domingo, 25 de dezembro de 2016

Hackers e drones: totens e tabus da contemporaneidade

Conto
Recebido em 5 de outubro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que é professor de Filosofia na UFAL.

Um drone militar para ataques aéreos

Estamos diante de um fenômeno monstruoso quando se contrata um hacker para proteger os dados de uma empresa. Enquanto a empresa convive tranquilamente com a ideia que pode vir a ser hackeada, o mesmo não acontece com o hacker, que imagina ser impossível que alguém esteja vigiando-o. Ora, se um hacker admite que pode ser seguido é porque ele não está cumprindo a sua missão, portanto ele não pode conviver com a ideia de sua própria falibilidade, possibilidade que uma empresa ou um indivíduo normal admite com tranquilidade. O hacker profissional tem que se autodefender e defender a empresa para a qual trabalha. Ao seguir essa lógica, ele passa a ingressar num reino do auto-engano, pois é tamanha sua obsessão que não permite que ele siga padrões normais passíveis de serem rastreados, haja vista que domina toda a tecnologia e sabe os caminhos para sua autoproteção. O hacker não faz um uso humano do mundo virtual, mas algo puramente instrumental, obsessivo e criminoso.
A psicologia do hacker não é apenas autodestrutiva, ela é terrorista e, portanto, monstruosa. Ele não é hackeado na medida em que deixa de usar humanamente os instrumentos que tão bem sabe dominar. E se deixa escapar algo, é para tomar conhecimento instrumentalmente do grau de sua vulnerabilidade. Não usar a internet é a fórmula do hacker para manter sua crença de especialista em espionagem e sabotagem virtual, mas não passa de um tolo que deixa de viver para se preocupar de forma maníaca com a vida alheia. Viver uma vida assim, de eterno compromisso com o segredo, com o sigilo absoluto é algo sem precedente na história humana. O Estado Democrático de Direito se tornou um hacker. Sua lógica totalitária tem como duplo a figura do hacker. Em quem um hacker confia? Em quem o Estado confia? Ninguém confia em mais nada. A psicologia do hacker é a que predomina nas relações humanas como um todo. O nudes é o anti-hacker. O hacker vive de flagrar nudes. Apenas assim ele se sente humano, no ato de flagrar ele exprime o que queria ser: o hackeado, o humano.
Um hacker produziu um nudes para testar sua infalibilidade. Viveu a vida toda protegendo esse seu material e nunca foi descoberto, e por toda a vida manteve segura a sua exposição. Graças aos mecanismos e dispositivos que criou para se proteger, ganhou inúmeros prêmios e sabia que esse jogo sádico entre vida ou morte lhe renderia muito sucesso, pois quanto mais ousado e mais necessitasse de proteção, melhor seria sua performance profissional. Apostou tudo nessa ideia e saiu vitorioso. Ninguém nunca localizou seu nudes protegidíssmo. Viveu a vida toda em função desse segredo e ao morrer a última ideia que passou por sua cabeça foi o quanto ele era superior por se considerar o maior hacker de todos os tempos. Imaginou que esse segredo estaria guardado para a eternidade e que diante de sua reputação de maior hacker da história humana ele entraria para a eternidade sem que ninguém desconfiasse de seu grande segredo, e o seu segredo era ter um segredo e nada mais. Ao desenvolver a técnica que protegeu o seu nudes, o hacker acabou guardando segredos militares dos mais diversos países junto com seu mais importante segredo íntimo. Ninguém conseguia adentrar aquela estrutura conservada há décadas e que guardava informações das grandes potências e uma simples foto de um homem pelado. Tamanha honra, tamanho prestígio jamais abalado perdurou para além de sua morte. Todos os hackers do mundo passaram a desconfiar e a tentar superar os limites impostos pelo maior hacker de todos os tempos. Os esforços internacionais acabaram por desvendar o mistério. Ao lado dos documentos oficiais de várias superportências e multinacionais havia o nudes de um castrado. Uma equipe de psicólogos e psiquiatras foram chamados para decifrar o enigma. O maior hacker do mundo havia se mutilado para não dar vazão a seus instintos e comprometer sua vida profissional. Essa foi a forma que ele encontrou para não ter seu nudes escancarado. Achava que tamanho sacrifício o imortalizaria. Não se preocupando com a vida sexual, poderia se preocupar integralmente aos serviços secretos da espionagem internacional.
A fórmula adotada pelo maior hacker do mundo passou a fazer parte dos currículos dos cursos de informática e um pré-requisito para ingressar no alto escalão do mundo da espionagem profissional, corporativa ou estatal. Ser castrado era o primeiro item do currículo dos pretendentes a ocupar cargos dos principais postos no mundo dos hackers. Não é a primeira vez na história que a castração e a castidade serviram de base para a progressão profissional: entre os guardas pessoais dos imperadores antigos, músicos da Idade Média e religiosos de diversas seitas, essa era uma prática comum. Com o mundo virtual, tal medida drástica passou a ser vista com naturalidade. Aos gênios que conseguissem alcançar a proeza sem o artifício da castração, ou seja, casos raros em que a atividade hacker esteve a serviço da humanidade e não do Império, a castração passou a ser o castigo número um para os que ousassem revelar os segredos dos Estados. A lógica mutiladora é tão evidente no mundo hacker que prisioneiros acusados de traição por revelar conteúdo das grandes potências passaram a se “mutilar” como forma de protesto. Para outros, a condenação foi ainda mais perversa. Tornaram-se zumbis engaiolados acusados de não seguirem o ritual sádico da autocastração e por isso deveriam ser condenados à morte. O mundo virtual dos hackers se parece com um jogo de videogame. Fuzilamentos, mortes banais, acidentes trágicos e a morbidade generalizada fazem parte da lógica do uso perverso da virtualidade. Deixa-se de viver para viver virtualmente, a vida dos outros não passa de um segredo a ser transposto a todo custo, a pulsão de morte dos hackers deseja que a vida do outro também se torne mero jogo virtual e que todos ingressem no vazio niilista das perseguições virtuais, e que a castração se universalize. Quando se esbarra com a vida, o hacker logo quer torná-la um objeto a ser virtualizado, banalizado, assassinado. Por isso a obsessão hacker pelos nudes, uma forma de jogar todo mundo no universo abstrato da vida virtual. O nu para o hacker é o desejo de seu desejo, é o que ele não pôde ser justamente por ser um hacker, por não ser um humano. O que se viriliza através dos totens e tabus dos nudes é o complexo da castração, algo que Freud diagnosticou como incapacidade de superação do Complexo de Édipo por parte do sexo masculino. Enquanto os hackers vivem a bisbilhotar a vida dos outros, o governo estadunidense planeja drones militares capazes de assassinar hackers que burlaram o ritual sádico da autocastração e transformaram sua pulsão de morte em ativismo social anti-hegemônico, conforme noticiou o WikiLeaks no dia quatro de outubro de 2016, data em que se comemora o décimo aniversário da organização fundada por Julian Assange.

O ciberativista Julian Assange

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