quarta-feira, 27 de julho de 2016

Cenários da crise brasileira

Ensaio
Recebido em 26 de julho de 2016
Por Marcelo Mário de Melo, poeta, jornalista e militante.

O poeta, jornalista e militante, Marcelo Mário de Melo

Impõe-se que sejamos otimistas, considerando que nenhuma situação é tão ruim que não possa piorar muito mais.
Cenário 1 – A esquerda brasileira atual é radicalmente incapaz de articular e consolidar grandes avanços democrático-populares e nada de novo e transformador tem a apresentar ao povo, o que só poderá ocorrer quando todos os seus representantes atuais morrerem competentemente. Há o agravante de que a longevidade aumentou e eles deverão durar muito tempo. Mas considerando o caráter progressista do determinismo biológico, que garante a morte natural, um dia, todos morrerão. Nesta hipótese, dentro de 30 anos, a partir de 2017, será apresentada a nova pauta da esquerda brasileira, colhendo-se em dez anos, 2% de resultados, a partir dos objetivos propostos.
Cenário 2 – A contaminação pelo vírus CE6M3R – Centro Esquerda Moderada com Medo dos Militares da Mídia dos Movimentos de Massa dos Ruralistas e Religiosos Retrógrados, de que é portadora a esquerda atual, contaminou as gerações futuras a tal ponto, que só são confiáveis os bisnetos dos que nascerão no ano 2025, ao ultrapassarem os 18 anos. A partir daí serão contados 10 anos e se colherão os resultados de 2% sobre a nova pauta.
Cenário 3 – No decorrer de muitas décadas e alguns séculos, o mundo já vivendo sob o socialismo ultrademocrático, com experiências iniciais de pós-socialismo, e só restando o Brasil sob os rigores do capitalismo neoliberal, a ONUSS – Organização das Nações Unidas Sob o Socialismo, conclui que, para ocaso brasileiro, a solução indicada é a intervenção externa. E ela é realizada. Sem a necessidade da utilização de tropas de ocupação como no Vietnã ou na Checoslováquia, ou bombardeios, como na Líbia e no Iraque. Mas recorrendo a recursos eletrônicos voltados para alvos individualizados.
Um poderoso superimã, num determinado dia, atrai todos aqueles que, de esquerda e de direita, encontrem-se à frente de órgãos do poder público, no executivo, no legislativo e no judiciário, em todas as instâncias da federação; em entidades representativas, sindicatos, associações, clubes, conselhos, ONGs etc. Eles são cuidadosamente transportados para uma ilha distante, tomada como colônia de isolamento político-sanitário. Por lá deverão permanecer com os seus familiares e acompanhantes voluntários, por um prazo mínimo, irrevogável e não dilatável, de 200 anos, sem direito a coleira eletrônica e qualquer acesso ao continente. Cabendo aos isolados decidir com plena autonomia sobre as formas de governo e os modos de vida que os regerão.
Concluído o isolamento político-sanitário, serão convocados plebiscitos, referendos e eleições diretas para que se reorganize o país em moldes não capitalistas.
A estratégia e a táticas serão articuladas numa linha quadrilateral envolvendo a fome, o raquitismo político, a subnutrição cultural e a corrupção visceral.
Como modelos negativos e expressões máximas do vírus político CE6M3R, serão destacados como agentes transmissores: o liberal de sala VIP, o democrata de cobertura, o social-democrata de condomínio fechado, o comunista 5 estrelas, o anarquista de salão, o agitador de corredor, o ativista de sala de espera, o cacique jovem guarda, o pré-candidato a cacique, a liderança de outdoor, o dirigente de cadeira cativa, o guerrilheiro de Facebook, os acionistas majoritários ou hereditários do movimento popular, as organizações neogovernamentais, a transparência com vidro fumê.
Os que se colocam nas raias desta espera precisam ter a tranquila consciência de que uma coisa são os prazos da biografia individual, medida ano a ano; outra, são os prazos do processo histórico, contado por décadas e séculos. Portanto, é recomendável paciência e persistência na mesma viagem, mesmo que se alterem mapas, trilhas, meios de transporte e companheiros de viagem.
Nesta perspectiva me situo como plebeu, republicano, democrata popular, cidadão de esquerda, pluralista, socialista, comunista e seguidor do Detran – sempre à esquerda, não ultrapasse pela direita. Reconhecendo que o stalinismo representou para os comunistas o que foi a inquisição para os cristãos. Entendendo que sob o socialismo deve haver mais liberdade do que sob o capitalismo. Defendendo a Militância Quadrilateral. E uma militância exercida com poesia, prazer, amizade e humor. Até que a morte me separe da vida.

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