quinta-feira, 7 de julho de 2016

1º de Maio no Brasil: entre a espetacularização e a luta

Ensaio
Recebido em 04 de julho de 2016
Por Maicon Vasconcelos, professor e mestre em História.

A espetacularização do 1º de Maio

O livro “A sociedade do espetáculo” do crítico francês Guy Debord, se propõe a refletir sobre as modernas sociedades e as metamorfoses do fetichismo da mercadoria. Já em sua primeira tese, ele explica que em “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação”. E o que isto tem a ver com o 1º de Maio, dia do trabalhador? Em nossos tempos, tem tudo a ver com a realidade brasileira.
Há longínquos mais de 150 anos, precisamente em 28 de setembro de 1864, em Londres, fundava-se – com a presença de trabalhadores de vários países do mundo e matizes políticos, junto com movimentos (comunistas, anarquistas, etc.) – a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), a 1ª Interacional, que lutava pela construção de uma sociedade justa, livre e igualitária. Regia-se, assim, sob o horizonte socialista. Mas, o marco do que hoje conhecemos como “dia do trabalhador” só ocorreria em 1886, na cidade de Chicago, quando na véspera de 1º de Maio, conclamando uma greve geral, os operários de Chicago, na madrugada distribuem o panfleto que encetava num de seus trechos: “A partir de hoje nenhum operário deve trabalhar mais de oito horas por dia”. Encadeou-se, então, uma onda de greves que resultaria em muitos trabalhadores mortos e feridos.
A luta por essa reivindicação continuou ano a ano e, em 1889, no Congresso Operário de Paris, donde se originaria a Internacional Socialista ou 2ª Internacional, é também deliberado que anualmente os trabalhadores, em escala mundial, deveriam organizar manifestações em uma data fixa, pela redução da jornada para oito horas e outras reivindicações. Esta data era o 1º de Maio, sendo sagrada por decreto em 1891, em Bruxelas, no 2º Congresso da Segunda Internacional, como o Dia Internacional dos Trabalhadores. Já no Brasil, a partir de 1890, também começam movimentos de trabalhadores pela luta das oito horas de jornada. Ou seja, as origens desta data remontam a um passado de muitas lutas, sacrifícios e conquistas para trabalhadores e trabalhadoras.
Depois desta breve rememoração histórica, voltemos a questão de quais os paralelos entre o 1º de Maio em nossos dias e a dita “Sociedade do espetáculo” manifestada por Debord. Ainda que muito presumível e óbvio mesmo para um observador desatento, não é demasiado enfatizar que diferentemente daquele Dia do Trabalhador histórico acima narrado, inscrito no decorrer dos anos sob a insígnia da luta contra a exploração e opressão do capital e do Estado, hoje o cenário se apresenta de modo muito diverso. O que temos são centrais sindicais que representam os interesses dos empresários e do governo, em detrimento dos trabalhadores. E assim, todo 1º de Maio, armam um picadeiro (verdadeiro espetáculo) e chamam os trabalhadores para se idiotizarem com o sorteio de carros, casas, shows, etc. Portanto, alienando-os com esses eventos festivos e caros, mas vazios em conteúdo crítico, enquanto a exploração dos patrões e a precarização das condições de trabalho, bem como a correlação de forças permanece inalterada, ou antes, beneficiando diretamente os patrões e os governos de plantão.
Tanto aqui como em outros países da América Latina houve nos últimos anos um retorno do populismo com novas peculiaridades e inovações, mas mantendo sua centralidade de, a serviço da classe dominante, buscar “conciliar capital e trabalho” via alienação das massas, atrelando ao Estado, quando possível, sindicatos e outras entidades de representação dos trabalhadores. E na contramão da efusiva propaganda apologética aos governos, avança a desregulação e a precarização das condições de trabalho no Brasil, destacando-se entre as tantas perdas trabalhistas, a terceirização que caminha a passos largos com a lei 4.330.
Mas, o Dia do Trabalhador, mesmo tão espetacularizado como está, ainda é um campo em disputa e cabe aos trabalhadores e trabalhadoras reivindicá-lo para si mesmos.


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