quarta-feira, 13 de julho de 2016

“Minha pátria é a língua portuguesa”

Ensaio
Recebido em 12 de julho de 2016
Por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram”

CR7 contundido no Stade de France
na final da Euro-2016 contra os anfitriões franceses

Aos 8 minutos do primeiro tempo da final da Eurocopa entre França e Portugal, Cristiano Ronaldo [CR7] cai no gramado após forte entrada de Payet no joelho esquerdo do atacante lusitano. Pronto, o suspense quedou-se no ar do Stade de France. Será que o grande nome da partida, CR7, iria desfalcar a partir de então sua equipe? Dezesseis minutos depois, o suspense confirmou-se: CR7 estava fora de combate. O atacante deixa o gramado com os olhos rompendo em lágrimas. O enredo não era novo; é há muito conhecido da cultura lusófona. Não seria a primeira vez que o comandante-em-chefe/capitão some do campo de batalha.
Quem não lembra d’A Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, quando o rei Dom Sebastião desaparece fisicamente da Batalha, para ressurgir espiritualmente no imaginário coletivo lusófono como o restaurador do Quinto Império português, como vaticinava o padre jesuíta António Vieira, “o imperador da língua portuguesa”, como a ele se referia Fernando Pessoa. E era o mesmo estádio onde há 18 anos um outro Ronaldo caíra contundido numa final contra os mesmos anfitriões.

Ronaldo se machuca na final da Copa do Mundo (1998)
em jogo contra os anfitriões franceses no Stade de France

Contudo, um detalhe passou ao largo na imagem de CR7 desolado no meio do campo. Uma pequena borboleta pousa no rosto do atacante lusitano. E a borboleta é uma criatura que traz bom presságio em diversas culturas, inclusive na francesa, com o seu arquetípico papillon. Em meio à dor estampada no rosto, a borboleta era como se antecipasse à redenção final. Ao que parece, a borboleta surge para anunciar que o destino lusitano desta vez seria diferente. O fado abrirá espaço para os argonautas lusitanos conquistarem mares nunca d'antes navegados.
Calhou do primeiro título de expressão para a seleção portuguesa vir a ser conquistado em outras paragens. Especificamente, na toda poderosa França. Muitos disseram que a semifinal entre França e Alemanha era a final antecipada. Mas no mundo há poucos ϖ antropológicos; dentre esses, o futebol e Portugal com certeza os são.
O futebol, como o único esporte de alto rendimento ainda imprevisível, permite-se o fenômeno da “zebra” – quando a equipe teoricamente mais fraca vence a mais forte. E Portugal, por suas condições historicamente improváveis. Como pode um país 92 vezes menor do que outro, Portugal, conseguir colonizar e impor violentamente uma unidade linguística e ajudar a erguer a única civilização dos trópicos – o Brasil?
Houve uma campanha nacional impulsionada pela canção de Pedro Abrunhosa, “Somos Portugal”, onde o ethos lusitano da coesão foi levado às arraias de uma campanha publicitária que solidarizou os português e, de alguma maneira, foi refletida dentro de campo. O estribilho ficou a cargo da frase: “Não somos 11, somos 11 milhões. E a peça publicitária mostra um torcedor português conduzindo uma motocicleta e, no vácuo, um rastro de vários cachecóis com as cores da bandeira portuguesa entrelaçados, como se fosse uma “tereza” que levará o apoio dos 11 milhões para Paris e, por conseguinte, para dentro de campo.
Portugal tem mesmo esse espírito intrépido e quixotesco – pequeno, delgado, aventureiro e trágico. Em 2004, quando sediou a Eurocopa, Portugal perdeu tragicamente a final para os gregos. Desta vez, com o gol do contestado atacante nascido em Guiné-Bissau, Éder, no segundo tempo da prorrogação, os verdes e vermelhos sagraram-se campeões numa mistura de tons e sotaques oriundos de toda lusoceia.
Dos 23 jogadores da seleção portuguesa nove nasceram em outros países, como o zagueiro luso-brasileiro Pepe, visto com reservas por conta de sua verve truculenta, mas que ontem foi eleito o melhor jogador da final. A imagem de Pepe vomitando após o apito final é a de alguém que doou a própria bílis em prol do país que o adotou. A imagem de Pepe vomitando nos remete à Odisseia. Como Ulisses (do latim: “ulcerado”), os jogadores foram em Saint-Denis e repararam a honra do filho, Telêmaco/Brasil, aviltado há 18 anos.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!”

E calhou de CR7 ser o responsável por erguer a taça. Ele, um garoto oriundo da Ilha da Madeira, uma espécie de Ítaca lusófona. E hoje, falou à imprensa uma frase que sintetiza muito bem o espírito do convívio lusitano: “É um troféu para todos os portugueses, para todos os imigrantes, todas as pessoas que acreditaram em nós. Estou muito feliz e muito orgulhoso” – falou o atacante português.
Ao cabo, o futebol voltou a falar a língua que tanto a tratou bem, a língua do ão – portuguesa. Na noite parisiense, a torcida lusitana e o futebol estiveram em casa. E muito à vontade, ambos gritaram a plenos pulmões o grito de “Campeão!”. Por uma noite, o futebol voltou a habitar sua pátria: a língua portuguesa.

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