sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Adeus, Lênin!, de Wolfgang Becker

Ensaio [*]
Recebido em 08 de dezembro de 2016
Por Sidartha Soria, professor do Departamento de Sociologia da UFPE.

Cartaz alemão do filme

A luta de um filho para proteger sua mãe enferma de emoções fortes, o embate entre capitalismo e socialismo, ou entre utopia e realidade, a (relativa) fronteira entre realidade e ilusão, entre verdade e mentira. O filme Adeus, Lênin! (Alemanha, 2003) combina de tal maneira tais motes e outros, que acaba resultando em uma bela história dotada de múltiplas dimensões ou níveis de análise, sendo capaz de provocar discussões as mais diversas. O manancial de reflexões, mais ou menos profundas, aberto pelo filme dirigido por Wolfgang Becker (roteiro de Bernd Lichtenberg), ajuda a explicar o grande sucesso da projeção, a qual, tendo tudo para se fixar no nicho cult, acabou sendo vista por mais de 6 milhões de pessoas apenas em seu país de origem. A riqueza do filme excluirá, portanto, interpretações reducionistas, tanto como a que o saúda como uma crítica ao socialismo, quanto a que o elege como um defensor deste. Longe de se resumir a algum enfoque saudosista do antigo socialismo “real” soviético, o que o filme parece exprimir mesmo é a carência de uma utopia, a prática de uma ideia que supere o “deserto do real” no qual a sociedade de consumo liberal converteu a humanidade. Alguns comentários sobre o filme fazem-se necessários, uma vez que já se sugeriu que a projeção seria uma referência de crítica ao socialismo, por ser ambientado na antiga Alemanha oriental e ter a queda do Muro de Berlim como mote central da trama. Nada poderia ser mais equivocado.
A trama do filme, simples e extremamente engenhosa, permite o uso do tema da reunificação das duas Alemanhas como elemento central do enredo. A história é a de um rapaz, Alexander Kerner (interpretado por Daniel Brühl) cuja mãe, Christine (Katrin Sab), uma devota fervorosa do antigo regime alemão oriental, sofre um colapso e entra em coma, pouco antes do Muro cair. Assim permanece durante 8 meses, período no qual vai se dando a integração das duas Alemanhas, com a entrada do capitalismo tradicional ocidental no território oriental “socialista”. Uma vez desperta do coma, o filho recebe do médico a incumbência de mantê-la distante de emoções fortes, dado o seu estado ainda frágil. Alexander resolve, então, construir a ilusão, para sua mãe, de que a Alemanha “socialista” continua existindo.
O filme, de uma sensibilidade extraordinária, não se restringe ao enfoque (e à crítica) dado à questão política e social presente no conflito entre capitalismo e “socialismo”, questão esta que, por sinal, é abordada com humor, ironia e criatividade surpreendentes. Em certa altura da projeção, percebe-se que o filme pode ser concebido como uma fábula sobre a capacidade que temos de construir (e destruir) realidades ilusórias. A história nos mostra como algumas simples palavras ditas e ouvidas possuem uma capacidade de construir mundos ilusórios tão potentes quanto a da maratona do filho em construir um mundo fictício para sua mãe. Sugere-se a relatividade do intento em iludir: ilude-se alguém para “protegê-la” ou para proteger quem ilude? A ilusão protege contra algo real ou contra outra ilusão? Até que ponto pode-se separar a ideia da matéria, ou o “ilusório” do “verdadeiro”? Conforme desenrola-se a trama, o espectador é levado a perceber o quanto uma ilusão, feita para encobrir e ludibriar, pode revelar e esclarecer. O ser humano, em suas inúmeras contradições, revela-se quando esconde dos filhos determinadas verdades, dos pais determinados pecados, até que, o filme reafirma esta tese, verdades e pecados, mentiras e virtudes, longe de serem meras palavras evanescentes jogadas ao ar, são capazes de dobrar a carne, e dela verter sensações concretas. Mostra que os indivíduos, mais do que forjados por intenções, são construídos pelos efeitos dos movimentos realizados por aquelas, em que intenção e resultado podem ser bem diferentes um do outro.
No que toca à dimensão “política” da fita, poucos serão capazes de não perceber que o filme é um elogio ao socialismo. Não ao socialismo “real”, mas ao socialismo entendido como ideal, como humanismo libertário. Lá está a ironia ácida com a qual se acusa a liberdade sob o capital de ser, em maior ou menor grau, uma subordinação do indivíduo ao moto-perpétuo do consumismo, e que este mal disfarça a conversão do ser humano em um apêndice da máquina de valorização do Valor, que a desigualdade e a perda de humanidade do ser são características inerentes à sociedade do mercado.
Tão forte quanto a crítica ao modo de produção capitalista é a crítica da infrutífera tentativa do “socialismo real” de escapar à barbárie capitalista. Os desmandos da burocracia, a asfixia do indivíduo pelo caráter autoritário do Estado sovietista, a inviabilidade de uma organização social que buscou sair do capitalismo sem romper com as forças fetichistas ou alienantes do capital.
A derrocada do Leste europeu soviético permite que o filme exponha o choque de duas perspectivas apenas aparentemente distintas, mas que compartilham características essenciais em comum. Do lado oriental ex-soviético, implodem as ruínas de uma herança “modernista” da sociedade do capital, qual seja, baseada nos princípios fundamentais do fordismo, voltados para o grande planejamento, para a gigantesca tentativa racionalista de abarcar e controlar toda a diversidade da sociedade humana, de circunscrevê-la dentro da lógica, de mensurá-la, de prevê-la.
Já do lado ocidental capitalista, expresso pelo filme nas festas raves de cores psicodélicas e entorpecentes, revelar-se-ia, diante dos alemães orientais, a face “pós-modernista” do capital. Tal face, que emerge da ressaca do fordismo-keynesianismo ocidental e da emergência de um capitalismo baseado na “produção flexível”, marca o (res)surgimento de um capitalismo “desorganizado” que fragmenta e esfacela o tecido social, que substitui o grande plano pelas micro-perspectivas, o falso “coletivismo” fordista por um ultra-individualismo da era flexível e neoliberal. O capitalismo “flexível” eleva à máxima potência os valores da competição fratricida, do egoísmo e da ambição sem limites, do hedonismo insensível e desesperado. É esta Alemanha ocidental, é este capitalismo ocidental (turbinado pela microeletrônica combinada à organização flexível do trabalho na hiper-exploração do ser humano, o qual busca se refugiar na auto-destruição de si mesmo e em uma pseudo-diferença em relação aos outros desesperados), que serpenteia, sedutora, diante de um Leste despedaçado pela obsolescência de um fordismo burocrático que esgotou-se em sua própria auto-saturação.
Em comum, tanto à falsa diversidade e liberdade do ocidente “flexível” quanto à monotonia e padronização do leste “rígido”, está a lógica auto-referenciada do capital. Talvez, ou provavelmente, o filme não pretendesse tal linha de análise, e na verdade nem precisava. Pairando sobre ambos os lados divididos pelo muro em ruínas, Alexander, o filho, constrói, em sua ilusão, uma nova versão para os acontecimentos de 1989 na Alemanha dividida. Nesta versão, a fictícia vitória do socialismo sobre o capitalismo, para além de sugerir o saudosismo do “socialismo real”, afirma-se como uma belíssima recuperação do ideal socialista. A extraordinária criatividade com a qual Alexander pinta um socialismo que “dá certo”, pode-se objetar, seria apenas uma ideia, fluida e rarefeita como o ar. Mas, conforme já foi dito, o filme também tem o mérito de (re)afirmar que ideias mudam a realidade, ao se fundirem, na forma de ação, à concretude do real.

[*] Este ensaio foi escrito há algum tempo por conta de um projeto chamado Tela Crítica e é republicado agora com autorização do autor.

Anúncio dos 40 anos da República Democrática Alemã
acompanha reflexão de Alexander

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