sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Em defesa da filosofia política de Zizek

Ensaio
Recebido em 16 de novembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.

Slavoj Zizek, autor de Menos que nada

A ironia no terreno filosófico não representa aquilo que o “senso comum” concebe como irônico. Trata-se de um método, uma concepção com fortes consequências políticas. O pensamento de Zizek é irônico e seu “apoio” a Trump não pode ser visto como uma postura racional ou sob o ponto de vista do politicamente correto. Ora, para entender Zizek e as eleições americanas é simples: o que dizer da atitude dos democratas em relação a Julian Assange, Edward Snowden, Bernie Sanders e tantos outros que sofreram perseguições com sofisticados requintes de crueldade? O Partido Democrata tenta ofuscar esses fatos, bem como todas as suas ações fascistas, usando o discurso e a máscara do politicamente correto a partir de um forte aparato midiático.
O biopoder dos democratas é tão perigoso para o mundo quanto fascismo declarado de Trump, e isso Zizek tem toda razão em denunciar. É lamentável que colegas do campo filosófico ataquem tal pensador por ele usar a ironia como tática política, até porque nós filósofos não temos outros meios. A postura de Zizek pode ser comparada àquela Coruja de Minerva que Hegel faz menção em sua Filosofia do Direito: não cabe ao filósofo fazer previsões, mas refletir para além do imediato e identificar o efetivo no curso controvertido e contraditório da história. É preciso alçar voo, mas não a qualquer hora do dia, apenas ao entardecer, para não se confundir com o mercado das doxai, das meras opiniões.
Querer dar lições a Zizek, chamá-lo de reacionário, atacar seus simpatizantes que no Brasil representam o setor mais progressista da nossa intelectualidade acadêmica, esta, sim, é uma postura conservadora e reacionária. Zizek vem construindo uma teoria das mais amplas, complexas e profundas da atualidade, e desclassificar seu pensamento por conta de mais uma de suas polêmicas, certamente conscientemente elaborada para gerar o debater e fazer o “senso comum” pensar, é de uma arrogância tremenda. Querer que Zizek mude sua teoria política quando o seu ato recente é o maior símbolo de acerto de sua teoria, é ignorância. Vejam, há algum tempo Zizek vem trabalhando a categoria do cinismo, o recalque e a demagogia na política. E o fenômeno Trump é a prova de que Zizek está certo. Zizek não é a causa do fenômeno Trump, ele é o pensador que vem denunciando que o ocidente descambaria inevitavelmente para o fascismo devido ao recalque do politicamente correto.
Metafísica negativa em Zizek? Longe disso, em Menos que nada, ele defende o materialismo histórico e compreende o sistema de Hegel como um sistema aberto, e sua negatividade deveria ser repensada não aos moldes de Adorno, mas em direção ao pensamento de Marx, ao materialismo histórico. Criticar o negativo como causa de Trump? O negativo precede Trump, se manifesta com Trump e representa o caminho para a superação de Trump. O negativo na História não pode ser silenciado, como fazem os politicamente corretos e os cínicos. A tradição dialética olha para o negativo como algo inerente aos processos históricos e sociais, e não como algo ruim; observa-o enquanto o motor da historicidade que não pode ser percebida além de suas determinações e contradições. Difamar como místico o pensamento de Zizek é desconhecer por completo sua filosofia, que aliás combate veementemente o fundamentalismo de todas as espécies, inclusive o cristão. É lamentável que meu amigo Hugo diga isso de Zizek: “Em última instância, a filosofia política žižekiana repousa sobre bases obscurantistas, apesar dos elementos progressistas de verniz, e consequentemente tinha de mostrar sintomas reacionários”. Recomendo que ele leia Às Portas da Revolução, texto em que Zizek defende Lenin com bastante vigor: “A grandeza de Lênin residiu em, nessa situação catastrófica, não ter medo de triunfar – em contraste com o pathos negativo discernível em Rosa Luxemburgo e Adorno, para quem o ato autêntico em última instância era a admissão do fracasso que traz à luz a verdade da situação”.
A verdade da situação Trump não deve ser vista com o pathos negativo do fracasso, mas como o acerto de Zizek e de sua teoria revolucionária. Caso ele não tivesse polemizado, não estaríamos aqui debatendo a relação entre filosofia, revolução e fascismo. Viva Zizek!

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