quarta-feira, 20 de julho de 2016

Camarada: passado, presente & futuro (2 de 2)

Ensaio*
Recebido em 07 de julho de 2016
Por Betto della Santa, que é militante socialista, pesquisador na UFF e está a serviço de arrancar alegria ao futuro.

Cena do filme 'Terra e Liberdade', do camarada Ken Loach

III.
Os dirigentes russos – atentos que eram à nação mais revolucionária, e, algo depois, mais reacionária do mundo – conheciam muito bem não só a história e a memória do movimento francês – por razões tão óbvias quanto o 1789, o 1848 e o 1871 – como também sabiam de-cor’ seus usos e costumes. Não é por acaso que muitos autores russos usaram prenome, tipicamente francês, León, em seus nomes literários. A influência das letras e política dos franceses era enorme na Rússia do Novecentos. O bolchevismo, após a conquista do poder no início do Séc.XX, generalizou e internacionalizou o emprego político-social fundado pelos camaradas franceses, traduzindo o termo e incorporando-o à cotidianidade, à cultura e ao modo de vida soviético. Camarade, Tovarich. A revolução socialista na Rússia deveria ser considerada, para todos os efeitos, em termos de continuidade histórica em relação à sua irmã mais velha, a Comuna de Paris. Lenin, Trotsky, Bukhárin e Sverdlov sabiam disso.
A guerra civil que se seguiu na Rússia viu o Exército Branco contrarrevolucionário usar o termo Tovarich em sentido pejorativo, para se referir aos bolcheviques, principalmente os envolvidos no Exército Vermelho e nos Soviets, conselhos assembleários de representantes proletários, camponeses e militares. A direita conservadora da América do Norte e da Europa Ocidental passou a menoscabar –muitas vezes com estereótipos grosseiros e caricaturas infantilizadas– de seus adversários banalizando, descontextualizando e, por fim, esvaziando de sentido o epíteto de Camarada. O espectro do anticomunismo passou a rondar a Doutrina de Segurança Nacional em grande parte do mundo do capital e a Era Macarthista constitui a sua expressão mais evidente nos Estados Unidos da América.
Assim sendo, à medida que o arrojo revolucionário de Outubro de 1917 ia se esmaecendo e a ex-URSS se ia stalinizando, o uso social e político do termo Camarada foi então se circunscrevendo, cada vez mais, a discursos formais, documentos oficiais e aos vários destacamentos militares do restrito círculo da burocracia partidária, política e estatal.
A forma de tratamento que ascendera social e politicamente em função de seu sentido originalmente igualitário, voltado para as relações mais diversas da vida cotidiana, voltava –passos atrás, literalmente– a assumir uma conotação hierárquica a partir da utilização oficial, formal e extracotidiana empregada por uma casta burocrática, a nomenklatura civil e político militar da ex-URSS. O retrocesso é autoevidente. Desta forma, a atração exercida primeiramente –nitidamente emancipatória– rapidamente acompanha o arco descrito pela trajetória reacionária da degeneração burocrática dos partidos comunistas no mundo todo.

IV.
Na América Latina dos anos 60 e 70, por exemplo, o eixo das atenções será deslocado pela Revolução Cubana e seu signo prototípico por excelência; tornando mais difundida a forma-Compañero/a = aquele/a que acompanha, companhia/acompanhante –de luta, de vida, de jornada– ou, em sua vertente mais diretamente alegórica, com quem se partilha ‘o pão de cada dia’, do Lat. Cum = com + Panis = pão; inclusive entre a esquerda brasileira. Trata-se de uma palavra ainda mais antiga, presente desde o latim vulgar, Companio = com quem se divide o pão –p.ex.: Comensal, também derivado do latim, quer dizer com quem se divide a mesa, sendo ambos sinônimos de Conviva, ou seja, com quem se convive– e com larga trajetória nas línguas derivadas do Oxítano, como o francês ou o catalão, cuja démarche associa-se, de formas variadas, aos sucedâneos das origens do cristianismo primício, às corporações de ofício do medievo e até mesmo às seitas secretas de francomaçonaria.
A reintrodução da distinção de gênero através da nova forma de tratamento, Companheira, acompanhava, paralelamente, a maré cultural do nascente movimento social feminista contemporâneo, subvertendo o igualitarismo nos termos de uma lógica da diferença já voltada, à época, para uma revalorização do papel social da mulher na história. A palavra Companheira passa a ser, inclusive, uma alternativa simbólica para termos como esposa, concubina ou mulher –com carregado sentido de posse-domínio masculino– justificando duplamente a nova apropriação pela segunda vaga do movimento de mulheres do Séc.XX.
Mas, centralmente, enunciar o termo Companheiro/a trazia consigo como que um subtexto criptografado do preterimento –de caráter antistalinista– da sua antiga versão unissex, agora amplamente identificada com a burocracia moscovita e seus partidos-satélites.
No Brasil, em especial, tratava-se também de um modo cifrado de «culto» à consciência espontânea do novo movimento operário do ABCD paulista de finais dos anos 70 e início dos 80 além do rechaço implícito, da parte dos sindicalistas, a toda forma de esquerda organizada, inclusive a trotskista, notadamente antistalinista. Que José de Alencar (PL) insistisse em chamar Luiz Inácio da Silva (PT) por Companheiro, no interior da ex-Frente Brasil Popular, não deixa de constituir uma das ironias de que a história está repleta.

V.
O elevado grau de burocratização, institucionalização e inclusive remilitarização, haja vista a origem de seu uso, de forte conotação filomarcial, como no caso dos camaradas de regimento –agora empregado majoritariamente por stalinistas em posição de mando– gerou, enfim, outra importante deformação. O emprego político-social, correligionarismo em um mesma corrente de pensamento e tendência de ação, seria então agora expropriado amplamente pelo nazifascismo que se abatera sobre grande parte da Europa Ocidental.
O partido nacional-socialista alemão e o falangismo grão-espanhol são notórios exemplos de organizações de extrema-direita que não tiveram quaisquer problemas em empregar a palavra no interior de suas fileiras. A dupla derrota histórica do movimento social operário europeu –stalinismo, no Leste Europeu, e nazifascismo, na Europa Ocidental– iria então se consubstanciar, também, na forma-Camarada. Não é por acaso que comunistas, socialistas e anarcossindicalistas revolucionários de toda a Península Itálica trataram-se/tratam-se por Compagno, enquanto Camerata é uma forma de tratamento utilizada tão-só pelos filiados e simpatizantes ao Partido Fascista de Benito Mussolini, assim como é a de seus recentes seguidores na Itália. “Errar o nome”, no provérbio, é tão grave quanto “matar um homem.”
Entre a esquerda dos países iberoamericanos, Brasil incluso, até hoje existe uma alternativa entre as duas formas –Companheiro/a e Camarada– para designar o que em muitos outros lugares só conhece uma única tradução mais fiel: Tovarich, Camarade, Compagno etc. etc. etc.
Hoje em dia em Moscou –muitos anos depois da restauração capitalista, cujos ritmos e eixos foram ditados desde o próprio Politburo– dificilmente será possível, ou mesmo provável, alguém interpelar qualquer pessoa pela forma de tratamento predominante no cenário pós-czarista, Tovarich. Um vendaval contrarrevolucionário parece ter varrido uma tão bela palavra para a glacial Sibéria do interdicto do bem-falar moscovita. Irromperam em cena novamente Damy e Gospoda –Senhor e Senhora, respectivamente–, retornando à baila as formas hierárquicas, e mais formais, de trato. O novo protocolo social e político –em sua versão mais avançada, na ordem estabelecida– parece indicar não mais do que Grajdanin, Cidadão. Um franco regresso ao passado ainda não-ultrapassado de Tolstói e Doistóevski.

VI.
Mas muitas águas rolaram desde o declínio do nazifascismo e o colapso do stalinismo. A meia-noite do século já não é a fantasmagoria que assombra o mundo. A estrepitosa queda do Muro de Berlim e a decadência dos partidos-satélites de Moscou, contudo, ficou longe de pavimentar o caminho para qualquer alternativa à crise de direção revolucionária global. Que os inimigos fidagais do movimento dos trabalhadores já não gozem da saúde de antes, e encontrem-se até respirando por aparelhos, não serve de garante ao êxito do marxismo.
Porém tomar-lhe emprestadas vestes, palavras-de-ordem e mesmo –por que não?– formas de tratamento a uma história coalhada de lutas gloriosas, e derrotas infames, não significa ter um olhar voltado para trás. Aliás, pode ser justamente o contrário: derivar nossa poesia de um futuro em aberto que atualiza, ressignifica ou –hegelianamente– supera o que foi. A cisão ocorrida entre o que se espera do futuro e aquilo que remonta ao passado não deixa de ser uma conscripção obrigada ao presente eternal. Graças às obras de Christopher Hill, Edward Thompson e Eric Hobsbawm –não bastasse o parafraseado Karl Marx d’O Dezoito Brumário– sabe-se que o movimento social como um todo extrai sua força e sustento do passado remoto. Não se trata de ideia sentimental, paralisação retrógada ou revolição política. A herança histórica da velha linguagem é a pedra de toque para o aprendizado do idioma futuro. A antiga forma –mutatis mutandi– pode servir à criação de um novo conteúdo.
Camarada. É uma boa e velha palavra franco-castelhana que gostaríamos de ver atualizada, ressignificada e superada pelo movimento real de homens e mulheres –em carnes e ossos–, camaradas vivos/as que –apesar de em condições legadas por outrora– fazem a sua própria história. Como já se disse antes, nada de novo poderá surgir da falta de memória coletiva.
Da mesma forma se dá com Féminisme, Socialisme e, com especial apreço, Communisme. É preciso arrancar a tradição histórica ao conformismo político e despertar do tempo pretérito às faíscas do princípio-esperança. Não chegou a hora de baixar às armas ou defeccionar à bandeira vermelha. Alguém poderia se perguntar o porque de uma tal persistência simbólica. Seria isso um preciosismo verbal? Ou sectarismo lingüístico? Um signo-fetiche? Longe disso. Bem longe disso. Ao contrário do que reza o Genesis, no início não era o verbo. E, diferente do que escreveu Goethe, tampouco foi a ação. O princípio está na relação entre um e outro. Se muito vale o já feito, mais vale o que será. É preciso arrancar alegria ao futuro. Transformar o mundo. Cantar à vida. Bem unidos — façamos.



Notas
* Publicado por indicação do autor. Inicialmente apareceu em http://blogconvergencia.org/?p=7301

[1] Do Lat. Camăra; Do Gr. Kámara. O termo possui múltiplas acepções possíveis. Em uma delas a descrição do ambiente ou cômodo principal de uma moradia. Refere-se a termo técnico da história material da arquitetura e do urbanismo com registros em Sânscrito, Persa e Celta = Curva, Volta, Arco. Da Câmara mortuária à Câmera fotográfica, passando pelas Câmaras pneumáticas até as Câmaras de Comércio, Indústria e Orquestra, todas variantes derivam da mesma raiz. O Império Romano utilizou-se desta expressão para nomear às Abóbodas. Talvez aqui resida uma chave interpretativa importante. Senão, vejamos. As Abóbodas são as diversas formas de construções arqueadas com as quais se cobrem espaços compreendidos entre muros, pilares e/ou colunas. Compõe-se de peças lavradas em pedra especialmente para este fim, denominadas Aduelas, ou de tijolos apoiados sobre uma estrutura provisória de madeira, os Cimbres. Todo esse problema arquitetônico é nada menos do que basilar para a história material do mundo dos homens. E isso, vista mais de perto a questão que nos ocupa, não se trata de uma somera metáfora.
Embora já de uso generalizado desde a Antiguidade Clássica, a sua construção constituiu o principal problema arquitetônico da Idade Média europeia. O desafio de construí-las foi um dos vários fatores que impulsionaram o desenvolvimento de toda a Arquitetura Ocidental. Os povos mesopotâmicos foram os primeiros a empregá-las de modo já algo generalizado.
No Egito e na Grécia a cobertura dos edifícios era feita mediante estruturas horizontais, as Arquitraves, mas entre os Cretenses e os Micenianos já se encontravam algumas ‘Falsas-Abóbadas’, por assim dizer, feitas de fileiras contíguas de tijolos e pedras. Os romanos antigos recuperaram as técnicas originárias dos povos mesopotâmicos, retomadas pouco depois no Ocidente e também no Império Bizantino, de onde se transmitiram ao Mundo Islâmico. O período românico usou principalmente a Abóbada de Berço, que evoluiu para a Aresta e a Cruzeta até chegar à Abóbada Ogival, típica das Igrejas em seu período gótico.
O Renascimento europeu recuperou os valores estéticos do classicismo artístico e, com eles, os fundamentos arquitetônicos da Abóbada Original. A sua raiz indoeuropeia, Kamer, pode ser perquirida junto ao Indogermanisches Etymologisches Woerterbuch, de Julius Pokorny, e ao Diccionario Etimológico Indoeuropeo de la Lengua Española, de Edward Roberts e Bárbara Pastor, entre outros. Palavras como Camareira, Camarote e Camerístico provém do mesmo tronco lingüístico e ramificação vocabular. Ao fim e ao cabo, trata-se de substrato granítico dos pilares fundacionais mais remotos do próprio processo civilizador. A produção material dos meios fundamentais da vida social no mundo dos homens remete, necessariamente, à dimensão transindividual. O ser-estar juntos, o aspecto coletivo ou, para todos os efeitos, a comunidade real. Neste sentido, o afastamento das barreiras naturais por meio da cultura humana também perfaz uma reconciliação histórica do homem consigo mesmo. Como já diria um historicista absoluto da objetividade humana, não há como viver sem partilhar. O conceito aqui investigado remete ao debate de filologia vivente travado por Antonio Gramsci n’Os Indiferentes. Todo Camarada que genuinamente vive é vero Partigiano.
Assista, a seguir, ao trailer do filme Jimmy’s Hall – ou Salão de Jimmy –, do Camarada Ken Loach: https://youtu.be/ZW7eVg0JoqE

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