência isolada de um governo popular revolucionário sem o apoio amplo e explícito de outros países que possibilitem viabilizar este significativo evento histórico, com todas as suas implicações e os seus imprevisíveis desdobramentos.
Por todas as partes do mundo o caos já precede a barbárie que está sendo imposta pelo capitalismo, um sistema predatório em todos os níveis e ávido por manter lucros incessantes através da precarização dos salários e da exploração continuada do subemprego. Mesmo numa situação de crise agravada e crítica, o tal sistema “não deixa” de agir assim. E nem poderia ser diferente.
Todavia, compreende-se que é muitíssimo válido se tentar incrementar um processo revolucionário, desde que se invista na plena conscientização política, informando e esclarecendo em que condições a luta está sendo travada, sem “meias-verdades ou subterfúgios”. E, por isto mesmo, espera-se que tanto o EZLN como CNI logo se apercebam deste equívoco de participação no processo eleitoral, sem que a maioria da população entenda qual é o caminho a seguir e até onde se pode chegar.
Com efeito, as experiências de duplo poder e de governo autônomo em Chiapas é algo muito rico e caro para ser arriscado, agora, numa “empreitada” comprometedora e ilusória tal como está sendo proposto. Como se fosse possível resolver os problemas sociais e econômicos tendo por saída uma candidatura original e popular. No mesmo diapasão, espera-se também que seja possível encontrar outros meios de construção de uma (outra) esquerda que se pretenda socialista, revolucionária e anticapitalista, em discursos e práticas.
Entende-se, por conseguinte, que essa proposição aprovada no citado V Congresso do CNI, mesmo estando baseada numa questão tática eventual, merece ser rediscutida e reavaliada, evitando-se um provável desastre político que comprometerá todas as lutas que ainda se fazem imprescindíveis e prementes, ainda que numa conjuntura muito difícil.


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