sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mais uma oportunidade perdida

Ensaio
Recebido em 20 de junho de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

O pensador, de Auguste Rodin.

É um fato, mas a maioria das esquerdas “finge” não entender que a atual disputa entre grupos político-partidários nada tem a ver com um processo de lutas pontuais e permanente contra o sistema capitalista. Lutas estas que deveriam expressar a essência de uma esquerda socialista, revolucionária e anticapitalista.
Contudo, o que inversamente se vê é uma total falta de compromisso para com as massas trabalhadoras em geral, que necessitam de representações autônomas e independentes para encontrar o seu próprio caminho. Um processo que requer uma nova percepção do papel a ser cumprido pelas esquerdas, no sentido de estimular, ajudar e facilitar as ações criativas dos movimentos populares comunitários para que se organizem pela base e possa, por conseguinte, ir consolidando o poder popular local. Entretanto, sem a devida efetivação destas experiências, jamais será possível sair-se da “armadilha” imposta pelas direções pelegas e reformistas, que atuam no sentido de participar do jogo democrático burguês, tão somente.
Agora, está-se vivendo uma situação difícil, em que partidos, ditos de esquerda, tentam colocar a classe trabalhadora a reboque dos interesses da burguesia, fazendo-a escolher entre as facções que disputam quem é (ou não) mais capaz de gerenciar o sistema. Quando estes mesmos grupos aparelham órgãos públicos e empresas estatais, assim como fundos de pensão, para usufruírem de uma série de saques através de reiteradas fraudes e desvios de dinheiro, provenientes de propinas das negociatas que são mascaradas e registradas como “doações” legais, sem a menor cerimônia. Uma desfaçatez! Com isto, estas tais organizações partidárias promovem uma tremenda confusão política e comprometem uma possível e necessária reorganização popular e classista, que viabilize uma retomada das lutas efetivas contra o capitalismo e venha a se constituir em avanços muito mais significativos e consistentes. Um círculo vicioso condicionado pelo reformismo, associado a um populismo bem matreiro, que induz a todos na direção de um “desenvolvimentismo” imaginário, sem que haja recursos econômicos viáveis disponíveis, desde que se dá profunda crise de redução do consumo e decrescimento da taxa média de lucros em todo mundo, o que acirra ainda mais o apetite dos grupos econômico-financeiros.
Um cenário nada favorável para todos os trabalhadores e aposentados, que passam a ter as suas conquistas ameaçadas, tendo direitos antes assegurados que poderão ser reduzidos ou até mesmo eliminados por governos de plantão associados aos setores rentistas e/ou monopolistas como um todo. Ora, não se pode jamais aceitar propostas que só trazem vantagens para as classes dominantes e suas variantes politicas, sejam elas quais forem. E muito menos optar por este ou aquele grupo político burguês que, eventualmente, poderá ou não proporcionar algumas mínimas concessões em troca de ganhos recorrentes para as corporações empresariais. Não! Esta não é uma proposição que interessa à classe trabalhadora, em qualquer tempo, pois está claro que quem deve administrar os “negócios” das classes dominantes é a própria burguesia, única e exclusivamente.
E justamente num momento de muita confusão e dificuldade para se compreender e desnudar as mazelas de uma sociedade agonizante, direções partidárias e sindicais propõem que se saia às ruas para se defender “um projeto” governamental social liberal, que se esgotou e nada mais tem a propor a não ser a continuidade da subordinação aos desígnios do capital globalizado. Em quaisquer dificuldades, os prepostos dos capitalistas promovem ajustes para reequilibrar a economia e retomar os ganhos financeiros, em detrimento da população em geral que sempre “paga o pato” em todas as circunstâncias. Lição esta que deveria ser aprendida e aplicada com honestidade por todas as correntes políticas que se dizem de esquerda, pois fora disso é apostar na falsa premissa de conciliação entre classes antagônicas, numa condição na qual somente os segmentos populares tudo perdem.
Essa é a lógica ilusória do reformismo via populismo de vários matizes, que se diz progressista sem buscar a transformação real da sociedade, na qual se vive, ainda, em pleno estado de desagregação continuada. É “um salve-se quem puder” usando-se o individualismo como apelação básica para contornar os problemas diários de perda do poder aquisitivo e de um endividamento forçado, incentivado pelos discursos de lideranças carismáticas e manipuladoras. Joga-se, portanto, um jogo “viciado” de cartas marcadas através da indução de que todos se beneficiarão no futuro, visto que o “bolo” será repartido no momento certo e cada um receberá uma boa “fatia” dele, o que se constitui num grande engodo.
Diante desses fatos, fica claro que não é nenhuma opção escolher com qual “chicote” deve-se conviver, abandonando-se as possibilidades de lutas objetivas e definidas pela transformação política e social. É, portanto, uma inaceitável submissão diante da absorvência capitalista, que na sua ganância desenfreada não mede esforços para obter cada vez mais lucros incessantes, independentemente dos prejuízos materiais e ambientais que possam causar. Então, o que nos oferece o capitalismo nos tempos atuais? Um futuro de prosperidade e bonança, ou situações de caos e barbárie? Estas e outras questões não podem deixar de ser discutidas em todas as partes, em todos os lugares, onde haja alguma possibilidade de questionamentos para um debate aberto e sério. Não obstante, em sentido claramente contrário a um imprescindível e premente crescimento da consciência política, as tais “esquerdas da ordem” tudo fazem para não informar nem esclarecer sobre a realidade do dia a dia.
Perde-se, então, uma grande oportunidade de se explicar as coisas de uma forma simples e didática, evitando-se que arrastem as massas para empreitadas que não as beneficiam na prática, enquanto o sistema capitalista, mesmo já esgotado, continua sobrevivendo com a ajuda de tais agrupamentos políticos esquerdizantes. Posto que, paga-se um preço muito alto, há décadas, por propostas inconsequentes sem que se retome o livre debate e se aprofunde o senso crítico sobre questões pendentes de ontem e de hoje, exacerbadas na conjuntura atual. Principalmente, quando se deveria rejeitar, pronta e firmemente, esta infame capitulação.
Com efeito, revigorar o pensamento socialista revolucionário e promover ações que se fazem necessárias para a viabilização de alternativas, na inevitável busca por uma nova sociedade, é uma questão crucial para toda a humanidade.

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