quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A guerrilha do Capibaribe

Conto
Recebido em 22 de setembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que leciona Filosofia na UFAL.

Um dos locais de reunião da "guerrilha do Capibaribe"

Nos últimos anos, o Rio Capibaribe foi perdendo espaço para o Rio Araguaia. As discussões envolvendo a Comissão Nacional da Verdade no noticiário foi arrefecendo aos poucos o valor simbólico do rio mais amado pelos recifenses. Diante disso, um grupo de jovens universitários e secundaristas resolveram que não deixariam esse esquecimento recrudescer, e que fariam de tudo para reerguer a grandiosidade do rio, que outrora era o mais conhecido do povo brasileiro e mais comentado do que o rio Amazonas. Resolveram então fundar um movimento político que fosse capaz de imortalizar o rio, movimento que pudesse entrar para a história. Assim como a guerrilha fez com o rio Araguaia, certamente o Capibaribe recuperaria o prestígio de antes.
O movimento ficou conhecido como guerrilha cultural do Capibaribe. Em suas pontes, os jovens se reuniam para discutir política, ler poesia, cantar música, fumar maconha e namorar bastante. Em suas margens, discutiam filosofia, ecologia e economia. Cada “tribo” ocupava uma ponte. Os jovens passavam a madrugada experimentando uma nova temporalidade e uma nova espacialidade começava a se espraiar pela cidade. É claro que isso atrapalhava o trânsito, incomodava os transeuntes e principalmente os políticos. Mas os jovens não estavam nem um pouco preocupados. Viviam tão intensamente sua revolução que esqueciam do tempo, chegavam a dormir pelas calçadas e pontes de tão embriagados por sentimentos revolucionários. O apoio da população ribeirinha, moradores das palafitas, moradores e crianças de rua foi unânime.
Porém, ninguém imaginaria o que estava por acontecer. Eles não se deram conta, após um dia de intensos debates numa assembleia geral em que se programavam para uma ocupação do Palácio das Princesas, que aquele dia era véspera de carnaval. Primeiro, os funcionários da limpeza e os seguranças colocaram vários deles nos carros de lixo e foram triturados como entulhos seguindo ordens do governador do estado de Pernambuco. Os primeiros trios elétricos ao som do frevo pareciam reproduzir cenas do passado, com passistas de frevo se digladiando com milhares de jovens. Muitos ficaram feridos e vários foram assassinados. A turba foi chegando e muitos morreram pisoteados. Os corpos foram jogados no rio como latas de cerveja pela multidão alegre e festiva. As lanchas, iates e embarcações de médio porte passavam por cima dos poucos sobreviventes.
O público recorde do Galo da Madrugada não deu margem para discussão nem lembrança do ocorrido. O Secretário de Defesa Social mandou apagar as imagens das câmaras de segurança. A imprensa não noticiou os acontecimentos, pois preferiu enfatizar os artistas da Globo presentes num camarote vip. Muitos jovens foram enterrados como indigentes. Os desaparecidos entraram para as estatísticas como criminosos e perturbadores da ordem social. Aos pais dos estudantes, a polícia civil deu a seguinte versão: foi um caso de suicídio coletivo, típico entre fanáticos, usuários de substâncias ilícitas e álcool. O rio continuou marginal, a guerrilha nunca foi lembrada, e não houve sobreviventes para narrar os fatos. E o bloco mais famoso do mundo entrou mais uma vez para a história segundo os anais do Guinness Book.

O Galo da Madrugada às margens do Capibaribe

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