quarta-feira, 8 de junho de 2016

Construir outra esquerda é mais do que preciso!

Ensaio
Recebido em 18 de maio de 2016
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Antonio Berni | Manifestação (1934)

Os comunistas podem e, em determinada situação, devem apoiar eleitoralmente uma proposta de esquerda, mas não podem nem devem ser governo… Ser governo implicará conduzir, inevitavelmente, determinadas políticas  contra a classe trabalhadora” (Louis Althusser).

Com toda a certeza vai se lamentar muito os descaminhos trilhados pelas esquerdas em geral, tanto aqui no Brasil como em toda a América Latina. Situação esta agravada pelos impasses criados por governos populistas de vários matizes, que apostaram numa enganosa política desenvolvimentista para exercer, por um longo período, uma governança administrativa seletiva, em nome de povos que aceitam e se deixam tutelar por lideranças carismáticas.
Em face disso, estamos assistindo a uma total falta de compromisso com as históricas lutas dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo, em inúmeros embates pontuais contra capitalismo, em cada país. E quando é mais do que preciso informar, esclarecer e conscientizar a classe trabalhadora para avançar ainda mais e concluir pela necessidade da transformação social, lideranças de sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais, propõem que se defendam alguns governos de plantão, os quais aí estão, sobretudo, para gerenciar o sistema capitalista em busca de uma improvável conciliação entre classes. E tudo isto é feito em nome de uma “abstrata democracia” já que o tal “Estado Democrático de Direito” existe institucionalmente para viabilizar os interesses das classes dominantes, impingindo certa confiança e credibilidade perante a opinião pública e os que são “governados”.
Portanto, necessário se faz dizer que os tais governos que se intitulam populares e de esquerda, não estão e nunca estiveram a favor da classe trabalhadora. Muito pelo contrário, pois sempre se colocaram a serviço dos principais grupos econômicos que regem e dominam a economia e, principalmente, a sociedade como um todo. Ao povão somente algumas migalhas através de programas assistenciais, fruto de políticas sociais liberais, tendo por claro objetivo evitar possíveis revoltas contra uma realidade cruel e desumana, pois a pobreza e até mesmo a miséria continuam, enquanto a riqueza se concentra cada vez mais em poucas mãos. E assim, o capital, prontamente, agradece pelo que fazem em seu benefício.
De outro lado, cabe-nos denunciar a submissão dos principais movimentos sociais na condição de subalternos dessas diversas administrações, confundindo a todos que buscam perspectivas de vida em condições bem melhores que atuais como uma necessidade premente. E mesmo que isto não venha corresponder a uma elevação da conscientização política, desde que premida só pelas condições desaforáveis, a maioria da população quer respostas para suas reais demandas nas áreas de saúde, educação, transporte e moradia, principalmente. Serviços esses que deveriam estar à disposição de todos que deles necessitam.
Então, por que se colocar a reboque das burguesias quando deveríamos combatê-las? Desde o pós-ditaduras, a partir da década de 80, tem-se assistido a volta de um neopopulismo desprovido de qualquer conteúdo crítico em relação ao capitalismo em si. Governos que se dizem progressistas quando nada mais tem a propor em termos de participação política, a não ser a de aplicarem uma híbidra combinação de social-liberalismo. Ao mesmo tempo em que especula com falsas esperanças de melhoria de vida e prejudica, na prática, os setores mais carentes e vulneráveis da população, numa tramoia bem urdida e desavergonhada, em todos os níveis.
Diante desses inusitados fatos, cabe-nos sim fazer uma crítica contundente a essas esquerdas que sempre misturam intenções reformistas com o exercício do “poder” administrativo para impingir uma exposição falaciosa, tentando mascarar alianças com os setores conservadores, os quais estão somente interessados em manter as coisas tal como estão, sem reformas estruturais. No sentido, portanto, de justificar e efetivar coligações eleitorais para dar sustentação a uma aparente governabilidade, o que já deixa claro o abandono dos compromissos para com a classe trabalhadora e demais excluídos, caracterizando verdadeira empulhação política.
Não por acaso, constata-se que as crises se aprofundam no decorrer do tempo e a extrema direita se faz mais presente para viabilizar o seu plano de manter e reforçar lucros incessantes para os grandes grupos econômicos, enquanto estimula na outra ponta o reaparecimento de agrupamentos fascistóides como forma de intimidação e dominação das mentes. É sim um momento crucial no qual as burguesias cumprem com eficácia o seu dever de classe dominante em torno de saídas próprias, as quais possam alicerçar e enfeitar um discurso de caráter moralista e nacionalista em defesa da pátria, dos patrões, sem precisar de seus prepostos.
Por conseguinte, apela-se para que se deixe a própria burguesia gerenciar os seus negócios, baseados nos interesses capitalistas pessoais, ou de grupos. Pois, em contrapartida, cabe à esquerda socialista e revolucionária cumprir com presteza o seu histórico papel de lutar a favor da emancipação dos trabalhadores num processo de transformação política e social em busca de uma nova ordem, de uma nova sociedade sem exploradores e explorados.
Espera-se, todavia, que as revoltas que estão “pipocando” em todas as partes do mundo, diante das crises recorrentes de um sistema capitalista exaurido e dos golpes perpetrados contra direitos assegurados por leis, possibilitem avanços na direção de uma nova (outra) esquerda. Ao mesmo tempo em que elas venham estimular e possibilitar a retomada das imprescindíveis e necessárias revoluções socialistas, antes que se disseminem o caos e a barbárie por todo o planeta, destruindo a vida e, consequentemente, toda a humanidade, num trágico e insano enredo.
Enfim, não custa nada lembrar que o que deve interessar à classe trabalhadora é sua plena independência perante governos e patrões.


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