sexta-feira, 1 de julho de 2016

Anitta ou o retorno dos recalcados

Ensaio
Recebido em 28 de junho de 2016
Por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Enquanto o homens exercem seus podres poderes,
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
e adolescentes fazem o carnaval”

Fotografia da turnê 'Bang'

Enquanto Anitta e sua banda executavam, no palco do Baile Perfumado, o sucesso Bang, música homônima à turnê da cantora: “Vem na maldade, com vontade | Chega, encosta em mim | Hoje eu quero e você sabe | que eu gosto assim | Uh, uh, uh, uh, uh”, um fã sobe ao palco e começa a dançar a coreografia da música. Após alguns instantes de hesitação, o segurança da empresa terceirizada sobe para retirar o jovem. Neste meio tempo, Anitta intervém a favor do fã e o segurança desce do palco sob forte vaia da plateia e, na sequência, aplausos para a cantora.
Cheguei ao Baile Perfumado por volta das 20h. Iria trabalhar na organização do show de Anitta. A noite do dia sete de maio era fria. Vendedores ambulantes defronte à casa de eventos preocupavam-se com os sinais de chuva, ora olhando para o céu, ora ajustando os ressignificados guarda-sóis e, enquanto fumavam, iam arrumando as grelhas dos espetinhos de carne e papeavam entre si. Taxistas conversavam sobre a noite de sábado de fraco movimento. Um grupo de fãs encontrava-se à espera da abertura dos portões. Um gato ronronava languidamente próximo à bilheteria. Enquanto a vendedora de hambúrgueres gourmets punha na chapa dois bolos de carne. Os trabalhadores do evento organizavam-se: pôr gelo nas freezers; abastecer os bares; seguranças previamente se alimentavam à base de sanduíches com guaraná; hora de posicionar as urnas de ingresso; certificar o horário de abertura dos portões; distribuir o pessoal pelo perímetro do evento; sintonizar um canal comum para os walkie-talkies…

Foto do bar interno. Acervo pessoal.

O evento teria open bar de vodca, uísque, cerveja, refrigerantes e água. Por conta disso, a censura era de 18 anos. O ingresso do primeiro lote custou R$ 90; o do segundo, R$ 100. Pelo valor da entrada, podíamos constatar, a priori, que boa parte do público seria elitizado. E foi. Paulatinamente, os fãs começaram a aglutinar-se rente ao portão de acesso à casa. Uma breve observação ao perfil deles nos mostrava: os Adidas, Nikes, bonés abas largas de grife, camisetas estampadas com fotos de D. Bowie, J. M. Basquiat, óculos de aros grossos... Como o evento tinha censura de 18 anos tivemos que, na maioria das vezes, pedir um documento comprobatório de idade. Nestes, às vezes, vinham carteiras da OAB, CNHs, policiais civil, federal e militar, entidades de classe, imprensa...
O perfil do público estava dado, mais ou menos, nessa proporção: homoafetivos 90%; héteros e informados 10%. Percebíamos os héteros por estarem em casais. Já os informados – categoria sociológica criada por Erving Goffman para designar os agentes sociais com livre trânsito nos grupos estigmatizados – eram percebidos pela circulação desinteressada durante o show. Uma coisa importante de frisarmos é que a produtora responsável pelo evento deixou claro para os seguranças da casa: “não sejam truculentos”, seguramente, ciosa do perfil socioeconômico do público.
Os portões abriram por volta das 22h. Dois DJs ficaram a cargo de esquentar o público enquanto não começava a apresentação de Anitta. A ênfase no consumo de álcool, no auditório desta noite, mesmo sendo open bar, não se compara, por exemplo, aos fãs de outro fenômeno pop da atual música brasileira: Wesley Safadão. O público de Anitta, assim como suas canções, não têm aquela ênfase no consumo de álcoois. Portanto, não houve os habituais contratempos relacionados ao consumo de álcool: brigas, vômitos, desmaios, comas alcóolicos...
Anitta sobe ao palco por volta de meia-noite. Táxis encostam defronte ao Baile Perfumado. Retardatários correm para prestigiar a diva do pop nacional. O vídeo Bang, de Anitta, está próximo de alcançar a expressiva marca de 200 milhões de visitas no YouTube. Em cima da hora, chega a “Miss Gay Pernambuco” montada num salto nº 15, coroa e faixa atravessando o espadaúdo tórax. A impressa chega ao local para fazer algumas tomadas. Alguns fãs estavam retidos na portaria por conta de não estarem municiados de documentos de identificação. Após alguns telefonemas e mensagens com as fotos dos documentos enviadas através dos WhatsApps, os retidos conseguiram entrar comprovando a maioridade. O sorriso estampado no rosto dos que entraram na casa após longa demora foi algo indescritível. Era como se eles tivessem ganho o passaporte para o País da Liberdade.
Fui acompanhar alguns minutos da apresentação da funkeira. E nela pude constatar alguns pontos. Como a ênfase nas canções e no público de Anitta não está dada no consumo etílico, pude perceber que há, aparentemente, outra inflexão nos que acompanham a cantora carioca. Isto é, a audiência de Anitta está mais preocupada em dar vazão aos recalques, sobretudo, corpóreos. E aqui está o ponto nevrálgico desse texto: o elã que envolve a recepção de Anitta está prenhe de desentropia física, ou seja, há uma descarga da energia corporal recalcada por conta, especialmente, da homofóbica sociedade brasileira.
Os espectadores de Anitta reivindicam a livre expressão de sua economia libidinal. E a maior manifestação contrária a esse embrutecimento físico é a coreografia. A prática coreográfica é uma espécie de tentativa de reencontrar uma harmonia perdida – a héxis corporal gay encalacrada pelos açoites da civilização/cultura/machista/misógina.
A cizânia entre corpo (representação) e ímpeto (vontade) busca ser resolvida por meio da sincronia dos corpos que, apenas em confluência coreográfica, é capaz de propiciar o restabelecimento entre vontade e representação. E há nisso uma dimensão inconscientemente política – o patriarcalismo esmorece frente ao restabelecimento da harmonia entre corpo e expectativa, cuja a coreografia é pródiga em promover – o limite do meu mundo é o limite da manifestação do meu corpo.
Durante a apresentação da turnê Bang, o palco de Anitta é revestido por um telão de led. No telão, as imagens são justapostas numa espécie de Gestalt monocromática – preto e branco – que envolve o expectador numa espiral maniqueísta: boa-má; anjo-demônio; sedutora-inocente; moderna-vintage... A banda é composta por teclado, baixo, guitarra, DJ, percussão e duas dançarinas. O modelito de Anitta é composto por meia arrastão, salto agulha estilo bota até acima dos joelhos, e uma espécie de maiô com alguns cortes à altura das costas. Todo o traje é sombriamente preto, assim como o das dançarinas que repetem o mesmo modelo da cantora, com leves alterações. Tudo indica que o minimalismo da vestimenta é para acentuar os efeitos do telão de led.

Outra imagem promocional da turnê 'Bang'

E aqui chegamos a cena do segurança sofrendo a sanção de Anitta. Não foi nenhum esporro dito ao microfone, foi algo discreto, do tipo: “Ei, deixa o menino dançar”. Apenas com isso, a cantora ganhou a plateia e transformou o Baile Perfumado num espaço de afirmação, ao menos temporário, de um elo perdido: a orientação sexual desindexada da livre manifestação corpórea. Por uma noite, boa parte daquela audiência restabeleceu a vontade com a representação. Estas, subiram no palco e dançaram livremente através do corpo daquele intempestivo fã, enquanto as forças civilizatórias, especialistas em produzir recalques, descia do palco, na figura do segurança, sob forte consentimento da plateia.
Por volta das 3h eu larguei. Aproximei-me do bar e pedi uma dose dupla caubói, apenas com gelo, ao barman. Fui para casa ao sabor do destilado enquanto arfava dentro da noite fria e veloz daquele sensível mês de maio.

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