quarta-feira, 1 de junho de 2016

Síndrome de Kaká

Ensaio [*]
Recebido em 25 de maio de 2016
por Renato K. Silva, doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

Kaká veste "Eu pertenço a Jesus"

No primeiro domingo do Campeonato Brasileiro da Série A 2016, o meio-campista do São Paulo, Lucas Fernandes, 18 anos, fez um gol cobrando falta, na vitória do seu time sobre o Botafogo por 1-0. E a cena da comemoração já virou um déjà vu sobretudo nos estádios brasileiros: ajoelhar-se no gramado e levantar os braços para o céu com os dois indicadores em riste – símbolo de agradecimento a Deus. Na imagem, há o olhar em plongée de Alan Kardec para o autor do gol, no primeiro plano, e uma faixa com o desenho de Raí, no segundo plano.
Em 2001, um jogador recém-ingresso ao time profissional do São Paulo, também aos 18 anos, marcou dois gols contra o mesmo Botafogo, no Morumbi, na final do Torneio Rio-São Paulo, seu nome: Ricardo Izecson dos Santos Leite, futuramente conhecido como Kaká.
Desde então passaram-se 15 anos. A grafia do nome de Ricardo Izecson passou de Caca para Kaká. Em 2002, Kaká foi convocado por Felipão e fez parte do último título Mundial da Seleção Brasileira, na Copa Japão-Coreia. Após a final contra a Alemanha, Kaká que não jogou uma única partida naquele mundial, aparece sendo carregado pelo zagueiro Lúcio. Em sua camisa há os dizeres que a partir de então iriam fazer parte de sua carreira como uma sombra: “I belong to Jesus” ou “Eu pertenço a Jesus”.
Após o mundial, Kaká ganhou a Europa atuando com destaque com a camisa do Milan e tornou-se o último atleta brasileiro a ganhar o título de melhor jogador do mundo, em 2007. O troféu de melhor jogador do mundo, concedido pela Fifa, Kaká doou para a congregação que era filiado à época, a Igreja Renascer em Cristo, gesto que materializou sua devoção à Teologia da Prosperidade, segmento caro ao neopentecostalismo brasileiro que, sumariamente, enxerga as conquistas pessoais como índice terreno da glória de Deus operando na vida do devoto.
Na segunda metade dos anos 2000, Kaká era um atleta em pleno voo. Com bons rendimentos dentro e fora do campo ele tornara-se “o genro” que toda sogra gostaria de ter: bonito, cristão, bem-sucedido, abstêmio, um exemplo de filho, atleta, casou virgem, marido fiel, pai, etc. Mais parecia um príncipe encantado de contos de fada do que o típico jogador brasileiro até a década de 1990. Alguns destes, atletas com problemas dentro e fora de campo: encalacrados com pensões alimentícias, problemas com álcool, drogas, poliginia, etc.
Em 2009, a Fifa baixou uma portaria proibindo atletas de fazerem menções, durante partidas oficiais, a qualquer credo religioso. Essa medida da Fifa visava especialmente os atletas brasileiros que vinham praticando proselitismo religioso de maneira sistemática.
A prática de agradecer a Deus após cada gol marcado tornou-se uma constante especialmente nos atletas brasileiros. Mas o que de fato isso diz do nosso atual futebol e sobre a nossa atual sociedade? Pois o futebol sempre foi um termômetro e um indicador de nossa realidade, tanto metonímica quanto metaforicamente.
A ascensão dos neopentecostais é sintomática na sociedade brasileira e, como exemplo de sua irradiação no universo do boleiro, o jogador Neymar é devoto da Igreja Pentecostal de São Vicente, litoral paulista, e o centroavante do Santos, Ricardo Oliveira, é pastor da Igreja Assembleia de Deus. Os dois jogadores são titulares em suas equipes e são nomes certos nas convocações de Dunga para a Seleção Brasileira.
Bom, a partir daqui tentarei limitar-me ao escopo do argumento central desse texto: a relação entre neopentecostalismo e eficiência técnica no arremedo, abrasileirado, da prática de um futebol à Europa, cujo símbolo, para mim, é o jogador Kaká. Com isso, não abarco os matizes da própria discussão, deixando, por certo, para uma reflexão futura de maior fôlego. Por exemplo: tentar traçar o fio da ênfase no vigor físico na formação e na preparação dos nossos atletas que vem, talvez, desde a hegemonia de C. A. Parreira – preparador físico da Seleção Brasileira de 1970 – até os dias atuais com a preferência, por parte dos cartolas, dos atletas formados na base dos clubes. Pois, com isso, evita-se os “vícios” do jogador oriundo da várzea, estes que supostamente criam problemas dentro e fora de campo.

A ética protestante e o espírito do boleiro brasileiro
Se há uma hegemonia nos gestos de comemoração de gol no futebol brasileiro, ela não é à toa. Essa hegemonia reflete uma aguda crise de narrativa de visão de mundo em nossa sociedade. E na terra-assada das ideologias políticas deixadas pelo pragmatismo de coalizão do PT, e também pela cooptação, pela Direita, das Jornadas de junho (2013), a Teologia surge como a grande narrativa redentora que dá coesão e coerência para grandes grupos populacionais em nosso país, e os atletas de futebol também seguiram no mesmo diapasão. Muitos desses, oriundos de famílias e grupos sociais onde a religião é o único ordenamento na vida prática, pois no vácuo da presença estatal, dos sindicatos, das ONGs e outros grupos do terceiro setor, faz com que a Teologia torne-se a cosmovisão infalível da vida.
Basta lembrarmos que o último grande movimento organizado pelos jogadores brasileiros foi o Bom Senso FC, surgido no cabalístico ano de 2013. Não podemos desdenhar o grau de positividade, para os atletas brasileiros, desse movimento, aqueles, até então, explorados pela arbitrariedade do calendário Globo-CBF. Esse movimento espontâneo dos jogadores visava discutir e reivindicar melhores condições de trabalho para a categoria. Uma vez atingido o objetivo de: 30 dias de férias mais 30 de pré-temporada, o movimento arrefeceu. Talvez esse pragmatismo de circunstância, em nossa política partidária, seja uma triste herança que também fez morada no universo do boleiro.
Bem sabemos que há uma “plasticidade” nos interstícios da cultura brasileira e a religião não está isenta dessa nossa particularidade. A “plasticidade” é um conceito trazido por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, e fala sobre a capacidade do português em adaptar-se a quaisquer circunstâncias, seja ela natural ou antrópica, o que, por conseguinte, herdamos dos lusitanos.
Notícias apontam que o protestantismo praticado por nossos jogadores de futebol é prenhe de “plasticidade”. Parece que o neopentecostalismo praticado por este segmento não tem aquele “ascetismo intramundano” de que nos fala Max Weber, aquela conduta pessoal que não abre margem para fora do pietismo. Isto é, o protestantismo aqui é praticado com um pé na ideologia do “bem-sucedido” e com outro no desvio da norma, seja ela civil ou religiosa. Basta vermos o conjunto de jogadores que têm filhos fora do casamento, que compraram CNHs falsificadas, que sonegam impostos, mas que confessam publicamente adesões a credos de orientação cristã, seja em entrevistas, redes sociais ou sobretudo nas comemorações dos gols. O que mostra a incapacidade dos nossos boleiros levaram pra dentro e fora de campo a “ética protestante”. Nisso, a nossa “plasticidade” futebolística à Europa, falhou, como veremos mais à frente.
Parece um delírio o que vou falar agora, mas sugiro a vocês acompanharem os treinos e os campeonatos de futebol de base dos times profissionais, o que eu fiz em 2009 em pesquisa para a universidade, para ter uma ideia do que irei dizer. Não foram apenas as comemorações de gols que se homogeneizaram em nossos gramados; o nosso jeito de jogar também. Há uma rigidez em nossas equipes. Parece que estamos há uma década de atraso em relação ao futebol praticado na Europa hoje. Isso porque encalacramos nossa “plasticidade” futebolística num arremedo canhestro ao tentarmos plasmar o estilo de futebol à Europa: baseado na eficiência tática e no vigor físico, como fim em si mesmo, na formação dos nossos atletas. Negligenciando, com isso, nossas características históricas: futebol pautado na técnica, vocação ofensiva, improviso, e no paradoxal individualismo-coletivo do nosso futebol “arte”, “moleque”, “irresponsável” etc.
Inúmeros jogadores brasileiros com potencial ofensivo tiveram seu futebol torturado para jogar nesse arremedo do futebol técnico com eficiência tática. Talvez o meio campista Oscar (descendente direto de Kaká) seja o grande exemplo disso que estou falando. Torturamos o jeito de jogar de nossas bases como se fosse um leito de Procustus de um falso “ascetismo” futebolístico, assinalado na contrição da liberdade operada pela ideologia do “bom-mocismo”, e da eficiência tática das “duas linhas de 4”. Não estou aqui fazendo uma apologia à malandragem ou professando um ato de fé à era romântica do nosso futebol “arte”, longe disso. Reivindico, isso sim, a des-homogeneização da formação de nossos jogadores que está representada no cacoete da comemoração: “graças a Deus”.
Às vezes fico me perguntando, ao assistir os jogos dos estaduais e do Brasileirão, se desaprendemos a jogar futebol. Nossos jogos são medonhos de ser ver. Partidas com bombão, ligações diretas, equipes desarticuladas, inúmeras faltas etc. Tudo indica que o arremedo da eficiência tática de uma “ética protestante” à Europa materializou-se após a hegemonia dos treinadores gaúchos: Felipão, Dunga, Mano, Tite… Outrossim, após a Copa do Mundo de 2002 com sua ênfase no futebol pegado na base do 3-5-2 e, por fim, no futebol do “somar a qualquer custo” do modelo pontos corridos a partir de 2003, este consolidado no pragmatismo de Muricy Ramalho.
Não esquecer a falaciosa ideologia da “família Scolari” que veio de roldão durante a Copa de 2002, junto com o pagode “Deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho. Dois exemplos permeáveis à nossa “plasticidade” neopentecostal. De um lado, o tradicionalismo da cultura brasileira com seu apelo à família. Doutro, a crença ingênua do self-made man em meio às adversidades, do pagode: “Só posso levantar as mãos pro céu | Agradecer e ser fiel | Ao destino que Deus me deu | Se não tenho tudo que preciso | Com o que tenho, vivo | De mansinho lá vou eu”.
Notem que nossos times e nossa Seleção estão desaprendendo a jogar mata-mata. Basta observarmos a queda nos títulos da Copa Libertadores e nos últimos fracassos em Copa do Mundo. Talvez o grande indicador disso seja o esquema dos pontos corridos, hegemônico nos campeonatos nacionais na Europa e no nosso. Até nisso fizemos um arremedo mal feito. Os campeonatos que mais rendem emoções e melhores partidas são a Copa do Brasil e a Libertadores. O mata-mata privilegia nosso jeito de jogar futebol: dionisíaco-poético; o ponto corrido é europeu, apolíneo-prosaico.
Nossos jogadores, paradoxalmente, são mais “brasileiros” jogando na Europa do que aqui. Talvez porque lá eles tenham mais liberdade de atuação tendo em vista que a eficiência tática seja um direito adquirido, e não uma ideologia subserviente, como quis e fez Scolari com a Seleção de 2014.
Por fim, dois jogadores representam o ponto nevrálgico da mudança de orientação do futebol brasileiro, e eles são da mesma safra: Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Ronaldinho foi achincalhado, muito também pelo arrivismo do irmão-empresário, dentro e fora dos gramados, por praticar um futebol mais livre do arremedo da eficiência tática do nosso jogo e, talvez por isso, não enquadrou-se no futebol de marcação-eficiência do axioma “a bola pune”, a partir da segunda metade dos anos 2000. Enquanto Kaká foi mais longevo porque seu futebol permitia um diálogo com a ideologia da eficiência tática-comportamental dentro e fora dos campos. Intuo que o nosso futebol ficará ainda um bom tempo sob o signo de Kaká: o “bom-mocismo” revestido de “infiltrações” no corpo, futebol de arremedo inócuo e de mãos pro céu.

Kaká e Ronaldinho em treino da seleção brasileira

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