segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O suspiro da criatura oprimida

Ensaio
Recebido em 18 de setembro de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Ludwig Feuerbach, filósofo alemão do século 19

A modernidade não tratou com benevolência as religiões. Sigmund Freud se referiu a elas como uma espécie de neurose, fuga ou escape diante da dura realidade de cada um. E chegou a prever sua extinção, com o avanço da ciência e do pensamento esclarecido. Marx foi mais longe, chamou-as de “ópio do povo”, recriminando as classes que precisavam se apegar a uma ilusão para viver. Os autores contemporâneos – adotando uma postura agnóstica e pragmática – predispuseram-se a aceitar o fenômeno religioso como um fato sociológico, funcional para a sobrevivência da humanidade.
Mas, para mim, o pensador que soube exprimir como ninguém a essência do fenômeno religioso foi o alemão Ludwig Feuerbach, em sua obra A essência do cristianismo, publicada no Brasil com um prefácio de Rubem Alves. Segundo Feuerbach, podemos ler e traduzir o fenômeno religioso como uma alegoria do sofrimento humano na terra e sua busca de redenção. Daí a busca de um Deus, um céu, uma família, um mundo melhor, muito melhor do que o que vivemos. Diz o filósofo alemão, que somos religiosos porque não nos conformamos com a miserável a infeliz vida mundana que levamos. Porque queremos uma vida melhor do que essa para viver. As imagens do nosso mundo religioso querem dizer que é este (o mundo da religião) o mundo que queremos e não o que de fato vivemos.
Muitas críticas advieram a essa formulação feuerbachiana. Sobretudo, porque ela tratava as religiões históricas como formas de alienação e convite ao conformismo social e político, ao transferir para uma esfera transcendental as utopias de uma vida melhor nesse mundo imperfeito e lacunoso. Seu principal discípulo, Karl Marx, radicalizou a crítica, propondo o fim do Estado, o fim da política e das religiões, como forma de emancipação humana, ao dizer que os homens interpretaram o mundo de diversas maneiras, mas urgia transformá-lo.
A pós-modernidade, com sua descrença na razão, foi mais generosa com as religiões. Houve uma espécie de reencantamento do mundo e da sociedade. E uma desesperança nas utopias profanas que prometiam o milênio na terra. E é preciso dizer que vários religiosos e crentes passaram a tomar parte nos esforços para a construção de um mundo mais humano e justo. Fiz parte, na condição de ateu e socialista, desses movimentos, entendendo que era um amplo convite “aos homens de boa vontade” para mudar o mundo e fazê-lo melhor, sem distinção de credo, ideologia, raça, gênero ou orientação sexual. Não me arrependo. Encontrei valorosos amigos e camaradas.
Mas, hoje, tenho de constatar com tristeza e desolação que a religião vem sendo usada, sem o menor escrúpulo, por pessoas cujo o único interesse é de natureza eleitoral ou eleitoreira. Gente que se vale da sua condição de ministro religioso ou missionário ou crente nas escrituras sagradas, para arrancar voto dos ingênuos, incautos, pessoas crédulas, de boa-fé. Neste caso, não há como se enganar: se trata de meros mistificadores, pescadores de águas turvas, mercadejadores da fé em busca de cargos, mandatos, tráfico de influência, etc.
Em relação a esses últimos, não há como se iludir ou ter condescendência. Trata-se de lobos em pele de cordeiro, cujo o único objetivo é engazopar os ingênuos, propondo a salvação da alma em troca do voto e de ajuda material para suas igrejas ou obras “missionárias”. É uma nova cruzada bíblica, animada dos piores propósitos: atentar contra a precária laicidade do Estado brasileiro e colocar em risco os direitos das minorias. Fariseus e sepulcros caiados, como disse a pregação do messias.

O pastor neopentecostal Silas Malafaia é beijado por José Serra (PSDB)

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