segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Chuva de containers de Coca-Colas (1)

Ensaio
Recebido em 02 de agosto de 2016
Por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Capa do 1º disco da Legião.
Na imagem, podemos detectar a ambivalência do modernismo brasileiro.
Acima, imagem do Congresso Nacional.
Abaixo, imagem de um índio.

Geração Coca-Cola é a sexta faixa do primeiro disco da Legião Urbana (Legião Urbana, 1985). A música é uma das canções oriundas do espólio da lendária banda de punk-rock brasiliense, Aborto Elétrico. E a música carrega a pegada e a estética do punk: simplicidade [três acordes], versos claros e direitos, linguagem chula [cuspir], referências ao cotidiano [tevê, escola, Coca-Cola], ausência de metáforas ou metonímias etc.

Quando nascemos fomos programados | A receber o que vocês | Nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6 | Desde pequenos nós comemos lixo | Comercial e industrial”

De início, Geração Coca-Cola traz em seu seio uma ambivalência típica da produção simbólica de países da periferia do capitalismo, como o Brasil: critica-se o imperialismo cultural dos EUA, no conteúdo da letra; ao passo que o vetor formal da crítica é uma linguagem sonora símbolo do colonialismo norte-americano: rock.

Mas agora chegou nossa vez | Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

Talvez o dado distintivo do rock produzido no Brasil durante a década de 1980 e meados de 1990 seja: pela primeira vez ele assume que é nacional e que faz um arremedo, abrasileirado, do que é produzido nos EUA e Reino Unido. O rock torna-se Made in Brazil. Não obstante, os letristas de destaque desta época conseguiram formatar uma maneira de compor rock em português. Nomes como Antônio Cícero, Humberto Gessinger, Marina e Cazuza firmaram suas carreiras compondo e cantando rock na língua de Fernando Pessoa.
Geração Coca-Cola talvez seja o estertor de uma das facetas do projeto iniciado com a Tropicália: o lixo da indústria cultural dos países centrais sendo ressignificado na periferia do capitalismo.
Isto é, na música em destaque, a modernidade periférica vem à tona através de imagens publicitariamente violentas, que são plasmadas na canção e cuspidas diretamente para o ouvinte. Geração Coca-Cola não traz as imagens cinematográficas de um certo encantamento cotidiano com os símbolos da modernidade capitalista, como, por exemplo, na balada tropicalista Alegria, Alegria:

Eu tomo uma Coca-Cola | Ela pensa em casamento | E uma canção me consola | Eu vou”

Ao que parece, a aliança tríplice entre a Tropicália, o Cinema Novo e o Marginal sai de cena durante a década de 1980, e em seu lugar surge o Rock Nacional recalcado no decalque norte-americano, e sem antropofagia, somado a uma linguagem publicitária eminentemente direta. Em uma palavra: a tevê suplanta o cinema e dá régua e compasso ao rock realizado durante a [mal]dita década perdida. A década dos filhos da “Revolução 1964” que estava pedindo passagem:

Somos os filhos da revolução | Somos burgueses sem religião | Somos o futuro da nação”

Neste sentido, podemos afirmar que a geração musical do decênio de 1980-90 carrega consigo um paradoxo: erigiram-se sobre uma negatividade afirmativa. Isto é, negam-se os influxos da cultura americana despejados na economia brasileira no período da reabertura democrática, na fatura das letras; ao passo que afirma-se musicalmente nas influências anglo-saxãs – até pouco tempo símbolo do imperialismo cultural [1] – através da sonoridade rock. Este paradoxo pode ser resumido também no descompasso de uma economia cambiante entre o arcaico e o moderno, o Brasil, em sintonia com a modernidade dos países centrais, representada no rock. É um dado típico da modernidade periférica: ser contemporâneo do não-contemporâneo.
Assim, neste diapasão, as vanguardas artísticas nacionais durante o século XX, da Semana de 1922 à Tropicália, viveram da dialética entre o local e o universal, alimentando-se dos elementos nacionais – desde 1922 desrecalcados – em forte diálogo-influência-reinvenção com as produções simbólicas sobretudo da Europa e EUA. E no centro desta lógica, sobreveio a estética antropofágica, especialmente nas duas vanguardas supracitadas.
Portanto, seja na Semana de 1922 ou na Tropicália, as bases simbólicas foram fincadas no conflito e convivência entre um Brasil arcaico – patriarcal, rural, não capitalista, pré-republicano – com os elementos modernizantes – urbano, industrial, capitalista, burguês.
Porém, a partir da década de 1980, com a geração do Rock Nacional, um dado novo se instala nesta relação entre os Brasis arcaico e moderno: não há mais espaço para o Brasil profundo, ou arcaico. O urbano suplanta o rural e transforma-o em epifenômeno.

Nota
[1] Lembrar o fatídico episódio da Passeata contra a guitarra elétrica, no Rio, em 1967.

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