sábado, 17 de setembro de 2016

"Os contrários curam"

Conto
Recebido em 11 de setembro de 2016
Por Gutemberg Miranda, que leciona Filosofia na UFAL.

Sigmund Freud (1856-1939)

No consultório do Dr. Maciel todos saíam com uma receita tarja preta. Bastava ele desconfiar de alguma desordem comportamental, a partir de seus parâmetros morais e religiosos, que a prescrição estava garantida. Perguntava a opção sexual dos pacientes e, conforme cálculos pré-estabelecidos com a ajuda de seu sistema teológico, era indicado determinada dosagem de antidepressivos e ansiolíticos. Bastava ouvir um relato de traição conjugal, era certa determinada dosagem de psicotrópicos. Mas o que ele não aceitava mesmo era a liberdade sexual, o sexo casual, e a multiplicidade de parceiros sexuais era suficiente para determinar a dopagem e internação do paciente.
Seus colegas de ambulatório logo perceberam a loucura do médico, o seu fanatismo religioso evidente e, por conta disso, não tiveram dúvida que se tratava de um caso de internação. Ele acordou num leito de hospital e ao perceber a situação prescreveu mentalmente um remédio para seu colega de profissão. Ao ver a enfermeira que lhe aplicava a injeção, não teve dúvida que se tratava de uma assistente do diabo, e imaginou o quanto de droga psiquiátrica ela mereceria por executar as ordens de algum cientista materialista sem nenhuma convicção moral ou religiosa.
Sua obsessão pela cura dos “males” através de medicamentos só aumentou durante sua estada no sanatório. Dr. Maciel logo arrumou um jeito de fugir daquele espaço que ele conhecia tão bem desde a época de sua residência médica. Partiu para um lugar ermo, lá encontrou muitos fiéis e não teve dificuldade em convencer as pessoas com suas hipóteses fundamentalistas. Ele se tornou um líder religioso carismático, mas sua grande vontade era curar o Complexo de Édipo de seus seguidores por meio de procedimentos farmacológicos.
Na impossibilidade de recorrer à medicina tradicional, encontrou na homeopatia um alívio para seu transtorno obsessivo: prescreveu um chá para todos os ouvintes e recitou durante várias horas trechos do evangelho, acreditando que depois desse ritual o Complexo de Édipo estaria sanado por completo. Na medida em que seus discípulos se acordavam, aplicava técnica de hipnose com a segurança absoluta que não ouviria os relatos obscenos que imortalizaram a teoria de Freud. Mas o que ele ouviu o deixou ainda mais transtornado. Seus devotos diziam sentir atração sexual por Deus, pelo Senhor, pelo Pai Celestial. Dr. Maciel diante daquelas incredulidades, desmaiou. Seus irmãos de fé o levaram para o hospital e por lá ele permaneceu em coma durante vários dias. Ao se acordar, exclamou: “Deus me fez uma revelação! A partir de hoje Freud está superado!”. Todos ficaram ansiosos na expectativa da revelação do conteúdo do sonho, e o Dr. Maciel prosseguiu: “O segredo da virgindade de Maria é a cura para o Complexo de Édipo. Jesus nasceu através da geração espontânea, e do Espírito Santo não se pode haver ciúmes. Salve, Aleluia, Salve! Por fim estamos livres de Dr. Freud, graças a Deus! Eis um milagre, a salvação! Glória, glória ao Senhor, salve! A teologia nunca será superada pela psicanálise. Um simples sonho põe abaixo a tese da estrutura bissexual do Complexo de Édipo. Eis a solução de todo enigma: a trindade, a virgindade de Maria, o pai, o filho e o Espírito Santo não dão cabimento ao Dr. Freud, ao Complexo de Édipo. Não há remédio melhor para acabar com essas baboseiras de inconsciente. Eu sabia, eu sabia. Glória meu pai, não me abandonastes!”.
Em seguida, o Dr. Maciel entrou em transe seguido de coma profundo, e foi indispensável a intervenção alopática: “Contraria contrariis curantur” [“Os contrários curam”].

Um comentário:

  1. Muito bom! Lembra-me, caro Gutemberg, O ALIENISTA de Machado de Assis. Arrisca Machado a dizer: Se todos são "loucos" menos eu; eu mesmo devo admitir: sou eu mesmo "louco" em meu próprio pífio hospício. Abraço fraterno.

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