quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Memória, abismo e latência

Ensaio
Recebido em 31 de agosto de 2016
Por Gutemberg Miranda, que leciona Filosofia na UFAL.

Reflexões críticas acerca de 'Depois de 1945', de Hans Ulrich Gumbrecht

Capa de edição brasileira do livro de Gumbrecht

Os traumas do holocausto não afligem apenas os perseguidos pela política totalitária do nazismo, mas os alemães de um modo geral. Em particular as gerações mais próximas dos episódios dramáticos e sangrentos que envolveram a Segunda Guerra Mundial. O livro de Hans Ulrich Gumbrecht, Depois de 1945, reflete de forma profunda as sequelas do nazismo na memória dos alemães que tiveram que conviver com o estigma do nacional-socialismo alemão mesmo sem terem tido nenhuma responsabilidade sobre tais acontecimentos. A força do preconceito contra os alemães é retratada pelo autor como um trauma difícil de superar, mas que não pode subsistir para sempre como uma doença incurável.
A analogia entre claustrofobia e memória é desenvolvida de forma brilhante ao longo do livro. A relação entre o dentro e o fora, o passado e o futuro representa uma grande reflexão em torno do drama existencial causado por fatos macro-históricos e suas implicações em indivíduos singulares. Gumbrecht percorre a literatura do século XX e resgata das narrativas acerca do espaço social os elementos que retratam a falta de espaço para o existencial. A claustrofobia da espacialidade social retratada em inúmeros romances do século XX coincide com a interioridade aprisionada pela memória que impede qualquer tipo de exteriorização e de reconhecimento no mundo exterior. A superação dessas tensões não pode vir de fora, nem do esquecimento, mas constitui uma latência, algo que acontece de forma inesperada e inexplicavelmente.
No entanto, a forma como Gumbrecht retrata Camus não corresponde com o que o próprio autor argelino afirmou sobre a experiência da Segunda Guerra. Sabemos da aversão de Camus pela herança do totalitarismo. Ele chega a afirmar que o mundo mediterrâneo deve constituir uma alternativa cultural e existencial contraposta principalmente aos protagonistas da Segunda Guerra Mundial. Em Depois de 1945, Camus é discutido ao lado de Heidegger e Karl Schmidt, algo que não pode passar despercebido tendo em vista a radicalidade com que o autor de O homem revoltado criticou os intelectuais alinhados com o nazi-fascismo. Seria uma provocação intencional de Gumbrecht situar Camus no contexto em que reflete sobre autores nazistas? Essa pergunta só pode ser respondida pelo autor de Depois de 1945, mas é chocante a comparação que Hans Ulrich Gumbrecht faz entre Camus e Schmidt acerca do tema da utopia, como se uma tentativa de aproximação forçada entre tais autores fosse algo sem implicações políticas e literárias, algo normal, natural e sem nenhum constrangimento existencial.
Na literatura atual encontramos o exemplo de Patrick Modiano. Nele, a memória ocupa um lugar central, mas como uma espécie de pequena recordação sempre presente em seus romances. A mínima memória serve para preservar a mínima identidade. Modiano recorre à memória enquanto algo que surge do acaso ou da coincidência para que não percamos nossa identidade mínima. Isso não deixa de ser uma crítica às tentativas de desconstrução da história. Já para Gumbrecht, o acaso e a coincidência servem para se libertar e superar a memória. Enquanto os personagens de Modiano não se preocupam com memória, como se ela não fizesse parte do cotidiano e aparecesse de repente, Gumbrecht parte da memória enquanto força totalitária e asfixiante para em seguida tentar superá-la. A diferença entre a mínima memória libertadora de Modiano e a memória opressiva e totalitária de Gumbrecht são formas de se encarar a história de modo diferente, e nessa diferença existem aspectos políticos que precisam ser compreendidos enquanto formas de nortear a nossa relação com o papel da memória na atualidade. Enquanto Gumbrecht critica o impacto das grandes narrativas sobre a memória individual, Modiano parte da memória individual enquanto pano de fundo para que não esqueçamos a existência dos sujeitos e sua relação com as narrativas de um modo geral.

Premiado livro de Modiano

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