terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sobre um sintoma na filosofia política de Žižek

Ensaio
Recebido em 13 de novembro de 2016
Por Hugo Bezerra Tiburtino, doutor em Filosofia.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek

1. O filósofo Slavoj Žižek errou feio ao declarar que votaria no candidato republicano à presidência dos EUA de 2016. Não é preciso quebrar a cabeça para entender a argumentação de Žižek, pois mesmo certa ela está errada. Quero dizer, mesmo que suas previsões venham a se mostrar corretas, sua argumentação já está equivocada. É verdade que Žižek já retirou seu voto, metaforicamente, em um artigo lançado no dia da eleição presidencial estadunidense. Contudo, também no mesmo artigo, a argumentação continua falha, descabida (aliás, aí Žižek errou novamente, pois supunha que o candidato republicano não iria ganhar);

2. Não se tente justificar Žižek afirmando que ele “só quer ser um popstar”, “gosta muito dos holofotes”, “não estava falando sério” ou desculpas semelhantes. Seu erro crasso denota um problema na teoria política žižekiana. Aqueles que o seguem (inclusive professores universitários famosos no Brasil) e não corrigirem agora o erro, arriscam-se a cometer enganos de mesmo grau ou piores. E se o próprio Žižek não estiver disposto a mudar sua teoria política, vai continuar arrastando consigo uma legião de repetidores para o buraco das opiniões reacionárias;

3. Onde está o erro da filosofia política žižekiana? Minha hipótese: sua filosofia política está muito dependente de sua metafísica negativa (ou nadologia). Sua obra mais robusta, Menos que nada, consiste numa tentativa de mostrar como sistematicamente o nada, para ser consistente, se nega a si próprio e assim cria o positivo, seja o universo, o sujeito ou a sociedade (pela centralidade do nada, chamo-a nadologia). Consistentemente, a solução žižekiana para as eleições presidenciais em questão, a aposta no candidato mais reacionário, é mais uma expressão de sua crença no negativo como forma de criar algo de positivo, uma verdadeira crença num Nada que, de alguma forma mística, rearranjaria as coisas para algo positivo. Ora, a metafísica negativa žižekiana exerce sobre sua filosofia política o mesmo efeito que as metafísicas anteriores exerciam sobre suas respectivas filosofias políticas, a saber: introduzem elementos teóricos estranhos ao escopo da discussão. Em última instância, a filosofia política žižekiana repousa sobre bases obscurantistas, apesar dos elementos progressistas de verniz, e consequentemente tinha de mostrar sintomas reacionários.

3 comentários:

  1. No dia em que li sobre o "voto" do Žižek no Trump eu concordei, mas não foi movido por uma crença no negativo como forma de criar algo de positivo. O motivo foi que com os Democratas a barbárie é a mesma, mas disfarçada por um verniz de civilidade e democracia. Com Trump não existe disfarce ou falsa consciência. A barbárie é explícita. Por isso, acredito que seja mais fácil de combatê-la.

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    1. Obrigado pelo comentário, Vitor. Há vários pontos de discussão.
      1. Deixa eu esclarecer minha análise de Zizek: na argumentação dele não está claramente a crença no negativo. A argumentação dele nem passa por isso. Eu é que tenho a hipótese de que Zizek deixou sua nadologia influenciar sua filosofia política.
      2. Não creio que Trump é mais fácil de combater por ser mais explícito. É mais provável esperar que ele vai deixar os progressistas recuados, pondo pautas reacionárias e ao mesmo tempo ativando toda a máquina do governo para reprimir ou enfraquecer protestos. Se isso no entanto for mais arriscado, ele pode buscar criar uma imagem paz e amor, restabelecendo a maquiagem de civilidade dos democráticas.
      3. Contudo, ainda que se possa discutir se um é mais fácil de combater que a outra, o 'voto' por esses argumentos é claramente uma decisão errônea, dado que há várias formas de combater o imperialismo e nenhuma efetiva é se resumir a dar o voto ao candidato mais explicitamente preconceituoso. O filósofo já tirou seu voto, repito, mas o fato de ele continuar acreditando que agora as pessoas tem mais chances de simplesmente acordar é esperança vã, se não for acompanhada de ação.

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  2. Concordo que a esperança é vã se não for acompanhada de ação. O caso dos EUA me parece com o do segundo turno de Belo Horizonte. Entre o troglodita Kalil (ex-presidente do Atlético MG) e o João Leite (PSDB), muitos amigos militantes de esquerda de BH optaram pelo Kalil, enquanto outros votaram nulo. Quem escolheu o Kalil seguiu a lógica de escolher o adversário mais transparente em seu reacionarismo.

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