quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Genocídio de um povo abandonado à própria sorte

Ensaio
Recebido em 29 de outubro de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Ataques aéreos contra o povo sírio

Há um massacre hediondo em andamento na Síria que já faz praticamente quase seis anos. A cada dia, naquele país devastado pela guerra, homens, mulheres e também crianças são mortos em várias cidades. Milhões de refugiados estão sem teto, centenas de milhares passam fome sob o sítio imposto pelo governo sírio. E, além do mais, ocorrem ataques frequentes aos comboios de ajuda humanitária da ONU e constantes violações dos direitos humanos, o que vai contra a legislação internacional em tempos de guerra ou até mesmo de paz.
Depois da queda de Kadafi na Líbia, a Síria passou a ser igualmente alvo do processo político denominado de “Primavera Árabe” e iniciado em fins de 2010, que a partir da Tunísia desencadeou um amplo e incontrolável movimento por mais democracia e de enfrentamento direto aos governos monárquicos, ou ditos presidencialistas, apoiados no islamismo, em sua grande maioria. O que tem sido confirmado com a permanência de pessoas ou famílias, bem como de aliados destes, que se reservam no poder administrativo de controle do Estado longos períodos de tempo, por décadas.
Nesse contexto, a forte presença de forças militares da Rússia, apoiando e ajudando o governo central sírio a sobreviver, é um fator desestabilizador e totalmente insano. Promovem, indiscriminadamente, sistemáticos e mortíferos bombardeios contra as populações indefesas dos bairros das cidades de Homs, Aleppo e Halak, entre outras mais. Não há nenhuma preocupação com parcelas vulneráveis da população, sejam idosos ou de menor idade, as quais estão na mira dos foguetes e misseis disparados contra todos os que habitam aqueles espaços, atingindo escolas, hospitais, creches etc. Situações estas que estão documentadas em fotos e vídeos.
Para justificar essa vergonhosa carnificina o governo de Bashar al-Assad, que é a continuidade de sua família no poder há mais de 40 anos, diz para a mídia internacional que os insurgentes dessas cidades são todos eles “terroristas islâmicos”. Uma repetida mentira deslavada, até porque os regimes de força, considerados “democráticos” na aparência, como é o caso da Síria, não aceitam ser questionados. Usam, portanto, de todos os meios possíveis para eliminar qualquer rebelião contrária aos seus ditames de dominação nacional. Hoje em dia expressam, tão somente, um arremedo do que foi o nacionalismo pan-árabe das décadas de 50 e 60, que incluía o Egito e o Iraque de então. Os sunitas, que são uma minoria religiosa, controlam as forças armadas e toda a estrutura governamental no território sírio, em detrimento da maioria xiita e de outras vertentes que se deixam subjugar.
Mas, claro está que naquela conturbada região estão em jogo vários interesses que envolvem as grandes potências e grupos econômicos da Europa e dos EUA por se tratar de uma área estratégica de produção petrolífera e de gases. Afora de ser, também, um caminho de escoamento pelo Mar Mediterrâneo. De outro lado, a Rússia, que não é mais a extinta União Soviética (URSS) embora seja ainda uma nação que mantém outros povos sob o seu domínio territorial, manifesta também o seu caráter imperialista e tem como opção ajudar o regime sírio em xeque, que é um de seus aliados na região, e ao mesmo tempo firmar-se como uma alternativa política e militar de peso.
Não há nenhum cuidado quanto à situação das várias populações fustigadas diariamente, desde que não existem esquemas progressistas a defender. Nada disso! O que prevalece mesmo são os mesquinhos objetivos de submissão de outros povos e de controle externo sobre as riquezas naturais. Ora, não há “mocinhos” ou “bandidos” neste conflito armado. Muito pelo contrário, pois o capital globalizado está por trás de tudo isto em todas as frentes.
Enfim, estamos diante de uma tragédia humanitária que não conta com o apoio e a solidariedade das esquerdas em geral. Uma cumplicidade inadmissível e sem nenhum sentido. Ora, como é possível assistir ao que está acontecendo por lá impassivelmente? Fala-se de imperialismos como se fossem os únicos responsáveis pelos estados de miséria e pobreza que atinge toda a humanidade há séculos, mas ignora-se que a raiz disto encontra-se no interior do predatório e devastador sistema capitalista, o qual ainda subsiste hoje em dia em suas variadas e inúmeras facetas.
Com todo o efeito é uma verdade crucial para todos nós militantes socialistas que, em plena consciência, visamos apoiar a necessidade premente e essencial de retomada das lutas anticapitalistas em todos os países. Mas, sabe-se que o dilema central continua sendo entre o socialismo ou a barbárie. E, nesse caso, pode-se afirmar com total convicção que a omissão por covardia política é, sim, uma “escolha” inconsequente e deplorável.

A barbárie ocidental atinge o povo sírio

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