quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A farsa das eleições e os descaminhos da esquerda

Ensaio
Recebido em 14 de setembro de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Charge de Latuff sobre eleições

Muito ainda se tem o que falar sobre as eleições periódicas, promovidas pelo sistema capitalista para justificar a dominação e o manejo de amplos setores da população. E, neste sentido, as esquerdas em geral insistem, repetida e exaustivamente, em participar delas, buscando com isto obter algumas representações políticas nas esferas dos Parlamentos e dos Executivos, municipal, estadual e federal. Porém, a troco de quê?
Ora bolas, uma das mazelas bem trabalhadas pela burguesia e seus aliados é o processo eleitoral para que pessoas, eleitores, votem periodicamente em alguns candidatos para “melhorar” e também “aprimorar” o tal “Estado Democrático de Direito. A conversa fiada é a de que a “culpa” é do governo de plantão, ou dos partidos que estejam governando, pois não estão sabendo como “bem administrar” o que é “público”. Então, nestes casos, é necessário substituí-los por outros que sejam mais “experientes” e confiáveis, principalmente através do voto popular, visando reformular o gerenciamento para viabilizar todos os projetos de quem de fato detém o pleno controle sobre a sociedade.
De outro lado, as tais esquerdas, em sua maioria, governistas e reformistas, não dizem a verdade para as massas exploradas, encobrindo o caráter classista que está embutido no poder real das classes dominantes. Apostam na ideia de que se deve aproveitar os tempos de eleições para apresentar proposições “exequíveis” e mais avançadas, de interesse das classes populares, embora neguem que estão, isto sim, aproveitando a tribuna para formular propostas de como “gerenciar os negócios” da burguesia. E uma das justificavas para isto, entre outras mais, é a de usar o nome de Lênin para justificar a participação nas eleições, dizendo que ele sempre defendeu o uso do parlamento como uma das trincheiras de lutas.
Com efeito, um dos principais dirigentes da Revolução Russa de 1917 defendeu a atuação na Duma czarista como uma das instâncias da luta revolucionária na Rússia, no período de Fevereiro a Outubro daquele ano, em contraposição ao governo provisório de Kerenski. Entendia ele que era imprescindível não se deixar de lado as intervenções parlamentares quando ali havia condições para se expressar as opiniões dos socialdemocratas revolucionários, no sentido de influenciar outros setores e marcar uma firme posição. E assim foi o que se deu nos marcos de ocupação dos espaços políticos naquele órgão institucional do regime czarista, local onde se travavam importantes lutas políticas-ideológicas. Isto é, nada a ver com o que se faz nos dias de hoje, no decorrer dos processos eleitorais, os quais se dão no âmbito do já desgastado e combalido sistema socioeconômico.
Em termos gerais, os regimes tidos como “socialistas” construíram Estados totalitários e impediram que se exercesse o pluralismo político-ideológico para se realizar a edificação de uma sociedade verdadeiramente democrática. Optaram pela autoridade de um partido único, usurpando o poder das massas e criando um sistema policialesco em todas as áreas, cerceando igualmente a liberdade de expressão e, executando, ou exilando dissidentes para locais distantes e inóspitos, ao mesmo tempo em que foi se consolidando um aparato burocrático que veio proporcionar a ascensão de uma casta de apaniguados dirigentes, processo este que veio a ser conhecido pelo nome de stalinismo. Tudo isto em nome de um “socialismo” imaginário que não integra a revolução política com a social numa única construção democrática. E o uso recorrente do conceito universal de “democracia” como uma herança da civilização ocidental, não encontra respaldo que o justifique a não ser que se aplique profunda e amplamente o raciocínio, favorecendo o que seria, na prática, uma possível democracia socialista em benefício de todos.
No entanto, que reflexões fazem essas ditas esquerdas nos dias de hoje, tentando reproduzirem os mesmos equívocos e distorções do passado? De modo geral, querem se fazer representar no âmbito da sociedade capitalista, com o objetivo aparente de “defender” as causas populares e implementar uma mudança do estado de coisas, como se possível fosse. Uma ilusão de que se poderá alterar muita coisa através do voto, sem se organizar as massas pela base, no exercício diário de lutas pontuais e permanentes contra o que está em vigência. Um vergonhoso e desprezível engodo, tendo em vista que isto só possibilita credibilidade ao Capitalismo, evitando-se assim a necessária impopularização dele como um sistema já exaurido e agonizante, que não tem mais nada a oferecer, além das desagregações sociais que estão nos levando ao caos e à barbárie mundo afora.
Não por acaso, e em detrimento da luta revolucionária do dia a dia, impulsiona-se toda uma juventude a participar das arrumações eleitoreiras e até mesmo a serem, também, candidatos a cargos no Executivo e no Parlamento. Nada mais têm a propor, a não ser a enfastiosa reiteração das mesmas expressões dogmáticas, enaltecendo as revoluções do passado sem fazerem sequer alguma análise crítica para delas extraírem experiências que se fazem imprescindíveis no presente. Inclusive, fomentando o “culto à personalidade” no qual se promove, tão somente, um “oba-oba” à figura do militante e dirigente político conhecido, considerando-o como “um herói” para ser reverenciado acima dos movimentos de massas, como se isto fosse a única coisa a se fazer em todas as ocasiões.
Em face desses inúmeros descaminhos, que se deram diante da derrota de uma desejada Revolução Socialista em escala mundial, no início do século passado, quando das Guerras Balcânicas, nos idos de 1912/1913, os partidos social-democratas e socialistas abandonaram a luta anticapitalista a que se propunham e se submeteram aos interesses das burguesias nacionais, passando a serem partidos social-patriotas, nacionalistas, em defesa de um determinado país. Logo em seguida, iniciou-se uma grande guerra mundial que durou de 1914 a 1918, repetindo os mesmos equívocos de antes nos quais se apoiava os créditos de guerra e se ignorava por completo que, nas trincheiras, estariam muitos trabalhadores iludidos por suas direções partidárias e sindicais. E foi, justamente, neste quadro, de total abandono do internacionalismo revolucionário, que veio a triunfar a revolução na Rússia czarista, que era uma nação totalmente atrasada, com uma maioria camponesa analfabeta e influenciada por preceitos religiosos, que beiravam o fanatismo. A guerra entre países imperialistas cobrou um preço altíssimo em vidas ceifadas e a derrota acachapante das prováveis revoluções socialistas que, por ventura, pudessem ser vitoriosas, tanto na Alemanha como em alguns outros países do Continente europeu em que se deram significativas e emblemáticas rebeliões.
Enfim, o que se pode tirar de profícuo e construtivo dos procedimentos revolucionários de outrora, incluindo-se também as revoluções na China e em Cuba, as guerras de libertação dos povos colonizados da África, do Vietnã e das Coreias, a partir das quais passa a prevalecer concepções híbridas de um “capitalismo” de Estado, conduzidas por partidos únicos e por uma casta de burocratas privilegiados? Com certeza, lições outras que nada têm a ver com as constantes repetições das esquerdas reformistas e governistas, que esperam incrementar “modificações” para amenizar o caráter intensamente destrutivo do sistema capitalista.
Não é nenhuma novidade, contudo, que as eleições sejam uma farsa eleitoral que servem, exclusivamente, para sustentar os mecanismos institucionais deste sistema socioeconômico vigente ainda hoje, perpetuando a exploração e a alienação das massas. Sendo, por conseguinte, mais do que essencial recuperar os postulados socialistas revolucionários, diante da catástrofe que se anuncia para toda a humanidade, cumprindo-se assim com o histórico papel de se lutar, sem tréguas, pela necessária transformação radical da atual sociedade capitalista.

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