quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O caos já precede a barbárie

Ensaio
Recebido em 12 de agosto de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Indesejável Amanhã

Com o passar do tempo, aos poucos, vai-se percebendo um generalizado andamento de desagregação social em todas as partes do mundo, sem que haja as mínimas possibilidades de freá-lo num tempo hábil. Populações inteiras são assestadas e vitimadas, em situações agravadas, devido aos impasses causados por um sistema socioeconômico já totalmente exaurido.
E não é só a crise humanitária que atinge o continente africano e coloca em xeque toda a Europa diante de ondas migratórias, tendo em vista que as suas principais nações exploraram – intensamente – os povos de lá, no decorrer dos processos de colonização nos séculos 19 e 20, principalmente. Nem também a pressão constante do Oriente médio que sofreu e ainda sofre uma brutal extorsão de suas riquezas petrolíferas, com a complacência despudorada dos despóticos regimes monárquicos da região, estimulando em contrapartida reações diversas contra os Imperialismos que até tentam perpetuar este domínio a todo custo. Entretanto, para muito além desses fatos a situação é crucial e extremamente desesperadora.
Ora, se de um lado o ódio que alimenta o terrorismo fundamentalista de Jihads, da Al-Queda e do ISIS, por exemplo, deteriora a “normalidade” planetária e gera medo pânico entre as populações de vários países de todos os continentes, de outro, as esquerdas não nada têm de criativo a propor. O momento é diverso, recheado de contradições e equívocos por parte das correntes políticas que deveriam se opor ao regime capitalista com firmeza, buscando a reorganização da classe trabalhadora e de suas lutas permanentes de forma autônoma e independente. Mas, como se sair destes contratempos sem realizar-se uma profunda análise crítica das ocorrências revolucionárias que se deram no século passado, em especial as da Revolução Russa de 1917 e seus desdobramentos?
Dia a dia o Capitalismo vai perdendo a sua razão de existir e não é mais capaz de administrar a sociedade em termos do tão falado “Estado Democrático de Direito” sem o recurso da força para enfrentar questionamentos pontuais, comprometendo a institucionalidade que “legitima” e possibilita o pleno exercício de poder das classes dominantes. Uma falácia aceita e repetida que se transformou “numa verdade” para enganar a todos e, especialmente, aos que são explorados. Por conseguinte, num sentido contrário, amplia-se o número de marginalizados, favorecendo as ações de traficantes de drogas, de fundamentalistas religiosos e de criminosos contumazes, entre outras tantas facetas de uma sociedade doente e agonizante. Conjuntura esta que vai também exacerbando preconceitos disseminados e discriminações culturais, e inclusive propiciando o ressurgimento de agrupamentos fascistas e de extrema-direita, que reivindicam uma volta ao autoritarismo e governos de exceção. E o pior de tudo isto é que não há como se estancar estas fragmentações sem propostas exequíveis para a edificação de uma nova sociedade, fundamentada em outras bases e que possa viabilizar novos caminhos para todos os seres humanos.
Crianças e jovens adolescentes em geral não têm mais nenhuma perspectiva de um futuro promissor, somente situações desfavoráveis às suas existências, incluindo a desnutrição, o uso de drogas e gravidez precoce, em situações de rua, abandonados a própria sorte. Apesar de todos os avanços tecnológicos a fome se espalha por várias regiões, onde faltam escolas em boas condições de funcionamento e recursos para implantar programas sanitários básicos, bem como hospitais e postos de saúde, que funcionem e atendam a demanda daqueles que necessitam destes serviços. E assim, nestas adversas circunstâncias, a criminalidade vai se ampliando. A maioria das populações vive em situações precárias de moradia e não tem sequer dinheiro suficiente para consumir o necessário, faltando-lhes recursos para superar a pobreza crônica, mesmo quando saem da miséria extrema. Uma calamidade que não é superada em face dos interesses egoístas e gananciosos dos capitalistas, que somente estão, apenas, preocupados em lucrar cada vez mais, concentrando riquezas patrimoniais e reproduzindo bolsões de miséria e pobreza.
As crises cíclicas tão recorrentes não têm “soluções” que venham beneficiar as camadas mais vulneráveis das populações, mas sim para favorecer os grupos financeiros e realimentar a taxa de lucros quando em declínio. Explorar as riquezas naturais a favor das corporações empresariais é uma necessidade de um sistema capitalista falido, que continua tão predatório quanto antes ao mesmo tempo em que esconde e mascara as suas inúmeras mazelas. Uma delas é a de realizar eleições periódicas para enganar a todos, com a ilusão de que estão decidindo algo pra valer e que podem melhorar as coisas através do voto. É também a defesa abstrata de uma democracia que só favorece aos patrões e seus serviçais, tão somente, conceito este considerado universal que se sustenta numa “igualdade” aparente e na fábula de que se pode “modificar” o Estado atual. Não obstante, mesmo se tratando de um “legado” que possibilita algumas reivindicações por direitos e cidadania, pouco ou quase nada pode se fazer para ampliar os espaços dentro da ordem burguesa. Isto é, enquanto as massas continuarem iludidas e pensando que a culpa é deste ou daquele governo, ou partido político, tudo seguirá como antanho, sem mudanças estruturais significativas que possam melhorar as relações socioeconômicas, tendo sempre em pauta possíveis retrocessos quanto ao que foi conquistado antes com muita luta.
Sabe-se que falta uma compreensão por parte das esquerdas de que governo não é poder, pois o genuíno mando está em outras mãos que não as da classe trabalhadora nem das gentes comuns. Por isso, é primordial se ter a clareza de que não é possível reformar o sistema vigente para torná-lo menos destrutivo, principalmente pela via parlamentar, através de eleições e de alianças com setores os conservadores, em troca de uma suposta governabilidade. Não! Esta fantasia tem que ser desconstruída logo para que se possa usar, isto sim, outros meios de se impopularizar o sistema socioeconômico, visando criar uma consciência crítica revolucionária de conteúdo transformador, desde já. Contudo, para se viabilizar alternativas, tais como os conselhos populares por fora de governos, e em vários locais, não basta somente defendê-los em textos, teoricamente, mas sim participar ativa e coletivamente desta substancial empreitada em cada comunidade, discutindo e debatendo os problemas específicos de cada área, seja do campo ou das cidades. E a partir disto, procurar informar, esclarecer e conscientizar, de modo didático, quais são os reais problemas que afetam a sociedade em que se vive e revelar, sem meias-verdades, o “nome do bicho” que é o responsável por tudo isso: o Ca-pi-ta-lis-mo.
Não obstante, talvez nem seja possível superar esse caos e se evitar a barbárie que se anuncia, pois o tempo urge e as opções que deveriam ser dadas pelas esquerdas em geral não aparecem. É muito fácil, e até mesmo inconsequente, se propor uma “ditadura do proletariado” nos tempos atuais, sem entender que isso não tem mais o respaldo de outrora, desde que as condições objetivas e subjetivas são bem distintas das de ontem. Não dá mais para apostar no controle político de um partido único nem de um regime fechado, sem o amplo exercício do livre debate e da liberdade expressão, tendo por base o pluralismo político-ideológico. É preciso sim se construir consensos entre opiniões que são diferentes e igualmente se aprender a conviver sem intolerâncias com visões singulares, que não são excludentes. Enfim, necessário se faz buscar a possibilidade de uma sociedade autogovernada, fruto da libertação dos próprios trabalhadores pelos seus próprios meios, sem controle e tutela por parte de alguns grupos políticos que venham usurpar o autêntico poder das massas, condicionando-as a não serem as protagonistas de fato, e de direito, dentro da nova ordem revolucionária que for, consequentemente, estabelecida.
Mas, será que se terá tempo histórico para isso? Talvez não. Embora relembremos ainda hoje as proféticas palavras de Engels e Rosa, alertando para as contingências do estabelecimento da barbárie se o Socialismo não viesse a triunfar. Eis a questão que está posta desde antes, mas ainda sem as devidas e imprescindíveis respostas que se fazem necessárias no presente.

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