terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Campo da Globalização

Conto
Recebido em 29 de setembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que é docente de Filosofia na UFAL.

Campo de concentração nazista de Auschwitz

Os novos tempos não perdoam aqueles que fogem dos padrões estéticos impostos pela lógica do consumo. Ora, não faz mais sentido conviver com um obeso, alguém que não se veste na moda, que não se perfuma ou não utiliza os cosméticos indispensáveis não apenas para a boa aparência, mas sobretudo para o bom convívio e a sociabilidade perfeita. Não é injusto que tais pessoas que fujam desses padrões sofram preconceitos e paguem por seus desvios de condutas. A sociedade não os perdoa. Eles não tem saída, precisam aprender a lição. SPA's, academias, clínicas de cirurgia estética e até tratamento psicológico. A sociedade faz de tudo para recuperar essas pessoas. Se elas não aceitam, precisam aprender por outros meios e, se necessário, deve ser utilizado o uso da força.
Tal foi o consenso que passou a vigorar na sociedade como um todo, nos meios de comunicação, nas escolas e locais de trabalhos. Quem não atender aos padrões de consumo, deve ser afastado da sociedade. Um Big Brother com todos esses párias passou a ser a única alternativa para quem não se encaixasse nesses padrões. Essa foi a solução que a sociedade encontrou para remediar a grande disparidade entre os que se esforçam para o bem estético da humanidade e os que não se preocupam com a aparência. Um centro de reabilitação, um pan-óptico controlado por toda a humanidade enquanto alternativa para que a estética única não seja incomodada na grande passarela da vida, passou a convidar a todos que não se encaixam, com promessas de perda de peso e ganho de massa muscular.
Muito trabalho forçado, experimentos científicos tendo em vista o progresso da humanidade, cobaias humanas, manipulação genética: a humanidade se divertia com os castigos aplicados aos transgressores da ordem estética. Os adeptos do sexo bizarro e sadomasoquistas podiam fazer o que bem quisessem com os refugiados no Campo da Globalização. A religião também tentou converter os desregrados estéticos aos parâmetros hierárquicos da perfeição corporal. Antropólogos, filósofos, sociólogos, psicólogos também tentavam compreender como alguém não pode se importar com o culto ao corpo. Diante da incapacidade das ciências humanas em explicar tal fenômeno surreal, químicos, biólogos, sanitaristas, administradores de empresas e economistas começaram a cogitar o que fazer com tal tipo de gente.
As propostas foram as mais diversas, já que o trabalho forçado e a tortura não funcionavam. Não encontraram outro remédio senão o extermínio em massa da população irredutível aos ditames da aparência e da superficialidade. Um projeto mundial para reunir todos os inadequados ao sistema estético foi planejado. As pessoas eram atraídas em massa com as mais diversas técnicas de propaganda, e não imaginavam o que se escondia por trás dos convites e de todo tipo de venda enganosa. Um exército mundial foi treinado para a execução final. A câmara de gás não foi recomendada porque exigia um ambiente fechado, e as emissoras de televisão teriam dificuldade em transmitir o discreto método dos nazistas ao vivo. A irradiação inerente a uma bomba atômica seria um preço alto demais a pagar com pessoas tão insignificantes. Logo, o descaramento típico dos americanos também não era útil ao projeto. Mas qual a melhor forma de se erradicar os diferentes do planeta de forma rápida e espetacular?
Um filósofo lembrou a natureza suicida de Sócrates, que segundo a perspectiva de Nietzsche, estava associada ao fato dele ser feio e doente. “Excelente ideia!”, exclamou o presidente da Organização das Nações Estéticas. “A fisiognomia é a verdadeira ciência, devemos retornar aos gregos. Excelente ideia! A partir de hoje caberá aos fisiognomistas decidirem entre a vida e a morte de todos os viventes. E o Campo da Globalização deve ser ampliado, e todos aqueles que não apresentarem os padrões da simétrica narcísica grega serão condenados a tomar cicuta”. Segundo um pensador alemão, feiura e doença não são capazes de resistir, de se opor à pena capital. Assim falou Nietzsche: Sócrates, Sócrates sofreu da vida!

Prisioneiros de campo de concentração


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