segunda-feira, 18 de julho de 2016

Camarada: passado, presente & futuro (1 de 2)

Ensaio*
Recebido em 07 de julho de 2016
Por Betto della Santa, que é militante socialista, pesquisador na UFF e está a serviço de arrancar alegria ao futuro.

Vale a pena atentar para sua semântica histórica. Afinal de contas, o que tem a dizer?

"A filologia é a expressão metodológica da importância que os fatos sejam precisados e acertados em sua inconfundível 'individualidade'. […] método de verificação dos fatos particulares…" (Antonio Gramsci).

"Nenhum grupo isolado pode estar 'errado' por qualquer critério linguístico, embora um grupo temporariamente dominante possa tentar forçar seus próprios usos enquanto 'corretos'" (Raymond Williams).

Cena de Jimmy's Hall, filme do camarada Ken Loach

Ca·ma·ra·da (sm./sf.)
[Do Fr. = Camarade].

1. Pessoa que convive com outra; companheiro.
2. P. ext. Amigo fraternal e cordial.
3. Condiscípulo, colega.
4. Cada um dos indivíduos que exercem a mesma profissão.
5. Bras. N. Pessoa amancebada; amásio, amigo, companheiro.
6. Bras. V. concubina:
Alugou casa para a camarada e passou a morar lá, com ela.
Substantivo masculino.
7. Bras. Pop. Soldado.
8. Bras. Indivíduo empregado em serviços avulsos, nas fazendas.
9. Bras. Garimpeiro assalariado.
10. Bras. Sujeito, indivíduo:
Esse camarada está sempre contando vantagem.
Adjetivo de dois gêneros.
11. Bras. Simpático, acessível, amigo; camaradesco:
É um sujeito camarada.
12. Agradável, bom, propício:
Soprava um ventinho camarada.
13. Acessível:
um preço camarada.
14. Que denota camaradagem, simpatia, amizade:
O professor deu-lhe uma nota camarada.
[-Camaradas de corpo. Bras. Pop.: Madre, útero].

Fonte: Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa. 14ª. edição.
Aurélio Buarque de Hollanda. Versão revista. Nova ortografia.

Uma nova concepção total de mundo pode dar lugar a uma outra civilização integral. Para o espírito se fazer carne a luta por uma linguagem depurada é, longe de tarefa secundária, simplesmente fundamental. As palavras nunca são inocentes. Se a revolução mundial originou o termo Soviet, foi a contrarrevolução global que cunhou a expressão Gulág. O léxico grosseiro do Império do Czár assentava-se em séculos de humilhação e ofensa. Não à-tôa parte importante do programa socialista de reinvenção da vida cotidiana, Perestroika Byta, teve este objetivo. Mas o tempo não pára. E tampouco pára seu curso a linguagem.
Camarada segue sendo uma palavra difundida –no vocabulário cotidiano– da esquerda radical de muitos países. É constituinte e constituidora da tradição igualitarista de vários continentes. Já gozou de maior prestígio –entre as classes oprimidas e combatentes–, e já sofreu reveses múltiplos, pelos mais diversos motivos. Vale a pena atentar para uma sua semântica histórica. Como conteúdo sedimentado de uma forma linguística, faz parte de todo um sistema de significações que dá forma e sentido, ordena e reordena, a modos de vida e de luta –determinados e determinantes– reais. Afinal de contas, que tem a dizer?
Recapitulando ligeiramente o verbete: de parceiro de convívio sob mesmo teto, passando por amigo fraternal/cordial, colega/companheiro de trabalho, companheiro/a amoroso/a, oficial militar, bóia-fria/jornaleiro, garimpeiro assalariado, sujeito e/ou indivíduo mesmo simpático/agradável até a gíria, já bastante trivial, de cara bacana, no Brasil, ou tipo fixe, em Portugal. Uma real profusão das mais múltiplas significações, filotipicamente congêneres, própria de toda formação sígnica singular realmente existente na cultura histórico-mundial do gênero humano. Mas, curiosamente, nem uma palavra sequer do que diz a letra do texto do Priberam português, ou do Houaiss brasileiro, sobre a história da esquerda, os partidos socialistas e os sindicatos operários. Após uma primeira análise, cabe iniciar a via de volta.
Em síntese, e, como em toda síntese, numa simplificação brutal, desse modo se designa a pessoa a quem se está ligado/a por uma familiaridade originada de atividades comuns (estudo, trabalho, lazer etc.) ou afeição voluntária, indica-se aquele/a que tem os mesmos interesses ou ocupações –segundo o Dicionário Le Gran Robert– e, enfim, trata-se ainda de uma forma de tratamento, sobretudo, entre iguais. Mas, afinal de contas, onde e quando se pode buscar sua gênese histórica e devir social no tempo espaço de épocas e continentes?

I.
De ramo léxico-semântico derivado imediatamente de outro idioma neorromântico, do francês antigo, Camarade, a palavra é uma genuína trânsfuga, tanto da pátria de origem quanto do seu sentido, digamos, original. A velha palavra apareceu em cena no idioma francês no período das Grandes Navegações, cruzando os Montes Pirineus a partir da década de 1510, do Lat. Camera[1] = Quarto. O termo –tomado de empréstimo ao castelhano castiço, Camarada = com quem se compartilha cámara de habitación– existe, segundo registro catalográfico, desde o Séc.XVI na língua francesa. Acontece que, durante o Renascimento europeu, o poder dos Reinos de Castilha e Portugal cresceu a olhos vistos sob a colonização das Américas. Com a hegemonia política — uma supremacia linguística.
Em razão da primazia nos conflitos militares, relações comerciais e na política exterior do sistema-mundo mercantil o castelhano-espanhol –e também a língua galaico-portuguesa– forneceram ao idioma francês algumas palavras que lhes são próprias, fenômeno cultural que logo se inverteria e, logo depois, se trasladaria à influência do universo anglossaxão. De qualquer maneira é sobretudo na forma como se dá a transmissão de todo um vocabulário às colônias, e em particular, no Novo Mundo, que os idiomas ibéricos irão enriquecer-lhe consideravelmente à francofonia. Assim sendo, talvez o percurso inicialmente sugerido –desde os Montes Pirineus– seja, na verdade, quiçá um bocado mais complexo do que o inicialmente imaginado. A realidade em movimento sempre supera a ficção da suposição.
E tanto mais, lembremos: toda língua nacional foi/é produto histórico de normatização institucional inescapavelmente póstuma, violentamente arrancada, no mais das vezes a ferro e a fogo, do coração vivo de uma multiplicidade de línguas/idiomas/dialetos e povos originários que não conheciam fronteiras de qualquer tipo e ainda, para todos os efeitos, França e Espanha nomeavam/nomeiam povos e Estados –constitutivamente multiétnicos, plurinacionais e polilingüísticos –de fato limítrofes, também, no intercâmbio significativo. Esta palavra é um equivalente simbólico do francês, Chambrée, termo que designa forma de alojamento com parceiros de convívio em um mesmo quarto compartilhado, um modo de vida mais comum –e difundido– entre os grupos subalternos e as classes trabalhadoras.
Aí está a força originária da expressão, nua e crua, descoberta das diversas camadas de sentido –estalactites e estalagmites linguajeiras– que se lhe cobriram a trajetória enquanto fóssil lingüístico, com o passar do tempo histórico. Dividir o mesmo teto. Mas, como já dizia Ernst Bloch, a verdadeira gênese está no fim. Afinal de contas, a linguagem dos homens é um fenômeno sócio-histórico em irrefreável movimento e se dá, enfim, enquanto língua viva.

II.
O emprego particular de Camarada –em seu uso social e político já tradicionalmente associado ao movimento dos trabalhadores, forma de tratamento amistosa, com forte conotação partisana– teve início a partir de sua agitação e proganda através de comunistas e socialistas franceses –pré-marxistas– que, segundo o Larousse Dictionnaire d’Étymologie, primeiramente difundiram este lexema ou unidade de sentido, a partir da década de 1790, sob o impacto da revolução jacobina. Reconstruída a significação originária não é difícil apreender-lhe senso metafórico a militantismo/companheirismo/partisanismo, i.e., engajar-se/participar/compartilhar. Viver é um «acamaradar», diria o comunista Antonio Gramsci.
O vendaval irresistível da vaga revolucionária mundial aboliu, ao menos transitória e momentaneamente, as formas de tratamento Senhor e Senhora, Monsieur e Madame –de forte conotação hierárquica– suprimindo o pesado fardo dos títulos nobiliárquicos e a velha herança dos privilégios feudais a partir da noção de homens livres e do emprego algo generalizado do termo que denotava a emancipação jurídico-política. Cidadão, Citoyen.
Um exemplo digno de nota vem do próprio Rei Louis XVI que, depois de deposto, passou a ser referido simplesmente como Cidadão Louis Capet. Aí está a profícua fertilização do solo histórico que lhe serviu de esteio à ressignificação, e enfim, ao sentido político atribuído ao signo que nos ocupa, aqui e agora, enquanto forma histórica. Não há uma melhor defesa.
Considerando que a gênese dos termos Socialisme e Féminisme é praticamente coetânea durante a Primavera dos Povos e as revoluções européias de 1848 a expressão franco-espanhola, Camarada, tem ainda uma vantagem adicional: não estabelece distinções de gênero, sendo uma forma de tratamento mais igualitária inclusive no trato não-distintivo entre homens e mulheres. O sistema patriarcal de dominação masculina é uma das formas históricas de opressão social mais arraigadas, que em muito antecede o velho feudalismo e o próprio sistema do capital, e por isso lega ainda profundas marcas linguísticas e sociais.

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