segunda-feira, 6 de junho de 2016

A maior das crises da indústria petrolífera

Ensaio
Recebido em 06 de junho de 2016
Por Heitor Scalambrini Costa, professor aposentado da UFPE

Inauguração de plataforma de petróleo da Petrobras

Grandes companhias petrolíferas tem diante de si uma enorme crise em razão de uma conjuntura que combina a queda do preço do petróleo com excesso de oferta, o arrefecimento da economia chinesa – sendo a China o maior consumidor de petróleo – e o retorno do petróleo iraniano ao mercado. Além da pressão dos acionistas para que o setor se adapte a realidade da vulnerabilidade dos negócios em face das mudanças climáticas. É uma nova crise para entrar na lista das grandes crises da indústria do petróleo com fortes resultados negativos: falências, desemprego e prejuízos, aumentando assim fortemente a insegurança dos investidores na indústria de óleo e gás.
O que se verifica neste contexto é uma movimentação intensa para avaliar e mapear a situação em detalhes, suas consequências, sequelas e apontar soluções que tragam melhores resultados para as companhias de petróleo e gás, prestadoras de serviços e fornecedoras de equipamentos. Existem fortes razões para concluir que as perdas e danos, com a continuidade da volatilidade do preço do petróleo, serão bem maiores na cadeia de fornecedores e prestadores de serviço.
No Brasil, aliados aos problemas da conjuntura internacional, uma crise sem precedentes atingiu a principal empresa nacional, a Petrobras. Responsável por uma cadeia produtiva que representa 13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, ela sofreu mais ainda com a desvalorização do real ante o dólar, o que contribuiu para aumentar o endividamento da empresa, além das descobertas decorrentes da Operação Lava Jato.
As atividades de Exploração e Produção (E&P) de petróleo e gás natural no ano de 2013 resultaram em mais de sessenta bilhões de reais de investimentos e geraram 60 mil empregos. No entanto, a partir de 2014, com a reversão do cenário internacional, os problemas de caixa enfrentados pela Petrobras e as mudanças ocorridas no ambiente de negócio da indústria petrolífera nacional provocaram impactos significativos sobre a economia brasileira. A redução do ritmo de investimentos na indústria petrolífera, em especial no segmento de E&P, diminuiu drasticamente as variáveis macroeconômicas, como o nível de emprego no setor e a geração de renda. Todavia a situação mais dramática da empresa ocorreu em 2015, quando chegou o risco da execução de suas dívidas por não ter seu balanço financeiro avalizado.
Hoje a Petrobras passa, segundo seu ex-presidente, “por uma recuperação financeira, redesenho organizacional e de gestão e a retomada da credibilidade da empresa”. Contudo, pouco se discute no âmbito da empresa a sua postura em relação ao seu papel nacional e internacional de ter como principal produto de negócio o maior vilão do aquecimento global, o petróleo. Ao contrário, o que mais se discute é a abertura total do mercado de exploração para atrair grandes corporações para a exploração do pré-sal. Ou seja, o entreguismo de um recurso natural estratégico, não como combustível, mas como insumo para vários setores da economia do futuro.
Para que o governo se alinhe com as preocupações globais com relação a política do clima, é necessário se discutir a transformação/reconversão da companhia em uma empresa de energias renováveis. Respeitando, todavia, as questões socioambientais em sua plenitude, e colocando sua responsabilidade corporativa, o da maior empresa nacional, como exemplo a ser seguido pela indústria brasileira que ainda teima em contrapor preservação ambiental e crescimento econômico.
Neste período sombrio que o país vive, com o conservadorismo em alta, e o que há de mais retrógrado na politica brasileira no comando do governo interino, é difícil acreditar que os atuais dirigentes efetivamente levem em conta as mudanças climáticas, e que elas sejam consideradas nas politicas públicas. E que a atual direção da Petrobras trilhe o caminho da sustentabilidade. Mas não desistiremos. A luta continua!

Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras, foi preso através da Operação Lava Jato

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