sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O fim do blábláblá!

Conto
Recebido em 05 de agosto de 2016
Por Gutemberg Miranda, filósofo e docente na UFAL.

Vista aérea de Recife/PE

O kákáká tomou o lugar do blábláblá. Que pena! O blábláblá era uma forma de xingamento mordaz, enquanto o kákáká é uma forma de blábláblá... Subo as escadas do prédio correndo. Não posso perder esse verso, e se ele ficar na memória? Não na minha, nenhum poeta faz questão de guardar seus próprios versos, exceto se ele ficar na memória dos outros. Recife é uma cidade sem espaço, um lugar sem tamanho. Como alguém pode viver neste lugar? Recife é um texto sem correção. Sua temporalidade é a de um computador sem corretor ortográfico. Tudo aqui é imperfeito, como um texto de um analfabeto de pai e mãe. Paulo Freire deixou de escrever para ensinar os outros a escrever. Ele devia odiar o analfabetismo. Ao contrário dele, as pessoas odeiam os analfabetos. Que falta faz Paulo Freire na Era das redes sociais. Se parássemos para ensinar os usuários das redes sociais a escrever de forma crítica, sumiria o kákáká e voltaria a época do blábláblá. Se temos um narrador, já temos um personagem. O difícil é ter um personagem sem narrador.
O sexo virtual é uma forma de transgressão. É melhor assistir a um filme pornô do que ler um romance, exceto se o romance conseguir ser mais pornográfico que um filme pornô, o que é bastante difícil, mas não impossível. Eis um desafio para a literatura de hoje, excitar, provocar desejo, ser mais sensual que o corpo, que o virtual. Hoje é possível a cada minuto ver um novo filme pornô, e o sexo virtual põe fim de certa forma ao filme pornô. É bem mais interessante, uma espécie de folhetim do sexo ao vivo, que chamam de sexo amador, porém é algo mais interessante que o profissional. No campo do sexo, todo improviso causa mais deleite do que o planejado. Camus se sentia melhor entre os atores que entre os intelectuais. Diderot penou bastante ao optar pela vida filosófica. Deixou o cabaré e foi parar na prisão por um simples texto, carta dos cegos para os que não querem ver. Deveríamos escrever algo similar: carta aos intelectuais que não querem pensar.
Vejo o Recife e penso que aquela personagem de Enquanto Agonizo teria dificuldade em construir um caixão se morasse numa palafita. Faulkner teria dificuldade de descrever o atoleiro em que se mete o cortejo fúnebre de uma família humilde em uma cidade em que as pessoas vivem a vida toda na lama, algo muito comum em Recife. Não só nos enterros, mas até para parir os moradores das palafitas se veem no esgoto, e basta ler João Cabral de Melo Neto para confirmar. Cidade de merda. Em Recife até os bairros da elite são imundos. Quanto mais elitizados, mais sujos. A higienização social de Recife esconde a imundície de suas elites. Basta ler Gilberto Freyre, autor obcecado pelas elites, pela imundície. Certamente a Senzala ainda ostentada como uma peça decorativa na entrada da residência dos Freyre é bem mais limpa que o interior da Casa Grande. O movimento negro deveria tombar aquilo ali, desapropriar todos os imóveis em que ainda subsistem resquícios da escravidão e pedir indenização às famílias escravocratas que enriqueceram à custa dos escravos. Não satisfeito em herdar um patrimônio da época da escravidão, ainda lucra exibindo a Senzala como um espaço exótico. Só no Brasil um campo de concentração serve para divertir turistas, enriquecer famílias abastadas e ainda por cima tratar tal lugar como algo grotesco, risível e lúdico.
Devia ser chato conviver com Sartre, Simone de Beauvoir. Camus preferia os artistas, eram mais autênticos. Sartre chegou a maltratar Camus para defender Stalin. Depois se arrependeu. Se achava tão culto, mas assumiu que não passava de um imbecil que errou na “descrição” do velho amigo. Perder um amigo como Camus para defender o Partido Comunista é uma coisa vexatória. Que bom que ele se arrependeu! Há um sociólogo francês ferrenho defensor da libertinagem das novas gerações, mas nem precisa falar sobre isso. Foucault já tinha ensinado que o erótico não precisa de justificativa racional, científica. Enquanto o sociólogo ensina que os jovens estão corretos, formas mais prazerosas de sexo acabam sendo inventadas, e o sociólogo acaba se tornando obsoleto, defasado diante da capacidade infinita do hedonismo em fantasiar a sexualidade, não como discurso, mas como algo amador.
Eu sou um poeta marginal, igual a todos os poetas. Existe poesia que não seja marginal? A poesia marginal, a começar pelo cordel, pela rapsódia, pela própria existência, sempre encontrou em Recife um lugar privilegiado. Castro Alves morou em Recife, foi de certa forma um poeta marginal. Sem o Recife não haveria o Navio Negreiro. Mas não seria um sinal da evolução humana deixar de lado o sexo sádico e curtir uma transa amadora, virtual? Freud não faz mais sentido, para que o psicanalista depois das redes sociais? No lugar do divã, uma boa conversa virtual, marcar um encontro sem precisar gastar com profissionais do sexo, nem com psicanalistas.
A descoberta dos males dos cigarros coincide com o excesso de prazer que o sexo casual nos oferece. Penso estas coisas e não me excito. Paro de escrever. Procuro um livro para ler. Inicio a leitura, mas sou interrompido pelo celular. O número não é conhecido. Era apenas uma cobrança. Volto a pensar em Recife. Que cidade esquisita a que eu moro! Pior que ainda moro aqui. Com tanto lugar interessante, porque moro em Recife? Saio, encontro desconhecidos na fila do cinema, mas já havíamos assistidos Julie e Jim e Os Sonhadores. As filas das salas de cinemas são as experiências mais incríveis da vida. Ninguém fica numa fila dessa se não tem sonhos, se não deseja amar. Quando falamos dos filmes que assistimos, nunca falamos dos olhares que trocamos nas filas dos cinemas. Deveríamos ter sempre a lembrança, junto às dos filmes que vimos ao longo da vida, dos olhares que penetramos nas filas antes de assistirmos aos filmes, ou depois de sair da sessão. As ruas cheias de mesas de bar, com muita gente sentada nas mesas ou conversando em pé. Sempre encontramos alguém. Paramos, e a vida começa a existir. Por mais que teclamos, essa experiência, a de encontrar conhecidos em bares depois de sair do cinema, ou da livraria, é única.
Encontrei dois amigos, um cineasta do circuito alternativo recifense, e o outro, um músico que toca na noite. Depois chegou um psicólogo lacaniano que trabalha com musicoterapia num manicômio no bairro da Tamarineira, o famoso hospital Ulysses Pernambucano. Pedimos um vinho. Como bons recifenses excêntricos, curtimos coisas exóticas e nostálgicas: maconha, vinho, incenso, bares rústicos com cheiro de madeira apodrecida.
Vocês viram aquela edição do livro vermelho do Jung?
Sim, muito boa.
Aquela edição enorme é para quem aprecia as mandalas.
Sim, as mandalas.
Ele não quis publicar em vida, tinha vergonha.
Que bobagem, mostrar mandalas...
Se ele vivesse nos dias de hoje não teria vergonha de mostrar o cú.
Sim, as mandalas se parecem com um ânus mesmo, bem observado.
Que bobagem do Jung. O Freud também era bem reprimido. Não quis contar um sonho para o Jung para não perder a autoridade.
Quem ele pensava que era, o pai do Jung para ter autoridade sobre ele?
O Freud estaria agora batendo papo na internet, não precisaria criar uma ciência para saber da vida dos outros.
É verdade, nossa geração embora não tenha produzido nenhuma grande obra, ao menos gozou bastante, literalmente.
Sim, gozamos bastante, e vimos muito esperma na web cam.
Ao menos encontramos uma utilidade para o esperma. Ele se tornou um objeto estético.
O gozo é uma obra de arte, e o esperma também.
Saímos bêbados, brindando:
Viva a promiscuidade!
Viva Joyce!
Vamos para o motel da esquina.
Não, lá não tem internet.
Internet? Blábláblá.
Sim, Internet!
Kákáká.

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