sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Em nome de Jesus

Ensaio
Recebido em 04 de outubro de 2016
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da UFPE e coordenador do NEEPD/UFPE – Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia.

Crivella (PRB), candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2016:
religião e política

Fui submetido a uma bateria de questões por um amigo-editor sobre o resultado das últimas eleições municipais no Brasil. Essas eleições ocorreram num ambiente de profunda insegurança jurídica, de impunidade (em relação aos “políticos ficha suja”), de um monopólio “partidário” dos meios de comunicação, do desgaste político do PT e da esquerda, do crescimento do voto evangélico e, porque não dizer, de um Estado de Exceção, capitaneado pela Polícia Federal e o ativismo da magistratura.

Como apurou a mídia, as candidaturas mais bem aquinhoadas financeiramente venceram ou foram para o segundo turno das eleições. Os grandes partidos, sobretudo de centro-direita, aumentaram suas bancadas. Os candidatos da igreja reformada chegaram ao segundo turno. De forma que, pelo andar da carruagem, teremos legislaturas e executivos municipais mais à direita, mais conservadores. Diria um pescador (não de almas ou de águas turvas), o mar não está para peixe. Retrocedemos à época em que a nossa política de sobrevivência é a defesa dos mínimos sociais, numa frente de massas, diante das ameaças desse governo temerário, composta de aposentados, trabalhadores, estudantes, funcionários públicos, donas de casa, pessoas sem-teto, sem emprego, sem escola etc.
Não fosse a ida de Marcelo freixo (PSOL) para o segundo turno no Rio de Janeiro, contra o bispo da Igreja Universal, e a ida de João Paulo (PT), no Recife, contra o representante local da oligarquia política que tanto nos infelicita aqui, dir-se-ia que a catástrofe política teria se abatido de uma vez sobre o país, com ou sem a benção do nosso senhor Jesus Cristo. Já o reflexo disso sobre as eleições presidenciais e estaduais, daqui a dois anos, não prenunciam boas novas. A depender do curso da economia (e da crise internacional), da base fisiológica de sustentação do atual mandatário presidencial, e da conspiração dos partidos que o colocaram na cadeira da Presidente Dilma, pode-se ter ainda muitas surpresas desagradáveis nesse ínterim eleitoral. Fala-se em eleição indireta, em 2017, já com pretensos candidatos.
Afirmei que o ciclo político de centro-esquerda tinha se esgotado no Brasil, e que não tinha aparecido alternativas fortes, consistentes, que pudessem se apresentar à exaustão do ciclo político. O nome de Lula não pode ser essa única alternativa. Sobretudo, em face das manobras e escaramuças do juiz Sérgio Moro, destinado como está a criminalizar o PT e suas lideranças políticas. O PSOL ainda não tem a musculatura suficiente para oferecer um nome e granjear alianças necessárias para tornar viável uma candidatura presidencial. Tem um longo caminho a percorrer. Não acredito também na viabilidade eleitoral de qualquer um dos caciques do PSDB, apesar da vitória do empresário e marqueteiro João Dória, eterno adulador dos tucanos.
Assim, se a crise econômica perdurar, a solerte invasão religiosa continuar, se uma certa classe média reproduzir o noticiário venenosa da mídia golpista desse país e a ditadura do judiciário se mantiver, fora de todo e qualquer controle constitucional, a porta estará aberta a todos os aventureiros, messias, salvadores da pátria de todas as igrejas existentes. Nem sempre a crise política e econômica, num ambiente de perda de confiança nas instituições republicanas, é uma janela de oportunidade para candidaturas progressistas e mais avançadas. Pode ser o atalho perigoso para o discurso da frustração política, dos “outsiders”, dos que se proclamam não-políticos, mas portadores da eficiência, da competência gerencial, da honestidade a toda prova etc. Se fosse religioso e frequentasse algum templo, rezaria muito para que esse tipo de messias não aparecesse tão cedo. E que o apocalipse da democracia fosse evitado.

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