quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Chuva de containers de Coca-Colas (2)

Ensaio
Recebido em 02 de agosto de 2016
Por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Capa do último disco [1992] de estúdio dos Engenheiros
com a sua formação considerada clássica:
Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz.

Chuva de containers é a quinta faixa do disco Gessinger, Licks & Maltz (GLM, 1992) da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii. A canção retoma alguns pontos discutidos anteriormente no diálogo entre Geração Coca-Cola [Legião Urbana, 1985] e a canção Alegria, Alegria [Caetano Veloso, 1967].
Desta vez, traçaremos brevemente um paralelo entre Chuva de containers e Panis et Circense [Caetano Veloso, 1967] por acreditar que há pontos de ruptura entre as duas canções e entre as duas interfaces geracionais: Tropicália e Rock Nacional dos anos 1980-90. Essas rupturas são sobretudo no tocante à discussão entre a modernidade na periferia do capitalismo, o Brasil, e como esta modernidade dialoga com os ícones da indústria cultural oriundos do centro do capitalismo, Europa e EUA.
Chuva de containers já começa aludindo a uma prática sócio-política muito presente e originária [entranhada no imaginário] do mundo latino: “pão e circo” [Panis et circense]. Só que ao invés do pragmatismo político do pão [comida] e circo [espetáculo] às massas, a canção traz um viés mais metalinguístico e policlassista, lembrando um pouco do conteúdo de Geração Coca-Cola. Só que ao invés da estética punk, a canção dos gaúchos é mais polissêmica e progressiva.

Falta pão | (o pão nosso de cada dia) | Sobra pão | (o pão que o diabo amassou) | Falta circo (no mundo que nos cerca) | Sobra circo (é só pular a cerca) | Sobra circo... falta pão | Falta circo... sobra pão”.

Ao que tudo indica, no decênio de 1990, nossa recepção e transmissão sonora de maior espectro, o Rock Nacional, são impregnadas da linguagem publicitária e da tevê. E o modelo importado é proveniente da indústria cultural estadunidense, sobretudo.
Tudo isso nos é apresentado, na canção, por meio de um grande paroxismo policlassista de pão e circo, que vão do biscoito fino [1] consumido por nossas elites ao sonho terceiro-mundista e latino-americano de ir lavar pratos em Miami como um American Latin Way of Life. Isto é, há mais de três décadas que Miami é o Latin American Dream tanto de uma elite que gritava e grita “ame-o ou deixe-o” quanto dos sonhadores do green card a qualquer custo e sacrifício.
A conjuntura da canção é atual. Parece que o Brasil e a América Latina sofrem de um particular oxímoro no tocante às condições estruturantes de suas respectivas sociedades, movimento imóvel:

Triste vocação | A nossa elite burra se empanturra de biscoito fino | Triste sina, América Latina | Não escaparemos do vexame, não | Nós não caberemos todos em Miami-ami | Ame-o ou deixe-o | Ame-o ou deixe-o”.

Desta vez a crítica ao colonialismo das mentes, via o mercado de bens simbólicos agora eminentemente ianque, despejado indistintamente no mercado brasileiro, é notoriamente anti-antropofágica na fatura da letra. Não há mais o brado proto-punk do: vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês. Ao invés disso, há uma recepção cultural sem ruminação:

Somos todos passageiros clandestinos dos destinos da nação | Triste destino, engolir sem mastigar | Chuva de containers | Entertainers no ar... Noir”.

A canção dos Engenheiros denuncia a prática da absolvição indiscriminada dos elementos culturais provenientes do centro do capitalismo. Não há mais a regurgitação oswaldiana/tropicalista. O consumo [não mais usufruto ou fruição cultural] agora é sem peias, sem paladar e sem mastigar. O bolo alimentar [lixo/entertainers] cai na proporção que a gravidade atrai, para o país das margens plácidas, os containers de Coca-Colas.
Tão anos 1990 quanto o rombo da Camada de Ozônio e as chuvas ácidas, assim era a pilha de lixo/entertainers acumuladas no colosso verde-amarelo, abruptamente permissível ao mercado externo do período da reabertura política e, no limite da hiperinflação, nos anos Collor:

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas | Os trovões da chuva ácida | A acidez oceânica de uma laranja mecânica”.

O lixo/entretenimento do USA de 9 às 6 chega agora pelo ar – chuva de containers – e também pelo “ar” dos raios catódicos da publicidade e da tevê numa estética opaca, noir, antissolar e anti-tropicalista. Diferente do Brasil da segunda metade dos anos 1960, onde a canção Panis et circense veio à superfície, o Brasil de Chuva de containers traz uma sociedade também bestificada diante da tevê e da publicidade, como em Panis et circense:

Mandei plantar | Folhas de sonho no jardim do solar | As folhas sabem procurar pelo sol | E as raízes procurar, procurar | Mas as pessoas na sala de jantar | São ocupadas em nascer e morrer”.

O que difere é que Chuva de containers traz uma sociedade [brasileira] encalacrada num jogo que transcende o “pão e circo”. Esse jogo está presente na canção de Caetano. E no lugar deste encurralamento, a música dos gaúchos traz uma aporia: o que fazer quando falta o pão e o circo?
Na canção de Caetano há ainda as folhas a procurar pelo sol e as raízes. Ou seja, na canção dos Engenheiros não há mais a esperança ambivalente entre o alto [Centro-sol-novo-moderno] e as profundezas [Periferia-raízes-arcaico-tradição], como na canção de Caetano. Neste sentido, o Rock Nacional de 1980 e meados de 1990 perdeu do seu horizonte aquele diálogo tão presente nas vanguardas anteriores: o Brasil arcaico com o moderno.
Por fim, o Rock Nacional do período 1980-90, representado nas duas músicas trazidas até aqui, anunciava, a partir da ruptura do diálogo entre o arcaico e o moderno em nossas vanguardas e em nossa música, o “fim” da canção. Ou seja, quando o elemento “arcaico”, plasmado pela tradição [local] sai de cena, restando apenas o elemento modernizador [de fora], abra-se espaço, na terra-arrasada pela publicidade, aos influxos da negatividade afirmativa, como são os casos de Geração Coca-Cola e Chuva de containers.

Augusto Licks, Humberto Gessinger e Carlos Maltz

Notas
[1] A referência à frase de Oswald de Andrade é quase inevitável: “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”.

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