terça-feira, 17 de maio de 2016

O vermelho brilhante assanhou o formigueiro

Ensaio
Recebido em 14 de maio de 2016
Por Roselle Siqueira, sempre historiando as avós do Sancho.

Protesto contra desapropriações em frente à Alepe

Uma moça bate à minha porta, diz que é da Prefeitura do Recife e que está fazendo o levantamento das casas. Quer saber quantos moram, a idade, se tenho documentação da casa. Fico desconfiada e pergunto: para o que é mesmo? Ela me fala que a prefeitura quer calçar e sanear a rua. Moça educada, gentil mesmo. Dou todas as informações, e um rapaz, também da prefeitura, vem e põe o número catorze, com tinta vermelha brilhante no meu muro.
Acho muito estranho esse número pintado na minha casa, pois me lembra a estrela de David pintada pelos nazistas nas casas dos judeus. Desconfio que fui enganada. Telefono para meu filho. Ele sabe das coisas. Ele me fala que vai procurar saber.
À noite ele, com muito cuidado, me fala que a minha casa foi marcada para ser demolida, pois o governo quer mais uma vez aumentar o presídio. Caio no choro. Como podem fazer isso comigo? Nasci e criei meus filhos aqui nessa casa que herdei de meu pai. Onde vou morar agora?
Meu filho me fala que quem tem de sair é o presídio, não eu e meus vizinhos. Que isso está errado e que vamos lutar para que isso não aconteça. Engulo o choro. Meu menino de 34 anos tem razão. Vou lutar.
Agora, meses depois, já fiz passeatas, fiz faixas, fui dizer a Pedro Eurico, a Paulo Câmara e até a Geraldo Júlio que isso não pode ser assim. Que eu é fico e o presídio é que sai.
Já me juntei com parlamentares, ao Conselho de Direitos Humanos, ao MTST, às Brigadas Populares, ao Ministério Público, e até ao Arcebispo fui pedir ajuda, ainda que eu seja da Igreja Batista. Mas minha igreja já está na luta. Aliás, toda a região do entorno do presídio está conosco.
Sim, até aprendi a cantar uma música na última passeata que fizemos, onde passei bem na frente do presídio. Eu estava morta de medo, mas a música me ajudou muito:

Pisa ligeiro, pisa ligeiro.
Quem tem medo de formiga
Não assanha o formigueiro”.

Não sou mais formiga a ser esmagada. Sou um gigantesco formigueiro.

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